domingo, 5 de janeiro de 2014

FICÇÕES DO CICLO DA BORRACHA NO AMAZONAS



Lucilene Gomes Lima
 
 
FICÇÒES DO CICLO DA BORRACHA NO AMAZONAS
Estudo comparativo dos romances A selva, Beiradão e O amante das amazonas
 
SUMÁRIO
 
INTRODUÇÃO.
1.A TEMÁTICA HISTÓRICADO CICLO DABORRACHA.
2. A ABORDADGEM DO CICLO DA BORRACHA NA FICÇÃO AMAZONENSE .
3. A DIVERSIFICAÇÃO DA ABORDAGEM FICCIONAL DO CICLO DA
BORRACHA NAS OBRAS: A selva, Beiradão e O amante das amazonas
CONCLUSÃO.                         
BIBLIOGRAFIA.
 
 
 
I N T R O D U Ç Ã O
 
 
 
            Escritores brasileiros abordaram amplamente os ciclos econômicos através de sua prosa. A partir do movimento romântico, alguns romances de caráter regionalista ou sertanista já abordam as temáticas em torno dos ciclos econômicos, entre eles, podemos citar O garimpeiro, de Bernardo Guimarães, em que o ciclo da mineração é subsidiário da temática amorosa.
            Não obstante, a abordagem literária em torno dos ciclos econômicos ganhou maior expressão com os denominados romances de 30, em que não apenas ciclos econômicos, como o do cacau e da cana-de-açúcar são abordados num maior número de obras, como também fenômenos de calamidade geográfica, a exemplo da seca na região do Nordeste brasileiro.
            O ciclo econômico do cacau propiciou destaque, principalmente, para  a literatura de Jorge Amado, sendo Terras do sem fim (1942) um dos seus romances mais representativos sobre essa temática. Em torno do ciclo da cana-de-açúcar, destacam-se as obras de José Lins do Rego: Menino do engenho (1932), Doidinho (1933), Moleque Ricardo (1935), Usina (1936) e Fogo morto (1943). O ciclo das secas motivou igualmente a produção de várias obras: O quinze (1930), de Raquel de Queiroz, A bagaceira (1928), de José Américo de Almeida, e Vidas secas (1938), de Graciliano Ramos.
            Especialmente nos romances do ciclo das secas, desenvolveu-se um discurso literário peculiar e, às vezes, linear, em torno de alguns aspectos como a atuação da seca no ambiente e suas conseqüências para os agrupamentos humanos. Desse modo, em torno desse tema, tornaram-se comuns imagens da vegetação esturricada e do solo fendido pelo sol inclemente, do céu límpido e sem nuvens e das aves de arribação. Outra imagem comum é a peregrinação do retirante que abandona a sua terra em busca de condições de sobrevivência. Esse momento do êxodo do flagelado da seca estabelece uma relação com outro ciclo econômico, amplamente explorado ficcionalmente, o “ciclo da borracha”.
            No Amazonas, desenvolveu-se uma literatura que abordou o ciclo econômico da borracha. Uma das primeiras obras sobre este tema, O paroara (1899), de Rodolfo Teófilo, faz a mediação entre o ciclo da seca e o da borracha, uma vez que trata do deslocamento dos nordestinos até a Amazônia para trabalharem nos seringais.
            Considerando-se como marco inicial O paroara, a ficção sobre o “ciclo da borracha” completou um século de produção. Podemos afirmar que a abordagem teve uma continuidade ao longo desse século, pois cada década apresenta pelo menos uma obra. Nesse contínuo, evidenciamos uma constância de abordagem em termos de um tratamento maniqueísta, em que o explorador (o seringalista) aparece como um ser vilanesco sem que sejam enfocadas as determinações históricas mais profundas do processo econômico. A recorrência à História aparece apenas como suporte documental para várias obras que procedem a enumeração e descrição de alguns tópicos (vida no barracão e nos centros de extração, carência sexual dos seringueiros, truculência do patrão seringalista, entre outros).
            A fim de compreendermos o conjunto de abordagem em torno do tema, procedemos a uma divisão de fases nas quais, pudemos constatar características mais específicas, entre elas o epigonismo, a partir da reprodução dos estilos de Euclides da Cunha e de Alberto Rangel. Localizamos as obras que apresentam essa característica na primeira fase, que compreende as primeiras publicações a partir de O paroara até A selva, de Ferreira de Castro. Após a publicação de A selva, a tendência epigônica não mais se verifica e as obras passam a apresentar estilos diversos.
Verificamos na maioria das obras da primeira e da segunda fase, a manutenção da constância em torno do tratamento maniqueísta. Na terceira fase, apontamos a obra O amante das amazonas (1992), de Rogel Samuel, que promove uma diversificação mais profunda em relação à constância de abordagem referida. Na primeira e segunda fases, fizemos um recorte de outras duas obras, A selva (1930), mencionada acima, e Beiradão (1958), de Álvaro Maia, por considerarmos que essas obras também promovem uma diversificação na abordagem ficcional. As três obras que englobam o recorte de diversificação na abordagem do ciclo foram selecionadas também tendo em vista o fato de que apresentam uma ligação de seus autores com o mundo do seringal. Paralelamente também consideramos que essa experiência é perpassada por três visões distintas dos autores; a do escritor imigrante, Ferreira de Castro; a do escritor político, Álvaro Maia; e do escritor analista literário, Rogel Samuel.
            Nosso estudo encontra-se dividido em quatro momentos ou partes. Procedemos inicialmente a um apanhado dos fatores históricos caracterizadores do ciclo. Esse procedimento teve como objetivo apresentar as determinações econômicas do ciclo como forma de situar as obras nesse contexto. Na segunda parte do estudo, apresentamos um apanhado do universo de obras do “ciclo da borracha” na literatura amazonense a fim de identificarmos a constância da abordagem. Na terceira parte do estudo, apresentamos as obras que constituem o recorte em torno da problemática da diversificação e desenvolvemos uma análise particular de cada uma delas. Encerramos o estudo, procedendo a interligação entre as três obras e os seus respectivos autores, fazendo uma análise comparativa em que procuramos apontar tanto os pontos de contato quanto os de afastamento entre os autores e as obras.
            O referencial teórico que dá suporte ao nosso estudo concentra-se principalmente no argumento que Mário Ypiranga Monteiro desenvolve em Fatos da literatura amazonense, a saber: a literatura amazonense em torno do “ciclo da borracha” não apresenta diversificação em relação ao tratamento do tema. Nessa carência, o autor aponta como exceção o romance A selva, de Ferreira de Castro. A selva é igualmente apontada por Márcio Souza em A expressão amazonense como o único romance que conseguiu desfazer o círculo de ostentação das letras amazonenses, baseado numa retórica vazia e acrítica. Segundo o autor, a obra desvela realisticamente o processo do “ciclo da borracha”.
            Empreendendo a análise de A selva apontamos detalhadamente a coerência da organização estrutural do romance em relação à abordagem do tema. Acrescentamos, todavia, as nossas considerações acerca do determinismo acentuado na obra, o qual prejudicou a sua construção crítica sobre o ciclo.
            Na abordagem de Beiradão, consideramos e dialogamos com o estudo empreendido por Neide Gondim em Simá, Beiradão, Galvez, imperador do Acre: ficção e história. Especialmente a assertiva de que Beiradão rompeu com o protótipo do coronel de barranco foi de valia para o nosso estudo que se pauta pela ocorrência de diversificação nas obras do ciclo. Consideramos e nos apoiamos também no estudo de Heloína Monteiro dos Santos: Uma liderança política cabocla – Álvaro Maia - apontando a ideologia subjacente no posicionamento político do autor.   Por fim, a análise que procedemos em relação à obra O amante das amazonas teve como suporte teórico o texto Crítica da escrita,  do próprio autor, mediante o qual podemos compreender as concepções estéticas explicitadas na criação de sua obra ficcional.
                                                               1
 
 
                       A TEMÁTICA HISTÓRICA DO CICLO DA BORRACHA
 
 Origem e exploração da hévea
 
O “ciclo da borracha” é um evento na história econômica da Amazônia que enseja farta matéria de estudo. Da atividade extrativa da borracha decorrem também outros fatos históricos como a conquista do Acre[1] e a construção da ferrovia Madeira-Mamoré[2]. Em virtude desses fatos, as fronteiras amazônicas foram alargadas, surgindo novos estados: Acre e Rondônia. A seca nas zonas agrestes do sertão do Ceará, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e outros estados nordestinos também está estreitamente ligada ao ciclo[3] à medida que os milhares de nordestinos[4] banidos por esse flagelo formaram o grande contingente de trabalhadores nos seringais do Pará, Amazonas e Acre.
A espécie que possibilitou a exploração extrativa e o decorrente fastígio econômico na Amazônia já era conhecida pelos povos americanos com os quais os colonizadores europeus tiveram contato. Reis[5] informa que Cristóvão Colombo, na segunda viagem que fez à América, viu a goma sendo utilizada pelos índios do Haiti. Por outro lado, de acordo com Rodrigues, a goma já era conhecida por antigos povos do México – os Mayás e os Nauhás. Além do emprego para necessidade própria, eles estabeleciam o comércio da goma elástica com outros povos, chegando a promover exportação em grande quantidade. Segundo o autor:
 
[...] As cidades do Golpho do Mexico, pagavam aos Astecas, annualmente, entre outros, um tributo de 16.000 cargas de gomma elastica, segundo os melhores historiadores. Entre outros empregos, que lhes davam, figuravam as bolas para o seu jogo da péla, que se estendeu, entre algumas das nossas tribus indigenas, até ao sul do Brazil[6].
 
            Ainda segundo Rodrigues[7], entre os povos que se espalharam pela América do Sul, uma das subdivisões da tribo dos Nauhás que desceu para o rio Amazonas difundiu o uso da goma elástica. Essa subdivisão tornou-se conhecida como a tribo dos Omáguas. A forma como os Omáguas extraíam e preparavam a goma elástica era desconhecida até o século XVI. Quando as missões portuguesas, em fins do século XVII, começaram a ter contato com as tribos amazônicas, obtiveram com essas tribos os produtos que foram enviados para a Europa. Entre esses produtos estavam os objetos feitos de goma.
            As denominações seringueira e borracha surgiram por um acaso lingüístico. A primeira deveu-se a uma relação metonímica, uma vez que a seringa sempre aparecia entre os utensílios fabricados com o látex, levando os portugueses a denominarem a árvore que produzia esse leite de seringueira. Quanto à segunda denominação, surgiu da associação que os portugueses fizeram em relação aos vasos feitos de goma elástica pelos índios, os quais lhes pareceram semelhantes aos objetos de couro que utilizavam e denominavam de borracha. Por extensão de significado, borracha passou a denominar a substância de que eram feitos os objetos de látex pelos índios.
            Os índios trocavam, com os missionários portugueses, bolas, seringas ou borrachas por bugigangas. Os missionários haviam descoberto que a goma era útil para proteger seus pés da umidade excessiva e cobriam os sapatos com ela. Posteriormente, passaram a confeccionar os próprios sapatos da goma. Já em 1755, os calçados de borracha eram utilizados no Pará e em Lisboa. Aproveitou-se também a capacidade impermeável da borracha para confeccionar mochilas para os soldados portugueses. Após Charles Marie de La Condamine enviar para a França a primeira amostra da goma elástica, em 1735, iniciou-se o emprego industrial da goma na Europa. As exportações de sapatos e seringas pelo Pará datam de 1850. Além de objetos manufaturados, exportava-se também a borracha bruta.
            Para que a goma pudesse oferecer o máximo de rentabilidade à indústria, foi necessário descobrir uma forma de torná-la resistente ao calor e ao frio e manter sua elasticidade inalterada. Através do processo de vulcanização, desenvolvido simultaneamente pelo inglês Thomas Hancook e pelo americano Charles Goodyear em 1844[8], isso se tornou possível. A partir daí, a borracha deixa de representar um pequeno comércio de manufatura, existente desde os tempos da colônia, e passa a ser uma matéria-prima requisitada pelo comércio mundial:
 
A procura intensiva que os mercados consumidores da Europa e da América  passaram a fazer da borracha silvestre, ante a utilização cada vez maior por que ela se apresentava aos industriais, animando as solicitações pela alta dos preços que pagavam , deu um alento fora do comum à atividade coletora. Onde existia árvore produtora de látex, registrou-se a aventura. Nas Américas e na África. Ora, de todas as áreas onde se operava a exploração da floresta com aquele objetivo, a Amazônia era a que oferecia mais seguras e amplas possibilidades pela quantidade de seringueiras que parecia fabulosa pela riqueza que as árvores apresentavam em látex.  A busca às seringueiras pareceu, em conseqüência, sem fim e negócio de possibilidades ilimitadas [...][9].
 
            Os preços em alta da borracha no mercado internacional atraíram uma corrida à extração do “ouro negro”. As terras agrárias foram sendo abandonadas[10] em função da extração do leite das seringueiras nas regiões do Marajó, Xingu, Jary, Guamá, Acará, Moju, Madeira, Solimões, Purus. A extração do látex também se deu em terras da Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela.
            A falta de estabilidade na terra, o espírito aventureiro e arrivista que caracterizaram as relações econômicas no “ciclo da borracha” são, muitas vezes, apontados como falhas que levaram esse sistema extrativista da prosperidade econômica à derrocada. As bases que fundamentavam a lógica desse sistema, entretanto, não se apoiavam numa economia fixa e sim de transplante. A própria estrutura física dos seringais demonstrava que o negócio da borracha exigia apenas uma infra-estrutura primária que possibilitasse ao patrão ou seringalista dirigir o processo de extração do látex baseado numa contabilidade que atava o seringueiro ao trabalho. As condições de moradia do seringalista e do seringueiro eram improvisadas de modo que cumprissem seu papel no sistema extrativista. O tapiri do seringueiro não era exatamente uma moradia, mas o local de trabalho onde ele transformava, num processo rudimentar, o látex extraído das seringueiras em pélas de borracha. O fato de que o sistema não promoveu uma fixação à terra está na razão de seu funcionamento[11], pois se tivesse promovido essa fixação não teria se realizado da forma que se realizou e os próprios elementos que o integravam não teriam tido na pirâmide do sistema extrativo a posição que tiveram. Passaremos a explicitar essas posições a seguir.
 
As firmas importadoras-exportadoras e as casas aviadoras
 
            As bases do sistema extrativista da borracha compunham uma pirâmide em que no topo estavam as firmas importadoras-exportadoras, representantes do capital estrangeiro, mais especificamente dos Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e Alemanha. Essas firmas  movimentavam o capital de giro do ciclo, não permitindo nenhuma base sólida à economia local, como ressalta Antônio Loureiro:
 
As firmas exportadoras eram, na realidade, as detentoras do capital movimentador do ciclo, que poderia ser retirado de circulação, em tempo relativamente rápido, como ocorreu, pois suas transações abrangiam, apenas, a compra da matéria-prima e a sua venda em mercado certo, sempre em alta. A qualquer sinal de crise, o que podia ser previsto com antecedência, por não terem capital imobilizado, sairiam da região com relativa rapidez. Os lucros eram investidos no exterior, ou em companhias de melhoramentos urbanos, garantidos pelo País.[12]
 
            As casas aviadoras eram estabelecimentos comerciais que despachavam mercadorias aos seringais mediante pagamento em pélas de borracha[13].  Eram financiadas pelas firmas exportadoras. Funcionavam, a princípio, exclusivamente, em Belém e depois passaram a se estabelecer em Manaus, quando o governo do Amazonas decretou o beneficiamento do látex nessa cidade. Benchimol denomina o período em que os donos de casas aviadoras estavam estabelecidos e prósperos em Manaus de “era dos Jotas” numa alusão ao fato de que a maioria desses aviadores chamavam-se Josés, Joaquins e Joões. O autor relata que era comum os aviadores receberem o título honorífico de comendador como forma de o governo português conferir prestígio àqueles conterrâneos que haviam conseguido enriquecer fora de sua terra. O título era concedido pelo governo português e também pelo Vaticano.
            Em alguns casos, a comenda que não havia sido concedida oficialmente tornava-se corruptela para o comerciante português rico.[14] De todo modo, o status dos aviadores tinha como base real os seus recursos financeiros que se mediam pelos bens que conseguiam amealhar, entre eles barcos para transportar as mercadorias para os seringais, indústrias de alimentos, fazendas de criação. A importância dos aviadores estava na dependência que os seringais lhes tinham. Sem os aviamentos, esses seringais não funcionavam. A relação entre os aviadores e os seringalistas era, em grande parte, de troca de produtos – produtos industrializados pelo produto da natureza – apesar de os seringalistas também receberem em dinheiro o saldo da transação. A relação de troca repetia-se entre os seringalistas e os seringueiros. Reproduzia-se, entre o aviador e o seringalista e entre o seringalista e o seringueiro, a majoração excessiva do valor dos produtos. Além da majoração dos preços em geral, o aviador também fornecia aos seringalistas produtos vindos dos mercados europeus, os quais, mais que encarecer os aviamentos, destoavam dos hábitos alimentares locais. Leandro Tocantins refere alguns dos alimentos em conserva que constituíam a alimentação nos seringais e que contribuíam para o enfraquecimento do organismo por falta de vitaminas e sais minerais:
 
[...] Ao esmiuçar-se as notas de fornecimento para os seringais, há uma revelação surpreendente, que é a numerosa lista de alimentos em conserva: carne de bife, carne-seca, salmão, sardinhas portuguesas, toucinho, chouriço, atum, ervilhas, doces enlatados, leite condensado, camarões em conserva, queijos da Holanda, manteiga francesa, bacalhau português[...][15]
 
            O historiador Arthur Reis cita uma extensa lista de produtos que eram despachados nos aviamentos, dos mais necessários ao trabalho de extração e para sobrevivência no meio da floresta, como as tijelinhas onde se aparava o látex e as armas para defesa, aos requisitados para outras necessidades, entre elas, o entretenimento, como é o caso do gramofone. Reis chama a atenção de que os custos dos aviamentos dependiam da importância dos seringais. Os que possuíam mais estradas e que, em virtude disso, produziam maior quantidade de látex, recebiam tratamento prioritário em relação aos seringais menores. Ressalta também que o custo dos aviamentos tornava-se mais caro para aqueles seringais que se localizavam em áreas de difícil acesso, como as dos altos rios ou dos rios encachoeirados. Reis também destaca que “[...] vezes e mais vezes o seringalista era devedor e não credor [...].”[16] Isso se dava porque o comércio da borracha era de risco e daí aviadores e seringalistas estarem sempre preocupados com a oscilação do preço do produto, especialmente com a queda excessiva do preço que poderia significar a ruína financeira, o que de fato ocorreu.   
 
Seringalistas ou coronéis da borracha
 
            Os seringalistas constituem precisamente o elo intermediário na pirâmide do ciclo extrativo da borracha. Ligam-se ao aviador, comprador do produto internamente, e ao produtor ou extrator, o seringueiro. A imagem clássica do seringalista é a do homem poderoso, de origem quase sempre nordestina, trajando terno de linho branco “HJ”, chapéu-chile, utilizando bengala e relógio de algibeira. Tornou-se também comum a imagem dos seringalistas como homens rudes e incultos, prestigiados apenas por seu poder  econômico. O historiador Arthur Reis destaca que havia seringalistas que fugiam a esse padrão, possuindo escolarização e boas maneiras, adquirindo comportamento requintado através das viagens que faziam, o qual se ostentava nos ricos palacetes que mandavam construir na cidade.[17] Pesa também sobre os seringalistas a fama de esbanjadores. Assim, tem-se a imagem de seringalistas que acendiam charutos cubanos com notas de quinhentos mil réis.[18] Os seringalistas tornavam-se senhores em seus domínios em função  do sistema de exploração a que estavam manietados.[19] O débito dos seringueiros lhes dava amplos poderes sobre eles, inclusive de caçá-los em fuga e recebê-los de volta com auxílio do poder público. Como forma de reforçar seu status, os seringalistas obtinham, por meio de relações políticas, a compra de patentes da Guarda Nacional. Desse modo, surgiram os “coronéis de barranco”. Semelhantemente ao que ocorria com os aviadores, em relação à comenda, a patente dos coronéis era atribuída por força do hábito de se considerá-los homens importantes, mesmo que não a tivessem recebido oficialmente. Atuando como potentados, os seringalistas exerciam força moral, política e mesmo policial em seus domínios, estabelecendo vínculos de compadres e afilhados, fazendo conchavos e acordos para apoiar candidatos às eleições municipais e estaduais, resolvendo brigas, combatendo as invasões de seringais vizinhos, justiçando criminosos e exercendo poder para prender e punir seringueiros que fugissem de seu seringal.
            O perfil social do seringalista, que imprimia obediência no seringueiro e o mantinha subalterno, estava sustentado em uma fraqueza econômica: o capital fictício. Os seringalistas não possuíam verdadeiramente capital, dependiam do financiamento de mercadorias das casas aviadoras. Sem essas mercadorias, não possuíam uma forma de manter o vínculo empregatício com o seringueiro, arruinando o seu empreendimento. Para obter lucro num negócio tão instável, lançavam mão da sobretaxa de preços nas mercadorias que repassavam aos seringueiros. O lucro que obtinham dessa sobretaxa era investido na compra de residências nas capitais Belém ou Manaus, em tratamentos de saúde, em viagens e em gastos supérfluos. 
            Mesmo não existindo um vínculo empregatício legal entre o seringalista e o seringueiro, o primeiro impunha ao segundo um regulamento, determinando os seus direitos e deveres. Deve-se ressaltar que a obediência ao regulamento também se estendia aos gerentes de depósitos, guarda-livros, encarregados de escrita, empregados de balcão, comboieiros, fiscais, empregados de campo, diaristas. Um regulamento de 1934, dos seringais de Octávio Reis, transcrito por Samuel Benchimol em seu livro Romanceiro da batalha da borracha, esclarece, na abertura, a necessidade de sua existência.
 
‘Toda a nação tem as suas leis para por ellas reger-se, e se, estas leis não são obedecidas por seus habitantes será uma nação em completa desorganização, onde não poderá haver garantias para os que nella vivem, nem para quem com ella mantiver negócios.
Sucede o mesmo com toda a sociedade que tem os seus estatutos para por elles regerem-se os seus sócios, e se não se obedece  a elles será uma sociedade desbaratada e sem duração. Até nas casas de famílias, para serem bem organizadas, teem que obedecer a uma ordem, sem a qual virá logo a desorganização, e dahi os resultantes desgostos de família, que infelizmente é o que mais acontece.
Como, pelo que vemos, tudo precisa de organização e ordem. Um Seringal, por exemplo, onde habitam centenas e centenas de almas, com diversos costumes, sexos diversos, e até nacionalidades diversas, não póde deixar de ter o seu regulamento, pelo qual todos os seus habitantes possam orientar-se de seus deveres de acordo com as posições e trabalho de cada um’.[20]
 
            O caráter mercantil do seringal é substituído em determinada passagem do regulamento pelo conceito de família. “[...] Precisamos notar que no seringal somos uma só família no cumprimento de nossos deveres, sem excepção de raça, crença religiosa, nacionalidade e posição [...].”[21] Nos deveres dos gerentes encarregados dos depósitos, o regulamento prescreve na linha “h” a exata importância do freguês ou seringueiro nas relações “familiares” do seringal: “[...] o freguez só é amigo e cumpridor dos seus deveres quando tem saldo.”[22] A lógica mercantil do lucro é ressaltada na linha “c”, componente dos deveres dos empregados de balcão:
 
[...] o productor perde dois ou treis dias para vir do centro reclamar uma caixa de fósforo que lhe saia por engano a mais na sua conta, deixando de produzir muitas vezes por este pequeno engano, borracha que lhe daria para comprar uma lata, ficando por este facto mal visto tanto o empregado do balcão como o guarda-livros que forneceu a nota, e por muitos são ainda considerados de ladrões. Portanto é preciso a maxima attenção para não se enganar nem a favor nem contra a casa.[23]
 
            Nos deveres do extrator, é explicitada a sua exclusiva condição de trabalho: “[...] Deve ter em consideração que quando vem para os seringaes e se colloca como extractor, é para produzir borracha [...]”[24] e de negociação do produto de seu trabalho: “(e) fazer as suas transacções somente com o deposito onde trabalha para engrandecimento deste, e não o fazer com outro deposito, mesmo que seja da mesma firma, muito menos com pessoas extranhas à casa [...][25].
            Na visão do seringalista, a seringueira, fonte da riqueza, “hévea-ouro”, requer o carinho e o respeito do seringueiro pois, diferentemente do que parece explicitar o regulamento, ela o transforma em homem livre, apesar de sua ignorância o prender unicamente ao trabalho de extração:
 
[...] Portanto, devemos ter carinho para com a seringueira que nos proporciona tantos dias felizes e não sejaes ingratos, senhores extractores, para com a árvore bendita que vos proporciona um trabalho remunerador, que vos livra do chichote do capataz, que faz do extractor senhor de si proprio, dono de sua casa, sabendo a que horas que come e que dorme, vivendo em contacto diario com a sua familia, tendo o conceito de todos, merecendo a estima do patrão que trata o bom productor como um de seus melhores amigos. Pensem e reflictam que não há outro mister que favoreça ao homem inculto tantas vantagens, - digo inculto  porque para cortar seringa não precisa ser formado em cousa alguma, basta somente ter caracter e vergonha para ser um bom seringueiro.[26]
 
            Num regulamento como esse, que Benchimol ajuíza não ter sido determinado por um seringalista desumano, apesar de admitir que os tiranos existiam, é possível perceber que os seringueiros tinham mais deveres do que direitos. As situações que prenderam o seringueiro ao seringalista na condição de semi-escravo deram margem à expressão vilanesca da figura do seringalista na prosa de ficção, como adiante se verá.
 
 
 
Os seringueiros
 
            Os nordestinos chegaram em grandes levas à Amazônia, banidos por períodos de seca inclemente ocorridos no final da década de 1870.[27] A vinda dos imigrantes nordestinos constituía uma dupla solução para os governos do Norte e Nordeste: aumentava a oferta de mão-de-obra nos seringais amazônicos e diminuía o excedente populacional no Nordeste, que aumentara com o desenvolvimento da economia algodoeira no início do século XIX. O interesse dos governos amazônicos nessa mão-de-obra, com o fito de aumentar a extração do látex, levou-os a organizarem um serviço de propaganda e a promoverem a concessão de subsídios para gastos de transporte. Desde 1852, a Companhia de Navegação e Comércio do Amazonas, criada pelo Barão de Mauá, iniciara uma linha regular de transportes que favoreceria o transporte de mercadorias e também dos milhares de nordestinos arrebanhados para o trabalho de coleta do látex.
            O deslocamento de pessoas para o trabalho nos seringais já ocorria antes da imigração nordestina. Segundo nos informa Rodrigues, os seringalistas pioneiros que descobriam uma área rica em seringueiras passavam a explorá-la e convidavam famílias tapuias a trabalharem nesses incipientes seringais, oferecendo-lhes “avultados lucros”. Tal como ocorreria mais tarde com os nordestinos, essas famílias recebiam um adiantamento em mercadorias, roupas e munições para ser pago com seringa. Os que aceitavam a oferta abandonavam suas criações e lavouras e acompanhavam o patrão. Ressalta o autor que desse modo “seguiam familias e extinguiram-se povoações inteiras”.[28] Apesar desse quadro, foi o deslocamento dos nordestinos que transformou radicalmente o contingente de mão-de-obra nos seringais e alterou a formação populacional da Amazônia no século XIX.[29]
            Há quase uma unanimidade no motivo que levou o nordestino a abandonar sua terra e rumar para a Amazônia para trabalhar nos seringais. A seca e, em decorrência dela, a falta de condições de sobrevivência, justifica a maioria dos casos. Há, porém algumas situações em que o êxodo foi motivado pelo gosto da aventura e/ou pelo desejo de fazer fortuna, sendo que o último motivo, na maioria das vezes, está consorciado com a condição de flagelado do imigrante, conforme se nota nesse depoimento de um agricultor, colhido no livro Romanceiro da batalha da borracha, de Samuel Benchimol:
 
‘Vim mode conhecer isso aqui. Todos me diziam que o Amazonas era uma terra de bondade. Se ajuntava dinheiro com ciscador. Era só apanhar dinheiro com as mãos e voltar. Então, eu disse comigo, que eu ainda hei de conhecer essa terra. Gosto do inverno, sem comparação. Eu estava em União. A moda lá é vir pro Amazonas. É só o que se fala por lá. A animação no Ceará é grande. Só se fala no Amazonas, nas suas riquezas, nas suas facilidades. As coisas por lá andam mesmo ruim. A terra anda virando pó. Está tão seca que nem língua de papagaio. Não há ninguém que podendo vir não vem.
Sempre tive vontade de conhecer isto aqui. Todo mundo me falava nela. Eu vim antes que fosse tarde demais. Dois anos que faz seca. Estamos entrando no terceiro. Lá é assim: um ano só verão, no outro não há inverno. Não há quem possa viver.[30]
 
            Esse depoimento foi obtido, de acordo com o que informa o autor, no período de 1942 a 1944, quando o ciclo já atravessara a crise que levara a queda vertiginosa do preço da borracha. Ainda assim, permanecem significativos no relato os mesmos motivos que levaram à imigração a partir da segunda metade do século XIX.
 No auge da imigração, compreendido no triênio 1898/1900, a realidade com que o transumante se deparava, a começar pela viagem que o levaria aos seringais, era desanimadora dos sonhos de riqueza e das promessas de facilidade na região amazônica. Viajavam nos porões dos barcos conhecidos como gaiolas ou vaticanos e chatas.[31] A passagem, segundo o que lhes informavam quando eram recrutados, seria paga pelo governo. Ao chegarem aos seringais, os brabos,[32] aspirantes a seringueiros, descobriam que a passagem assim como as despesas de viagem, as ferramentas necessárias à extração do látex e os mantimentos para sobrevivência eram o primeiro débito que contraíam para o trabalho nos seringais. A saga, muitas vezes inglória, do nordestino na Amazônia, seduzido por um eldorado que existia na sua fantasia e não na realidade, é sintetizada por Miranda Neto:
 
O nordestino na Amazônia começava sempre a trabalhar endividado, pois via de regra obrigavam-no a reembolsar os gastos com a totalidade ou parte da viagem, com os instrumentos de trabalho e outras despesas de instalação. Para alimentar-se dependia do suprimento que, em regime de estrito monopólio, realizava o mesmo empresário com o qual estava endividado e que lhe comprava o produto. As grandes distâncias e a precariedade de sua situação financeira reduziam-no a um regime de servidão. Entre as longas caminhadas na floresta e a solidão das cabanas rudimentares onde habitava, esgotava-se sua vida, num isolamento que talvez nenhum outro sistema econômico haja imposto ao homem. Demais, os perigos da floresta e a insalubridade do meio encurtavam sua vida de trabalho.[33]
 
            Convém ressaltar que as doenças que vitimaram milhares de nordestinos, entre elas o beribéri, advieram da própria qualidade de sua alimentação – geralmente produtos enlatados e pobres em proteínas. A dependência dessa alimentação que fazia parte dos produtos aviados pelos seringalistas não era uma decisão voluntária do seringueiro, constituía, na verdade, peça-chave no funcionamento do sistema de extração implantado nos seringais, uma vez que se os seringueiros passassem a se dedicar à agricultura de subsistência, à caça ou à pesca reduziriam o trabalho de coleta e beneficiamento primário do látex que deveriam cumprir rigorosamente na rotina de um dia de trabalho, ocasionando, portanto, menor produção de borracha.
            O historiador Arthur Reis acredita que as condições a que estava sujeito o seringueiro se justificam por um processo natural e não como fruto de uma exploração econômica inescrupulosa:
 
Tais relações [...] devem ser explicadas pela barbaria do meio-natureza e do meio-sociedade em formação. Porque, se o aviador e o seringalista exploram o seringueiro, este não se comporta melhor. Vinga-se com as armas de que dispõe e de acordo com o primarismo de sua inteligência, das coisas e dos homens. Assim é que negocia às escondidas a produção de sua safra, lesando o seringalista, entrega-se à madraçaria, diminuindo a produção ou extraindo  látex por processo proibido para aumentar a purgação e dispor de safra maior que lhe garantirá saldo-credor.[34]
 
            As relações que procedem de um processo de espoliação econômica transformam-se, nessa percepção, num jogo de vingança. A suspeição sobre a honestidade do seringalista ao lançar a dívida do seringueiro nos livros mercantis foi, por outro lado, levantada pelo historiador, ao ressaltar que havia a possibilidade de os seringalistas usarem de expedientes desonestos para manterem os seringueiros sempre devendo e, em virtude disso, trabalhando para eles.
            O seringueiro, mais do que expropriado do justo valor do seu trabalho, sofre, na maioria dos casos, a expropriação do direito de constituir família. Para muitos seringalistas, mulheres e filhos, tal como a agricultura de subsistência, significavam redução de produção nos seringais. Daí o ser feminino tornar-se escasso no momento de alta exploração dos seringais, em oposição às famílias caboclas que caracterizavam os primeiros tempos de exploração. A imagem de solidão do seringueiro e as histórias de seus desregramentos sexuais têm como fonte de inspiração a ausência ou escassez da mulher no meio onde se constituíam os seringais.
 
 
O auge e a decadência do ciclo econômico da borracha
 
Em 1901, a produção de borracha na Amazônia atingia 29.971 toneladas, quase o dobro do número atingido em 1891, que fora de 17.790 toneladas. A partir daí, ocorreu uma produção crescente até 1911, quando se registrou o ponto mais alto – 44.296 toneladas.[35] A quantidade de borracha produzida não oculta os sinais de queda nos preços ocorrida de forma mais intensa principalmente de 1913 em diante, mas é indicadora de que o mercado amazônico era, até então, o maior mercado produtor de borracha natural fina.
A fase áurea do ciclo foi caracterizada pela presença do capital internacional, notadamente inglês, nas capitais amazônicas. A comprovação de que os ingleses faziam a linha de frente na comercialização da borracha ostentava-se na instalação de uma agência do London Bank of South America em Manaus.
Alguns acontecimentos ocorridos a partir de 1850, como a criação da Província do Amazonas (1850), a introdução da navegação a vapor (1852) e o decreto imperial que abriu a navegação do rio Amazonas ao comércio estrangeiro (1871) já prenunciavam os anos de riqueza promovidos pela exploração da borracha. Segundo Daou, “[...] entre 1898 e 1900, a borracha foi responsável por 25,7% dos valores das exportações brasileiras, sendo superada apenas pelo café (52,7%) ”[36]
O ciclo ocasionou um processo de transformação urbana durante a segunda metade do século XIX nas capitais dos estados do Pará e do Amazonas. Esse processo configurou-se a partir do modelo de modernidade européia. No tocante à capital paraense, Sarges comenta:
 
Guardadas as devidas diferenças em relação às cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, a cidade de Belém do Pará, apresentaria, assim, a partir da segunda metade do século XIX, tentativas de adaptação aos modernos costumes europeus, num profundo contraste com a realidade amazônica, além das tensões sociais geradas por uma nova ordem social capitalista emergente.[37] 
 
            Sarges pondera que a iniciativa de modernização ocorrida na cidade de Belém decorria de uma exigência dos grupos que enriqueciam em função do comércio da borracha representados por seringalistas, comerciantes e financistas.[38] As obras realizadas durante o período dos grandes lucros com a borracha: imponentes edifícios,[39] transformação da parte subterrânea da cidade através da construção de redes de esgotos, de distribuição de água e gás representavam a “expressão de poder” das classes em ascensão. O capital que proporcionava altos rendimentos ao erário público e que patrocinava as mudanças estruturais na cidade, incluindo uma luxuosa e dispendiosa rede de entretenimento em que se contavam numerosas casas como o Café Chic, Café da Paz, Molin Rouge, Chat Noir, Café Madri e Café Riche e as companhias artísticas vindas da França, Rio de Janeiro, São Paulo, que proporcionavam grande número de espetáculos no Teatro da Paz para a sociedade paraense, vinha da “formação de um excedente econômico na região, resultante da extorsão do seringueiro, dos lucros obtidos pelos ‘aviadores’ e seringalistas [...]” e da “inversão de capitais (giro e fixo) por pessoas não residentes na região [...].”[40]
            Além de atender às necessidades de conforto e bem-estar dos grupos enriquecidos com o comércio da borracha, as transformações urbanísticas da cidade de Belém faziam-se necessárias em razão do fluxo de imigrantes nordestinos que não se deslocavam para os seringais e contribuíam para o aumento populacional na cidade e no estado como um todo. No período de 1872 a 1920, a população do estado passou de 257.237 habitantes para 983.507. O fluxo e a permanência de estrangeiros na capital também exigiram mudanças estruturais e urbanísticas, entre elas, a criação de cemitérios, consulados.
            O processo intensivo de urbanização da cidade de Belém deu-se em grande parte durante a intendência de Antônio Lemos. Em sua administração, a cidade ganhou pavimentação de ruas, construção de praças e jardins, usina de incineração de lixo, limpeza urbana e um código de posturas que prescrevia a correta utilização e manutenção do espaço urbano reestruturado.[41]
            O padrão de urbanidade que caracterizava as reformas promovidas por Lemos refletia os gastos dos novos ricos da borracha que se pretendiam habitantes de uma cidade com ares europeus, preferencialmente franceses. Em sua obra Galvez, imperador do Acre, Márcio Souza satiriza os hábitos desses novos ricos, contrastantes com suas origens locais:
 
Já se disse que Dona Irene era uma espécie de folclore familiar de Belém. Vinha de uma família humilde e tomara o coração do prefeito com suas ancas largas, muita vivacidade e mais de cem quilos de paixão. Ela procurava se prevenir contra as falhas de sua infância pobre, mas quase sempre isso não era possível. Mas era uma criatura necessária à sociedade paraense que assim podia medir por ela o padrão de suas boas maneiras. Mulher simples e filha do rio Madeira, tinha se casado com o prefeito quando este ainda era um jovem estudante de Direito. Casaram escondido e a família, para evitar um escândalo, embarcou os dois enamorados para o Rio de Janeiro, onde mantiveram Dona Irene prisioneira por três anos, aos cuidados de um preceptor francês e uma governanta alemã. Saiu essa força da natureza que cheirava a patchuli e pensava que o cometa de Halley era um número de circo. Mas colecionava queijos raros que era a paixão de sua governanta de Potsdam[42]
 
 
            Assim como Belém, Manaus, capital do Amazonas, também passou por um processo de reestruturação durante o período áureo da economia da borracha, mudou radicalmente seu traçado. Sobre o aspecto da cidade até 1880, antes de sofrer essa reestruturação, Daou comenta:
 
Era marcante a precariedade das ruas estreitas entrecortadas por igarapés, a simplicidade do casario e a exclusividade do pequeno comércio. A morfologia social era marcada pelo caráter disperso da população que permanecia boa parte do ano pelas matas, dedicada às atividades de coleta, caça e pesca [...].”[43]
 
            Foi durante o governo de Eduardo Ribeiro,[44] a exemplo do que ocorreu em Belém com Antônio Lemos, que Manaus ganhou ares de cidade moderna, passando a ser considerada a ‘capital da borracha’. A cidade sofreu uma planificação, igarapés foram aterrados,  as ruas foram modificadas para facilitar o trânsito. A água foi canalizada e um reservatório de água construído. Houve também a conclusão de obras monumentais como o Teatro Amazonas, o Palácio da Justiça, além da construção de escolas, pontes. Em 1893, a cidade passa a ter seu Código Municipal para restringir os comportamentos indesejados e estimular os comportamentos apropriados a uma cidade moderna.  Como ocorrera com Belém, “Manaus modernizada atendia particularmente aos interesses da burguesia e da elite ‘tradicional’, vinculada às atividades administrativas e burocráticas [...].”[45]
            É preciso não perder de vista que o “crescimento” das duas capitais amazônicas significou o transplante de uma idéia de progresso, fomentada com o ciclo, e que não alterou a face colonial da economia amazônica, dependente das contingências do mercado internacional. Urbanidade, civilização, progresso, tudo isso parece não se coadunar com trabalho semi-escravo, condição de vida indigna e animalizada nas estradas dos seringais e castigos físicos e morais para os que se recusassem a aceitar as regras do trabalho, como lembra Souza:
 
[...] A face oficial do látex era a paisagem urbana, a capital coruscante de luz elétrica, a fortuna de Manaus, e Belém, onde imensas somas de dinheiro corriam livremente. O outro lado, o lado terrível, as estradas secretas, estavam bem protegidas, escondidas no infinito emaranhado de rios, longe das capitais. O lado festivo, urbano, civilizado, que procurou soterrar as grandes monstruosidades cometidas nos domínios perdidos, poucas vezes foi perturbado durante a sua vigência no poder [...].[46]
 
            A decadência do ciclo econômico da borracha está inevitavelmente associada ao crescimento da produção da borracha na Ásia (Malásia, Ceilão, Índia e Indonésia), resultante da introdução das mudas de seringueiras levadas para aquele continente pelos ingleses, desenvolvendo ali um sistema de plantação racional e não mais apenas natural como ocorria na Amazônia. A produção de borracha amazônica, que era a maior até então, passou a sofrer a concorrência da produção asiática, não resistindo e entrando em colapso. Apesar do otimismo por parte de alguns exploradores e investidores em relação à produção da borracha amazônica, ela era, na verdade, insuficiente para atender a demanda do mercado mundial, o que ocasionava seu alto preço. A experiência da plantação na Ásia levou mais de vinte e cinco anos para se desenvolver satisfatoriamente, mas quando, enfim, a produção se iniciou em 1898 com 1 tonelada e manteve um nível de produção crescente até atingir  47.618 toneladas em 1913, superando a produção amazônica, esses resultados compensaram o investimento nas técnicas de melhoramento do plantio e ofereceram ao mercado mundial abundância do produto a um baixo custo.
            O quadro oferecido pela produção asiática desmantelou o sistema de exploração  montado na Amazônia. Os investidores abandonaram a região, levando o capital que movimentava a economia gomífera, capital que mesmo no período da alta cotação da borracha amazônica já era drenado para fora da região. A esse respeito, Antõnio Loureiro informa que três grupos se beneficiaram com a comercialização da borracha, sem precisarem se responsabilizar pelos custos da sua produção: o aparelho estatal que arrecadou 25% de impostos; os exportadores que compravam a borracha dos aviadores para revendê-la no mercado exterior e os intermediários, especuladores das bolsas de Nova Iorque e Londres.[47] Esses lucros reverteram em benefício de outras regiões brasileiras, ampararam a produção cafeeira do sudeste, serviram para desenvolver as empresas de plantação asiática.
            A decadência do “ciclo da borracha” e a conseqüente crise em que entraram os estados que concorreram para aumentar os saldos de divisas do país[48] são vistas por alguns estudiosos da história econômica da Amazônia como uma incapacidade dos governantes locais de gerirem competentemente os recursos da região, revertendo-os para o seu desenvolvimento. Para Ferreira Filho, essa constatação não deve ser desviada para outras justificativas de menor importância, como, por exemplo, o episódio da transplantação das sementes da hevea brasiliensis pelo inglês Henry Wickham:[49]
 
[...] Não creio que tenha havido escritor, jornalista de profissão ou simples comentarista ocasional que, ao relembrar o episódio do deslocamento da produção de borracha para terras asiáticas, não se demore em sovar e malsinar o tal senhor Henry Wickmam, acusando-o de imperdoável crime de haver furtado as sementes da ‘hevea brasiliensis’ para servir aos interesses de sua majestade britânica. Essas carpideiras ainda não compreenderam que, tendo a borracha se convertido em matéria-prima essencial ao bem-estar da humanidade, não poderia o mundo ficar escravizado à limitada e imperfeita produção dos seringais nativos da Amazônia. E que, por meios pacíficos ou violentos, mais tarde ou mais cedo, as nações industrializadas que a utilizavam teriam de apoderar-se de suas matrizes. O que deve ser pranteado é a nossa incúria e falta de iniciativa, deixando de formar grandes plantações de seringueiras para neutralizar a tremenda competição que, cinqüenta anos mais tarde, viria arrasar a economia extrativa da Amazônia [...].[50]
 
            Benchimol também questiona se o fato da transplantação da hévea é realmente essencial para justificar a derrocada do ciclo. O autor argumenta que apesar de o amazônida cultivar ressentimento desse fato, a borracha não foi o único produto natural transplantado do mundo tropical amazônico para outros países e particularmente para o sudeste asiático. Cita uma extensa lista de outros produtos, como cacau, milho, batata, tabaco, abacaxi, caju, goiaba, maracujá, mandioca, macaxeira, açaí, guaraná e pupunha, além de plantas medicinais, como quinino, chinchona, ipeca, jaborandi e o capim-santo. Por outro lado, lembra que a Amazônia brasileira e países da América tropical também receberam uma grande variedade de produtos da Ásia e da África, tais como manga, jaca, café, arroz, cana-de-açúcar, banana, entre outros. Assim, segundo o autor,
 
[...] os produtos da flora e da fauna tropical sofreram intenso processo de transplante e migração entre continentes e países, a partir dos séculos XV e XVI, durante e após o ciclo dos grandes descobrimentos. Os colonizadores portugueses, espanhóis, ingleses, franceses, belgas e holandeses tiveram papel importante na difusão e propagação dos produtos tropicais entre os povos e países da Ásia, Oceania, África e América. Troca e intercâmbio, que muito contribuíram para ajudar os países tropicais a enriquecer e  buscar alternativas de desenvolvimento, graças ao seu diversificado patrimônio biológico e genético e pela aclimatação de novas espécies e cultivares de híbridos mais resistentes às pragas.[51]
 
            Benchimol conclui que Henry Wickham não pode ser condenado por ter levado as sementes de seringueiras sem que se condene também Francisco de Melo Palheta que, à semelhança do que fez o inglês, também teve de esconder as plantinhas de rubiáceas (café), trazendo-as de Caiena para as plantações do Pará e Amazonas, sendo que o café posteriormente seria transplantado para São Paulo e outros estados.
            Os dois autores – Ferreira Filho e Benchimol – vêem naturalidade no episódio da transplantação da hévea pelos ingleses. O primeiro considera legítima a ação imperialista inglesa de apoderar-se das sementes da hévea para auferir monopólio sobre ela. Não parece considerar, ao referir-se à escravidão do mundo à borracha amazônica, que os ingleses se beneficiavam com essa escravidão tanto na comercialização da borracha quanto na venda de seus produtos aos consumidores amazônicos. Portanto, não se tratava simplesmente de acabar com a escravidão da humanidade à produção de borracha amazônica, mas sim de obter um meio de exploração ainda mais lucrativo. O segundo, por sua vez, encara a transplantação da hévea pelo prisma da inevitabilidade da transmigração de espécies vegetais e animais entre os continentes. Na generalidade, pode-se dizer que o processo ocorrido com a hévea é o mesmo, mas quando ocorre a sua transplantação, ela já é um produto natural largamente explorado e de importância crescente para o mercado mundial. Mais que transplante, levar a semente da hévea significou assenhorear-se completamente do monopólio de extração, uma vez que o capital inglês já era um dos principais financiadores do negócio da borracha, mas ainda não tinha o completo domínio de sua fonte de produção ou de extração na natureza.


 
       
 
 
                                                                    
2
 
 
            A ABORDAGEM DO CICLO DA BORRACHA NA FICÇÃO AMAZONENSE
 
 
O veio aberto pela pesquisa histórica sobre o “ciclo da borracha” foi também amplamente explorado pela ficção amazônica e amazonense, em particular. Do final do século XIX, passando por todas as décadas do século XX, foram escritas obras que abordaram integralmente ou fizeram referência parcial ao ciclo. O paroara (1899), de Rodolfo Teófilo, é uma das primeiras obras a abordar o ciclo através da aventura de um imigrante cearense na selva amazônica. Seguem-lhe Inferno verde, especialmente o conto “Maiby” (1908), de Alberto Rangel; o conto “Judas- Asvero” , em  À margem da história (1909), de Euclides da Cunha;  Deserdados (1921), de Carlos de Vasconcelos; A selva (1930), de Ferreira de Castro; Amazônia que ninguém sabe (1932)[52], de Abguar Bastos; Terra de ninguém (1934), de Francisco Galvão; Marupiara (1935), de Lauro Palhano; Um punhado de vidas (1949), de Aristófanes Castro; No circo sem teto da Amazônia (1955), de Ramayana de Chevalier; Beiradão (1958), de Álvaro Maia; Arapixi (1963), de Adaucto de Alencar Fernandes; Dos ditos passados nos acercados do Cassianã (1969), de Paulo Jacob; Terra firme (1970), de Antisthenes Pinto; Coronel de barranco (1970), de Cláudio Araújo Lima; Regime das águas (1985), de Francisco Vasconcelos; O amante das Amazonas (1992), de Rogel Samuel e “Três histórias da terra”, em O tocador de charamela (1995), de Erasmo Linhares.
Através dessas obras, o “ciclo da borracha” e, mais especificamente, o mundo do seringal, desfilou na ficção, tornando-se um tema comezinho abordado na literatura amazonense. Surgiu, desse modo, um ambiente comum à ficção composto pela margem, onde se localiza o barracão com as atividades que lhe são peculiares, e pelo centro, o local onde se move o seringueiro e se desenrolam acontecimentos a ele ligados. Geralmente, o enfoque das obras acentua mais um ambiente do que o outro ou, ainda, os dois têm pouco destaque no sentido de serem tratados sem detalhamento. Nesse último caso, importa aos ficcionistas explorar imagens estereotipadas em torno do seringalista e do seringueiro, personagens centrais na ficção sobre a borracha. Em romances como A selva e Coronel de barranco, entretanto, os ficcionistas expõem em detalhes o funcionamento do seringal e o processo econômico do ciclo. Em A selva, tanto a margem quanto o centro recebem um enfoque didático. Alberto, o protagonista do romance, inicia uma ação romanesca que vai desde o recrutamento para o trabalho no seringal até a sua integração nele, conhecendo-o em profundidade.  Inicialmente, Alberto observa e analisa a viagem no vapor, o tratamento dado ao nordestino, depois conhece o funcionamento do seringal e sua ingerência na vida dos seringueiros. Indo para o centro, é guiado pela personagem Firmino, seringueiro manso que lhe ensina pacientemente a técnica de coleta do látex e os conhecimentos necessários para sobreviver na selva. Esse aprendizado é explicitado nos seguintes trechos:
 
Isto são as tigelinhas. Se espeta elas na seringueira, pelas bordas. Assim... É preciso ter cuidado para que a folha fique bem segura, se não a  tigelinha cai e o leite escorre todo para fora. Está compreendendo?
[...]
- Cada seringueira leva tantas tigelinhas conforme for a grossura dela. Uma valente, como aquele piquiá que você está vendo ali, pode levar sete. Uma assim como esta leva cinco ou quatro, se estiver fraca. Corta-se de cima para baixo e, quando se chega a baixo o machadinho volta acima, porque a madeira já descansou. Seringueiro malandro faz mutá, mas aqui é proibido.
- Que é isso?
- Vamos andando que eu já lhe explico. Mutá é fazer um girau com galho de árvore e  ir cortar a seringueira lá em cima, junto à folha. A princípio dá mais leite, mas depois morre.[53]
.............................................................................................................................
 
- Não lhe toque seu Alberto!
- Porquê?
- Vai ver...
Despiu a blusa, numa das mangas envolveu o cabo do seu facão e com a lâmina roçou de leve o dorso do puraqué.
- Agora toque aqui... Mas só com um dedo – e indicava o espigão do terçado, que aparecia na extremidade da madeira. Alberto obedeceu e logo se sentiu percorrido por um forte choque elétrico.
Firmino sorria e explicava:
- Esse bicho é assim. Se um homem tem o coração fraco e lhe toca dentro de água, pode ir para o outro mundo...[54]
 
            O romance Coronel de barranco centra-se mais na margem e expõe o sistema extrativista da borracha através da personagem Cipriano, seringalista rude que desconhece as determinações econômicas do ciclo e ignora os riscos a que está exposto, confiando apenas na exploração da borracha nativa. Como A selva, o romance tem o objetivo claro de ensinamento conforme se nota nessa passagem em  que a personagem Matias elucida para a personagem Cipriano o sistema de funcionamento econômico do ciclo:
 
- Veja bem, coronel. Todos os domingos, os seus seringueiros chegam aqui no armazém, para se aviar, levam tudo que precisam, a comida, a cachaça, o querosene, alguma ferramenta, remédios, uma peça de roupa...
- Levam tudo que precisam. Está aqui o besta velho pra dar tudo que eles querem, fiado.
- Exatamente. Eles não pagam ao senhor, não é verdade? Tudo fiado, não é verdade? A Casa Flores manda os vapores carregados de aviamentos...
- Manda, não. Mandava.
- Sempre mandou, Coronel. Mas, bem. A Casa Flores lhe manda tudo que o senhor pedir e até o que não pedir. Cobra do senhor à vista? Algum dia marcou data certa para o senhor pagar?
- Mas a minha seringa está lá no armazém deles.
- Perfeitamente. Chegaremos lá. E como a Casa Flores compra essas mercadorias, todas importadas do [sic] outros Estados ou do estrangeiro? Sobretudo do estrangeiro. Onde ela vai  buscar o dinheiro, se o dinheiro só pode entrar depois que a seringa for vendida?
- Pra que é que eles têm a burra cheia de dinheiro?
- Que burra cheia de dinheiro, Coronel? O dinheiro eles vão sempre buscar nos bancos, Coronel. E em que bancos? Nos bancos estrangeiros. E como é que se pagam os bancos, Coronel? Não é como o seu seringueiro para o senhor, quer dizer, quando puder, quando Deus ajudar.
- Quando paga. E se o cabra foge? Ou morre? Ou leva o diabo?
- Também não é assim que o senhor paga a Casa Flores?
- Nunca deixei de pagar.
- Claro. Mas paga quando chega a Manaus. Quando a borracha já foi vendida. Quando o senhor chega lá para acertar as contas, sem data certa, porque o senhor tem crédito.
- Tenho porque mereço.
- E como é que a Casa Flores paga o banco?
- Quando quiser? Só quando puder? Não senhor, Coronel. Numa data certa, num prazo fixo. E quando chega o fim desse prazo, se não tiver dinheiro, a Casa Flores tem de reformar a dívida, dar um tanto por conta, para os juros, para esperar vender a borracha que o senhor mandou e ver entrar o dinheiro. Quer dizer, no fim da safra.
- Então? Que novidade, seu Albuquerque.
- Pois bem. Agora, Coronel, neste ano fatídico de 1914, nesta hora em que se está esperando uma guerra na Europa, uma guerra em que a Inglaterra terá também de entrar...
- Entrar pra quê? Besteira de guerra.
- Nesta hora difícil, Coronel, as matrizes dos bancos de lá mandam ordens às suas filiais de Manaus para não reformarem os títulos; querem o dinheiro na data marcada, no prazo fixado. Compreendeu agora, Coronel? Se a Casa Flores não paga, o banco pede a falência da Casa Flores.
- E por que o filho do Comendador, homem moço, não vai lá no banco dos bifes e quebra o focinho do gerente? Se fosse comigo, era assim. Ou um tiro nas ventas.
- Para não falir, a Casa Flores consegue a muito custo um último prazo, e pede ao senhor que pague a ela as mercadorias que lhe mandou a crédito durante o ano inteiro. Pergunto agora, o senhor pode obrigar o seu seringueiro a lhe pagar o que o senhor vendeu a ele fiado? O resto o senhor já sabe. E não se esqueça que citei a Casa Flores só para dar um exemplo. Todas as casas aviadoras estão vivendo a mesma situação, igualzinha, ou até pior. Compreendeu agora o funcionamento da máquina, Coronel? Compreendeu a situação?[55]
 
            A presença constante do tema do “ciclo da borracha” na ficção amazonense levou Mário Ypiranga Monteiro, em Fatos da literatura amazonense, a criticar o filão em torno desse tema, observando: “[...] lamentavelmente todo contista que se inicia ou mesmo romancista já experimentado se deixa seduzir pelo denominador comum da economia da borracha [...].[56] Para o autor, o tema do ciclo é o principal motivo do infernismo literário, o qual consiste em escandalizar a paisagem e explorar a tragédia em torno da figura opressora do coronel da borracha e da conseqüente submissão do seringueiro. A ficção da borracha padeceria, segundo sua avaliação, de um tautologismo ao repetir desgastadamente sempre os mesmos aspectos.
            Opondo o infernismo do “ciclo da borracha” ao edenismo do ciclo do cacau, Monteiro demonstra as diferenças fundamentais entre esses ciclos. Observa que o ciclo do cacau promoveu a fixação à terra, criou condições para que se estabelecesse uma cultura expressiva do sedentarismo burguês. A própria estrutura arquitetônica da casa-grande do ciclo econômico do cacau ostentava permanência, comodidade, com sua variedade de janelas, seus quartos amplos, suas salas de jantar e de estar, seus móveis em estilo clássico e as redes armadas nas salas de jantar ou à sombra dos cacauais. Já o “ciclo da borracha” apresentou um panorama social bastante diverso. Sendo economia de transplantação, suas características eram as relações de desconfiança entre patrão e freguês, suas moradias ostentavam o aspecto da improvisação dos que não tomavam assento definitivo à terra. Nas palavras de Monteiro, a sociedade econômica do ciclo
 
[...] conduz os trabalhadores da ‘margem’ para o ‘centro’, da liberdade para a reclusão, isola-os, explora-os, escravíza-os ao regime da conta sem-fim, animalíza-os, brutalíza-os, inutilíza-os até para a satisfação sexual, instaurando um quadro de renúncia forçada aos acenos ambiciosos da vida, um estatuto de anacoretismo em que parece mais evidente o contexto da sabedoria popular: mente desocupada é oficina de satanás. A ausência da fêmea, nutrindo a preocupação dos machos famintos de associação e presença, é suprida pela imaginação sofredora e urgentiza a paródia, a busca de soluções desesperadas. Daí para os conflitos sangrentos é um passo.
Nasce o infernismo literário, produto da economia predatória e da paixão solitária.[57]
 
            Monteiro aponta um tratamento superficial dado pela maioria dos escritores às obras do ciclo ao afirmar que tanto os antigos quanto os modernos deixaram de perceber o mundo do seringal por uma via verdadeiramente sociológica que penetrasse a sua engrenagem internamente e optaram pelo aspecto externo da tragédia fácil.[58] Para Monteiro, as características da economia de transplantação geraram as formas de abordagem que enfatizam a negatividade do meio, os comportamentos humanos aberrativos.
            A ficção em torno do ciclo explorou abundantemente imagens da solidão do seringueiro na selva, solidão que na maioria das vezes é o degredo do nordestino retirante, vivendo o estranhamento de uma ambiente que lhe é desconhecido e hostil. A relação inamistosa do seringueiro com os índios que habitavam as grandes extensões de terras dos seringais é também um tópico quase sempre abordado nas obras do ciclo. Via de regra, o indígena aparece como um ser sanguinário, ameaça ao trabalho do seringueiro, pavor que faz o dia-a-dia nas estradas de corte de seringa um perigo constante. Além desses tópicos que geralmente se apresentam nas obras do ciclo, ocorre a constância de alguns aspectos, muitas vezes estruturadores dos enredos, que se relacionam diretamente às características das relações de trabalho estabelecidas em função da extração do látex. O relacionamento do patrão seringalista com o seringueiro ou freguês motivou a maior parte das abordagens das obras. Os dados históricos que informam as condições nem sempre justas do vínculo de trabalho entre o patrão e o freguês serviram de corolário à criação dos ficcionistas, abrindo um caminho que foi percorrido diversas vezes. Passaremos a analisar, a seguir, a constância desses aspectos nas obras do “ciclo da borracha”.
 
A dicotomia explorador-explorado
 
            Seringalistas e seringueiros são, na maioria dos romances da borracha, as personagens centralizadoras dos enredos ou, se considerarmos outro aspecto da narrativa, personagens sob as quais recai a focalização.[59] As demais figuras presentes nas atividades do seringal, entre elas gerentes, guarda-livros ou aquelas atreladas ao processo do ciclo, tais como aviadores, exportadores não têm presença de destaque na prosa do “ciclo da borracha”. Não se tem a visão do mundo do seringal senão através do seringalista que configura o explorador e do seringueiro, o explorado.
            A condição do seringalista como explorador da força de trabalho do seringueiro possibilitou a criação de um estereótipo do patrão truculento. O endosso dessa imagem veio das próprias relações de trabalho estabelecidas nos seringais. Ao criar o contrato de trabalho, o patrão seringalista submetia o freguês seringueiro a um regulamento que estabelecia mais vantagens ao patrão do que ao freguês. Além das perdas que o seringueiro tinha com a cobrança de um débito que se iniciava pelo preço de sua passagem ao seringal e acrescia-se com o preço das ferramentas de trabalho, também era obrigado a se submeter a uma ração alimentar que meramente o mantinha vivo para o trabalho. No romance A selva, a percepção do narrador põe-se frontalmente em oposição ao seringalista, esclarecendo a condição de servidão do seringueiro, vítima da má fé e da extorsão:
 
Aquele era sempre o ‘talão grande’ onde se juntavam as despesas da viagem e mais empréstimos, que prendiam por muitos anos ao seringal, em trabalho de pagamento, o sertanejo ingênuo.
Alberto viu-se com o seu na mão – setecentos e vinte mil réis parcelados por seis ou oito linhas – e depois, sobre o balcão, meia dúzias de coisas que lhe pareceram não valer um pataco. Atribuiu a engano a soma alarmante, mas o rabo do olho, atirado à nota do vizinho, descobriu nela uma quantia igual, repetida em quantos papéis se estendiam para Binda.[60]
 
            Em Terra de ninguém, romance de Francisco Galvão, o narrador também demonstra aversão pela personagem do coronel seringalista. Identificando-se com os seringueiros, esse narrador critica o enriquecimento do seringalista, os privilégios que aufere às expensas do trabalho dos seringueiros. No contexto do romance, a possibilidade de saldo para os seringueiros é taxativamente negada:
 
A vida corria monótona para os quinhentos homens que amealhavam a fortuna do dono do seringal. Todos lutavam com o mesmo esforço, como polias impulsionando a mesma máquina. As estradas contribuíam, com o suor humano, para que ele possuísse na firma J. G. de Araújo, grandes reservas monetárias.
[...]
Mil braços se estorciam ajudando a engorda pacífica e mansa desse homem, na selva bárbara, onde a esperança de libertação desaparecia ao tempo em que aumentava o débito da conta corrente pela desapreciação do preço das gomas.
O que se atrevesse a falar em saldo, no desejo natural da volta ao nordeste, arriscava-se a desaparecer, para sempre, à curva de uma estrada, morto à tocaia mandada fazer pelo Antônio.[61]
 
            Ainda que prepondere nas obras a desdita do seringueiro que vem para o seringal com o sonho de enriquecer e encontra apenas trabalho árduo, condições de sobrevivência precárias e risco de vida, há alguma referência a seringueiros enriquecidos com o trabalho de extração como nesta passagem do romance Dos ditos passados nos acercados do Cassianã:
 
[...] Deveras que muito seringueiro teve de sua sorte. Ganhou dinheiro a valer. Se não gastou nas safadezas na capital, voltou rico. José Francisco foi um dos agraciados. Com o saldão recebido, tornou ao Ceará. Montou comércio em Fortaleza, vive hoje de como que quer. Saber-se de outros, comprando fazenda de criação, engenho, grandes porções de terras no sertão. Uma dessas se dando, quando a borracha vai longe. De tirar saldo de não ter onde guardar [...][62]
 
            A História que, no aspecto geral, serve de base para as ficções  da borracha, registra que muitos seringueiros conseguiram enviar dinheiro para suas famílias no nordeste,[63] muito embora o quadro apresentado por Euclides da Cunha em seu livro À margem da história não demonstre uma avaliação otimista da possibilidade de o seringueiro enriquecer através do sistema escorchante do aviamento:
 
Admitamos agora uma série de condições favoráveis, que jamais concorrem; a) Que seja solteiro; b) Que chegue à barraca em maio, quando começa o corte; c) Que não adoeça e seja conduzido ao barracão, subordinado a uma despesa de 10$000 diários; d) Que nada compre além daqueles víveres – e que seja sóbrio, tenaz, incorruptível; um estóico firmemente lançado no caminho da fortuna arrostando uma penitência dolorosa e longa. Vamos além – admitamos que, malgrado a sua inexperiência, consiga tirar logo 350 quilos de borracha fina e 100 de sernambi; por ano, o que é difícil, ao menos no Purus.
Pois bem, ultimada a safra este tenaz, este estóico, este indivíduo raro ali, ainda deve. O patrão é, conforme o contrato mais geral, quem lhe diz o preço da fazenda e lhe escritura as contas. Os 350 quilos remunerados hoje a 5$000 rendem-lhe 1.750$000; os 100 de sernambi, a 2$500, 250$000. Total 2:000$000.
É ainda devedor e raro deixa de o ser. No ano seguinte já é manso; conhece os segredos do serviço e pode tirar de 600 a 700 quilos. Mas considere-se que permaneceu inativo durante todo o período da enchente, de novembro a maio – sete meses em que a simples subsistência lhe acarreta um excesso superior ao duplo do que trouxe em víveres, ou seja, em números redondos, 1:500$000 – admitindo-se ainda que não precise renovar uma só peça de ferramenta ou de roupa e que não teve a mais passageira enfermidade. É evidente que, mesmo neste caso especialíssimo, raro é o seringueiro capaz de emancipar-se pela fortuna.[64]
 
                        Em decorrência dos dados desabonadores sobre a conduta dos seringalistas apontados na pesquisa histórica e atestados pelos próprios regulamentos do trabalho no seringal, ganhou livre curso nas ficções da borracha a figura vilanesca deste agente econômico em função do qual o seringal se organizava. Não raro ele é pintado com cores fortes que lhe acentuam o caráter perverso, a exemplo dessa descrição no romance “Terra de ninguém”: “homem de poucas palavras, sibilino. Profundamente tacanho e mau, somente disfarçava a fisionomia moral e se (sic) avistava com algum lêmure político da cidade”[65]
            Na obra No circo sem teto da Amazônia, o traço de vileza atinge o paroxismo por conta da caracterização grotesca que dá à personagem ares teatrais e pelas comparações grandiosas e a adjetivação abundante:
 
Jacinto Gazela é um desses repulsivos queirópteros que riem.
O seu estalão moral se baliza no limo pegajoso dos barreiros.
O seu ideal é irmão–siamês do amplexo mortificante do apuizeiro.
Alto, forte, espadaúdo, pela caraça insondável rastreiam estigmas variólicos. A dentuça patinada de sarro como o teclado adormecente de um piano antigo, é defendida aqui e ali pela cárie fagedênica do fumo.
Gazela é um vulto mórbido e rapace de Alighieri, que o tesourão metapsíquico de um gênio recortou de um capítulo da Divina Comédia, para grudá-lo depois, numa folha verde do álbum adolescente da Amazônia.
Todas as torpitudes, todas as macabras idealizações de um cérebro doentio, alienando rechãs e deturpando honras e riquezas, residem no âmago daquele bruto.
O seu seringal “Nova Vida” é um burgo medieval cheio de tiriricas e mucuins. É ele, com pompa e majestade, um senhor de baraço e cutelo.
O baraço que manieta o indefeso trabalhador, o cutelo que o estripa nas tentaculares escroquerias das contas e dos saldos.
Como as flores carnívoras é o seu sorriso. Desfiado em traquitanas de hipócritas oblatas, ele se seduz pelo aspecto sereno dos seus verticilos morais. Caída a presa na fascinação da oferenda inocente, fecha-se a corola na constrição putrívora. E o ser incauto e bom, parece estrangido e exânime, ao beijo inenarrável do monstro, cujos esgares semelham os instantes nauseosos da digestão dos reptis.
O seu olhar se alarga no telescópio ambicioso da conquista.
E lambe os escaninhos da Terra, arrastando na ânsia incontida, os pequenos trabalhadores e os humildes industriais. Seu coração é uma víscera metálica, obediente às imposições de um ritmo mecânico e rapace. Os gadanhos dos seus sentidos solertes farejam, no amplo cenário da natureza em festa, os vestígios de azinhave das cafurnas. O sol é de ouro. O rio é uma áurea corrente. Os vegetais só interessam ao amanhecer e ao sol-posto, quando a luz, em vertigem, nos últimos acenos da vida a se extinguir, distende as mãos actínicas para chapear de ouro a coma das samaúmas e o dorso floral dos acapus.[66]
 
            Um exemplo que bem se adequa à descrição do tipo de seringalista perverso de No circo sem teto da Amazônia figura também num encaixe[67] contido no romance Um punhado de vidas em que um seringueiro com saldo decide partir do seringal e para tanto reivindica o valor que lhe é devido. Em resposta, o seringalista propõe-lhe que vá caçar veado antes de partir para não esquecer do seringal no qual trabalhou tantos anos. O seringueiro fica intrigado com a proposta e é informado por outra personagem que a caça se tratava de uma cilada armada para os seringueiros com saldo. Mesmo desistindo de cobrar o saldo e apenas manifestando o desejo de ir embora, o seringueiro é mais uma vez intimidado pelo patrão, que para lhe provar do que é capaz, mata um empregado em sua presença como se abatesse um bicho.[68]
            As demonstrações da vileza do caráter do seringalista se configuram nos castigos que infringe aos seringueiros que desobedecem suas ordens diretas ou os preceitos do regulamento. No romance Coronel de barranco, o seringalista pune um seringueiro que desobedece a ordem de  não cultivar horta nem caçar ou pescar a fim de promover outra forma de sobrevivência além daquela obtida através dos aviamentos, pondo fogo na pequena plantação que esse seringueiro havia cultivado às escondidas nas horas que lhe sobravam do trabalho de extração e defumação do látex.[69] O romance Terra de ninguém, por outro lado, apresenta um seringueiro castigado com o aprisionamento no tronco por ter reclamado da qualidade do sabão que recebera no aviamento.[70]
            Em Regime das águas, o instrumento descrito na prática de tortura é uma palmatória chamada “melindrosa”. A cena em que o seringalista é intimado a dar esclarecimento ao juiz sobre o objeto ressalta a empáfia daquele, cônscio de que é a lei em seus domínios:
 
[...] O juiz, moço novo ainda, com ares de muita importância, foi logo entrando no assunto, sem dar tempo a qualquer conversa. Queria saber que história era aquela de uma palmatória de dois quilos que, segundo denúncia recebida, costumava usar no seringal, judiando daquela pobre gente indefesa. Seria verdade tamanho absurdo?
- Mas foi aí que o homem da lei se enganou – dizia João Firmino, com sentido orgulho da coragem do patrão. – Então pensava ele que ia o homem amofinar, meter o rabo entre as pernas e arranjar uma desculpa qualquer para sair da encrenca? Nada disso! O patrão era cabra macho, homem de vergonha e de muita firmeza. E comentava com largo sorriso a resposta que, sem qualquer demora, dera o patrão à interpelação do magistrado:
- Dois quilos não, seu juiz! Quase três. Esse, com todo respeito à pessoa do Doutor Juiz, o peso da melindrosa. E digo mais, seu Doutor, ela só serve mesmo para corrigir cabra safado e mulher fuxiqueira.[71]
 
            Desse modo, punições e castigos físicos são circunstâncias comuns na ficção sobre a borracha. Exercer algum tipo de violência sobre o seringueiro é uma forma de o seringalista expressar sua autoridade e fazer-se respeitado. Expressando esse poder sem limites estabelecido no seringal, o narrador do romance memorialista Arapixi comenta: “O patrão se faz respeitar e obedecer por sua menor ou maior perversidade, pela grandeza de seu coração, por sua autoridade moral, por sua bondade de alma, por seus sentimentos humanos, pela grandeza de seus gestos, ou pelo horror de sua ação sanguinária. É um homem que na planície varia na conformidade do ‘centro’ na vulgaridade dos hábitos, na conduta da freguesia, sem peias, sem escrúpulos, sem formalidades”.[72]
            Dos instrumentos utilizados pelo seringalista como forma de punição, o tronco figura como o mais referido e o mais abominável tanto que leva o negro Tiago, personagem de A selva, a pôr fogo no barracão como ato de revolta contra o patrão que usara desse expediente de tortura contra os seringueiros que haviam tentado fugir do seringal.[73]
            A utilização do tronco nos seringais estabelece uma curiosa relação dos hábitos do mundo do seringal como os da sociedade patriarcal escravista. Para Tocantins, ambos os contextos se assemelham, a começar pela economia baseada na monocultura, com a diferenciação de uma ser agrícola e a outra extrativa. O patriarca representado na figura do seringalista seria outro ponto de contato. Também o barracão do seringal, apesar de apresentar aspecto mais tosco, guardaria semelhança com as casas-grandes dos engenhos de açúcar do Nordeste. Sobre o ciclo da cana de açúcar e o da borracha, o autor pondera: “[...] Dessemelhantes em forma e grau, mas semelhantes na essência comum do patriarcalismo, a civilização da borracha aproveitou muitas das constantes culturais daquela, naturalmente adaptando-as às realidades do meio amazônico, num interessante experimento de assimilação”.[74]
            Associam-se nas ficções da borracha o caráter perverso do seringalista e a sua ignorância a ponto de ser ele um tipo alienado do que ocorre no mundo, como o coronel Cipriano, do romance Coronel de barranco, que não acredita na possibilidade de haver concorrência da produção de borracha asiática com a amazônica até sofrer as conseqüências desastrosas da baixa de preço. Cipriano encarna a figura de um bronco enriquecido que, apesar de receber mercadorias finas nos aviamentos, desconhece a procedência e o valor delas. Desconhece também o contexto histórico local e mundial de sua época, julgando tolice se interessar por qualquer coisa que não seja produzir borracha em seu seringal. Menos caricata é a figura do seringalista de A selva, mas talhada pelo mesmo estigma de homem rude, conforme fica aduzido nessa passagem do romance em que ele manifesta inveja do guarda-livros por este possuir modos diferentes do seu, expressivos de polidez e educação:
 
Apenas aos sábados o jantar e as noitadas se animavam, mercê da presença de Binda, Caetano e Balbino. Corpos modelados no mesmo barro, veias dando curso ao mesmo sangue, Juca Tristão compreendia-os totalmente. Imperava sorridoso, e deixava-se adular. Podia beber em liberdade, dizer o que lhe aprouvesse, ser completamente ele, sem sentir a enervante noção duma vaga inferioridade, como lhe sucedia quando estava ao lado de Guerreiro. Passara a irritar-se, intimamente, com as falas mansas do guarda-livros e sua cortesia bondosa, pelo respeito que inoculavam. Sentira, pouco depois de voltar, que a simpatia dos seringueiros ia mais para o guarda-livros do que para ele; e essa verificação despeitava-o e exalava vastas suspeições. Quem sabia lá o que Guerreiro lhes havia insinuado! Também a ele seria fácil mostrar-se generoso e simpático, se administrasse fazenda alheia. De tudo quanto fosse mau se sacudia a chuva e só o bom se chamava a si; tratava-se com modos doces uns safados que não trabalhavam, vendia-se mais do que se devia vender, não se castigava o preguiçoso e desculpava-se o que não tinha desculpa nenhuma, porque quem perdia e quem pagava era o patrão, era o tolo, que já tinha idade para ter juízo![75]
 
            Esse trecho também é ilustrativo de que o seringalista justifica sua rudeza de caráter como algo inevitável no papel patronal que exerce. A mesma justificativa é dada em Regime das águas pela personagem de um fiscal de barracão: “[...] A lei, na selva, não podia ser outra que não aquela ditada pelo patrão. Só ele, a partir de seus propósitos e interesses sabia o que estava certo ou errado [...]”.[76]
            Em virtude do constante decalque no perfil mau, grosseiro e injusto do seringalista, desponta nas ficções da borracha uma galeria de nomes que se tornam sempre destacados tão logo se enunciam os enredos: “Manuel Lobo”, de Terra de ninguém; Juca Tristão”, de A selva; “Jacinto Gazela, de No circo sem teto da Amazônia; “Cipriano”, de Coronel de barranco, Macário Gomes, de Dos ditos passados nos acercados do Cassianã, entre outros. Os nomes dos seringais, considerados feudos desses “coronéis” da borracha compõem uma curiosa toponímia para os conflitos que ali se dão: “Remanso”, “Paraíso”, “Vida Nova”, “Fé em Deus”.
            As personagens dos seringueiros, por seu turno, não apresentam traços tão marcados quanto as dos seringalistas, são mais coletivas do que individuais. As personagens “Firmino”, de A selva,; “Zé Vicente”, de Terra de ninguém e “Joca”, de Coronel de barranco, típicos imigrantes nordestinos que poderiam realizar seringueiros protagonistas, são secundárias nas narrativas. Cabe destacar que nesses três romances, os protagonistas são homens que vêm para o seringal por aventura, como “Anatólio”, de Terra de ninguém, que tendo crescido num ambiente de abastança, decide conhecer “[...]a selva enorme, eriçada de mistérios, grávida de perigos, onde melhor aprenderia a conhecer os segredos da Vida”,[77] “Matias”, de Coronel de barranco, que após aventurar-se na Europa por trinta anos, decide “ruminar o ideal de viver isolado num pedaço de mata, compondo e escrevendo os versos que já planejara em silêncio”[78] e “Alberto”, de A selva, imigrante português que vai para o seringal quase acidentalmente, sem supor que o destino seria ser seringueiro.
            Assim como a imagem do seringalista nas ficções da borracha parece fadada à vilania, a do seringueiro liga-se à sujeição. A sua condição de subjugado é ressaltada na descrição de homens tristes, cabisbaixos, apáticos. Freqüentemente, os seringueiros são comparados a escravos e as suas condições de recrutamento os põe, não raro, abaixo da condição humana: “Cinqüenta homens na proa. Seu Isidro vinha sempre à tardezinha ver como íamos passando. Contava-nos como se fôssemos animais [...]”[79]
            Apesar de não ser a tônica das obras sobre o ciclo,[80] a revolta dos seringueiros é abordada em algumas obras. Entre elas, Beiradão, onde é narrada a vingança dos seringueiros contra o proprietário do seringal “Boa-Vida”, um patrão cujo caráter sórdido leva os fregueses a lhe retribuírem na mesma moeda:
 
Deu-se, então, a tragédia. Aguardaram a saída do motor que deixara mercadorias para o verão inteiro, cercaram armazéns e o barracão, pela madrugada. O coronel não podia reagir, pois os empregados haviam retirado as armas, durante a noite.
Amarraram-no primeiramente, amarram a mulher, a cozinheira, as três filhas menores. Cevaram-se nas quatro, banquetearam-se em frente das vítimas todas despidas, cunhatãs foram pisoteadas, após o geral [...][81]
 
            As sevícias sexuais são também a forma de vingança dos seringueiros no romance Terra firme, que obrigam o empregado a violentar o patrão seringalista. Nesse romance, o mundo do seringal não absorve a narrativa integralmente, mas o encaixe contido no segundo capítulo, constituindo a história do seringueiro nordestino Creto, narrada por ele próprio, abrange sua vinda para o seringal, o abandono da estrada de corte de seringueiras e a formação de um grupo de seringueiros e caucheiros do qual passa a ser o chefe. Suas andanças com esse grupo de homens pela mata lembram as de um chefe de cangaço. Ao final dessa narrativa, a vingança contra o coronel seringalista é, como nos outros casos, violenta.[82]
            O motivo que enseja o conto “Judas-Asvero” é igualmente uma revolta dos seringueiros, porém não tem como alvo o seringalista. Nesse conto, os seringueiros voltam-se contra si mesmos, construindo no sábado de aleluia um Judas a sua própria imagem para depois destruí-lo. Tal qual ocorre em outras obras, os seringueiros são vistos como seres martirizados, com “[...] existência imóvel, feita de idênticos dias de penúria, os meios- jejuns permanentes, de tristezas e de pesares, que lhes parecem uma interminável Sexta-feira da Paixão, a estirar-se, angustiosamente, indefinida pelo ano todo afora.”[83] Apesar disso, não se revoltam ante o desamparo por deus: “[...] não se rebelam, ou blasfemam. O seringueiro rude, ao revés do italiano artista, não abusa da bondade de seu deus desmandando-se em convícios. É mais forte; é mais digno. Resignou-se à desdita [...]. [84] Sem representar uma indignação direta contra o seringalista, o conto detém-se em uma revolta interiorizada, em uma autopunição: “[...] só lhe é lícito punir-se da ambição maldita que o conduziu àqueles lugares para entregá-lo, maniatado e escravo, aos traficantes impunes que o iludem – e este pecado é o seu próprio castigo, transmudando-lhe a vida numa interminável penitência [...]”.[85] Ao mesmo tempo em que o Judas representa o sofrimento do seringueiro, acarretando piedade por sua condição, é também uma figura que desperta medo: “[...] À medida que avança, o espantalho errante vai espalhando em roda a desolação e o terror: as aves retransidas de medo, acolhem-se, mudas, ao recesso das frondes; os pesados anfíbios mergulham, cautos, nas profunduras, espavoridos por aquela sombra que ao cair das tardes e ao subir das manhãs se desata estirando-se, lutuosamente, pela superfície do rio; os homens correm às armas e numa fúria recortada de espantos, fazendo o ‘pelo sinal’ e aperrando os gatilhos, alvejam-no desapiedadamente.”[86] A imagem final do conto, os Judas–espantalhos que vão descendo o rio, juntando-se num festival fantasmagórico, metaforiza a condição dos seringueiros recrutados, embarcados e despejados ao longo dos rios onde se instalam os seringais:
 
E vai descendo, descendo... Por fim não segue mais isolado. Aliam-se-lhe na estrada dolorosa outros sócios de infortúnio; outros aleijões apavorantes sobre as mesmas jangadas diminutas entregues ao acaso das correntes, surgindo de todos os lados, vários no aspeito e nos gestos: ora muito rijos, amarrados aos postes que os sustentam; ora em desengonços, desequilibrando-se aos menores balanços, atrapalhadamente, como ébrios; ou fatídicos, braços alçados, ameaçadores, amaldiçoando; outros humílimos, acurvados num acabrunhamento profundo; e por vezes, mais deploráveis, os que se divisam à ponta de uma corda amarrada no extremo do mastro esguio e recurvo, a balouçarem, enforcados...[87]
 
 
 
A escassez e a ausência do ser feminino no seringal
 
            O segundo aspecto que aparece com maior freqüência nas ficções da borracha é a escassez ou mesmo ausência da mulher no ambiente do seringal.[88] Sobre o desdobramento que o problema da escassez da mulher teve e poderia ter na ficção, Benchimol observa:
 
A grande angústia do tapiri era a solidão. E solidão é falta de mulher e amor. Isso até já se tornou tema comum e obrigatório em todo romance sobre a Amazônia. O seringueiro daqueles tempos, e ainda hoje, com intensidade já muito diminuída pela imigração do elemento feminino que passou a acompanhar o homem, ou era um homossexual ou um onanista. Há ainda análise minuciosa a ser feita entre o sexo e a seringa, entre a mulher, o tapiri e a ‘urbs’. Talvez resida numa bem estudada psicanálise da seringa, as origens daquelas alucinações dos ‘aureos tempos da borracha’[...].[89]
 
            A escassez da mulher no seringal possibilita aos ficcionistas enfoques em permutas, violências sexuais contra mulheres de idade avançada ou meninas impúberes e ainda violência contra os companheiros de mulheres que são atacados e mortos por outros seringueiros desejosos de as possuírem. A ausência da mulher possibilita enfocar a prática do bestialismo, através do qual o seringueiro procura satisfazer o instinto sexual com fêmeas animais, entre elas a fêmea do boto e a égua.
            A transferência da mulher de um seringueiro devedor para outro seringueiro é assunto do conto “Maiby”, contido no livro Inferno verde, de Alberto Rangel. Ao se iniciar o conto, o narrador esclarece que o pagamento de dívida tendo como objeto de quitação a mulher era negócio como outro qualquer no seringal: “[...] O Sabino devia ao patrão sete contos e duzentos, que a tanto montava a addição das parcellas de dividas de quatro annos atraz, e cedia a mulher a um outro freguez do seringal, o Sérgio, que por sua vez assumia a responsabilidade de saldar essa divida. O mais comum dos arranjos commerciaes, essa transferencia de debito, com o assentimento do credor, por saldo de contas”.[90]
            O conto demonstra que uma mulher pode se tornar dispendiosa para um seringueiro. Sabino, a personagem que dá a mulher em pagamento da dívida, o faz porque apesar de querê-la em sua companhia para amenizar a solidão, tem a dívida em muito aumentada depois de se unir a ela. Uma vez que a dívida inviabiliza a sua liberdade, ele opta por se desfazer da mulher. “Maiby” atesta que no mundo do seringal, onde negociar mercadorias tem importância vital, a mulher torna-se também mercadoria. Quando não ocorre uma troca como a que é narrada no conto, a mulher é encomendada entre os itens dos aviamentos.[91]
            O desfecho dado ao conto possibilita estabelecer a relação entre a mulher e a seringueira, uma vez que Maiby, a cabocla de propriedade do seringueiro Sabino e depois transferida ao seringueiro Sérgio, é unida à árvore num amplexo mortal. Sabino negocia a troca da mulher pelo débito, mas não consegue se resignar com a negociação e impulsionado pelo descontrole mental de não superar a perda da mulher, sacrifica-a, amarrando-a à árvore  e extraindo seu sangue que é aparado em tigelinhas, tal como se apara o leite da seringueira. No conto, os significados da mulher e da seringueira para o seringueiro aproximam-se em vários pontos. Como a seringueira, a mulher não pertence ao seringueiro, é um bem do qual só pode usufruir quem sobre ele adquire direito. Maiby passa a ser propriedade de Sérgio porque ele possui condições de tê-la. A seringueira, por sua vez, pertence ao patrão que domina os meios de produção do seringal. Sabino tem a ilusão de que a seringueira lhe pertence porque é o extrator de sua riqueza, assim como ilude-se que a mulher lhe pertence quando de fato ela pertence a quem pode pagar por ela. As posses mal realizadas da seringueira e da mulher só podem ser compensadas com as mortes de ambas. Cortar a seringueira para extrair seu leite é uma forma de matá-la, sangrar a mulher até que se esvaia todo o seu sangue, também. A cena final expõe os dois seres mais explorados do seringal e é extensiva, como faz notar o narrador, do processo predatório da natureza como um todo:
 
O martyrio de Maiby, com a sua vida a escoar-se nas tigelinhas do seringueiro, seria ainda assim bem menor que o do Amazonas, offerecendo-se em pasto de uma industria que o exgota. A vingança do seringueiro, com intenção diversa, esculpira a imagem imponente e flagrante de sua sacrificadora exploração. Havia uma aureola de obração n’esse cadaver, que dir-se-ia representar, em miniatura, um crime maior, não commetido pelo Amor, n’um coração desvairado, mas pela Ambição collectiva de milhares d’almas, endoudecidas na cobiça universal.[92]
 
            O romance Coronel de barranco também apresenta um caso de negociação da mulher, sendo que, desta vez, ela é uma mercadoria trazida pelo regatão. Este é um dos poucos romances da borracha em que o seringalista é solteiro e  leva a vida a divertir-se com prostitutas estrangeiras nas viagens que faz a Manaus. As obras, em geral, apresentam seringalistas casados que aproveitam as viagens para aventuras extraconjugais. Cipriano, a personagem do seringalista, em Coronel de barranco, permanece sem mulher no barracão, até que recebe do regatão uma mercadoria que lhe custa um punhado de notas de quinhentos réis. A chegada dessa mercadoria é assim descrita pela personagem Matias: “[...] de braço dado com Cipriano vi a ‘encomenda’ chegando ao barracão, com chapéu de plumas, deixando pelo caminho forte odor de perfume francês, falando com um sotaque que me deu a impressão de ser eslavo”.[93]
            A chegada da mulher, para o seringalista, causa impacto, uma vez que no seu seringal a presença de mulheres é proibida pelo regulamento: “[...] a seringueirada toda a ‘imaginava’. À sua maneira, é claro. Com a imaginação superaquecida pela influência da prolongada abstinência carnal, que ia aos poucos temperando a realidade. Transformando a velha meretriz aposentada num verdadeiro mito. Quase uma deusa, inspiradora de sonhos lascivos e de excessos masturbatórios que confessavam sem a menor cerimônia”.[94] O privilégio da mulher que a personagem do seringalista pode auferir não fica sem castigo no romance, pois mesmo possibilitando luxo e conforto à prostituta negociada pelo regatão, tornando-a a ‘senhora’ do seringal, Cipriano é traído por ela e por seu empregado de confiança, que fogem juntos. A mulher mais uma vez acarreta um desfecho trágico na ficção da borracha: a personagem do seringalista vinga-se da traição com um duplo assassinato; é presa, condenada e ainda sofre a ruína econômica em virtude da baixa de preço da borracha.
            Dentre as obras referidas nesse capítulo, Deserdados é aquela que mais se concentra no aspecto da escassez e ausência da mulher no ambiente do seringal. Nos seus quinze capítulos, o livro aborda várias circunstâncias reveladoras tanto dos conflitos causados pela presença limitada da mulher quanto das alternativas extremas de que lançam mão os seringueiros para verem seu instinto sexual saciado. O episódio da disputa de uma mulher por dois seringueiros marca um dos momentos mais violentos da narrativa. Sugerindo precisamente que o ser feminino é disputado como uma presa, esse capítulo da luta feroz entre os seringueiros intitula-se “Caça á femea”. Como a luta não tem vencedor, ficando os dois contendores mortos, a mulher é abandonada à sorte e ensandece pela perda do companheiro e pela perda do que haviam construído juntos, a barraca incendiada durante a luta. A disputa pela mulher, entretanto, não termina com a cena sangrenta entre os dois seringueiros. Apesar de ela ter um idade avançada e ter perdido a lucidez, os seringueiros ainda a vêem como um possível usufruto:
 
Outro seringueiro famelico chamou de lado o patrão e em segredo lhe propôz a posse da virago imbecilizada, sob a recompensa de pagar-lhe a elle as dividas por ventura contraídas “por ambos” os freguezes assassinados. Mas quando em sua companhía, chegou ao local trajico, já outro lascivo havía tirado partído da irrezistencia da idiota e a conduzíra alhures, pelo labirinto da mata com o rafeiro, para uma outra cena horripilante que a contijencia do viver alí sujería e punha em pratica: a conjugação nojenta de uma carcaça repulsíva de mais de meio século de uzo com a seivoza compleição de um mancedo de vínte e poucos anos nos estertores morbidos da brutalidade antropoidesca da posse, sob a ramaría umbrosa, num leito de folhas e de líchens...
Ordenado pelo patrão sequiozo do saldo do melhor licitante, ía começar a emocionante caça á femea cretína, que outro famulento levava para a solitude florestal, á satisfação infrene dos instintos, á violência brutal da satiríaze...[95]
 
            O seringueiro, sentindo-se lesado por ter negociado uma “mercadoria” que lhe foi roubada antes da posse, cobra do patrão a entrega. O diálogo é expressivo da condição de objeto da mulher:
 
- Pensa Você que eu devia pegar a mulher e botal-a em sua rêde, ou apenas consentir em V. leval-a em paz para a sua barraca? Quando V. vem aquí comprar-me um paneiro de farinha, não faço eu apenas abrír  a porta do armazem para deixar que V.  o tíre? Algum dia eu lhe metí nas mãos a saca de sal ou o cunhete de balas, ou foi você que os foi escolher no depozito ?
 E completou, sereno, com sua lojica:
- O cazo é idêntico. Eu apenas lhe dei o direito de levar a mulher e a V. cabia ir buscal-a, tal como a um paneiro de farinha do armazém...
- Entonce o patrão me amostre o almazem ín quí a sua ‘mercadoría’ stá. P’lo menos eu tenho quí vê sí a coiza istá bôa, num é?[96]
 
            A necessidade de possuir uma mulher em qualquer condição, demonstrada no episódio de Deserdados, é ressaltada também em outra obra do ciclo, No circo sem teto da Amazônia: “Só a mulher é rara. Só a mulher é difícil e por isso, linda ou horrenda, quente ou anestesiada, voluptuosa ou fria, limpa ou nauseabunda, é ela a bússola que orienta a horda dos exploradores da jângala.”[97]
            Constituindo aberrações, na maioria das vezes, essa relação difícil do seringueiro com a mulher tem no extremo oposto da mulher velha, a menina em idade precoce para o sexo que é possuída através do estupro ou do aliciamento. Obras como Deserdados, Dos ditos passados nos acercados do Cassianã e Beiradão contêm passagens representativas dessa situação. Na última, a descrição do amasiamento de um seringueiro com três meninas demonstra que a escassez se transforma em excesso: “José Arruda, lá do alto, desgraçou três pobrezinhas – uma de 9, a segunda de 10, outra de 12 anos. Viviam juntinhos, na mesma barraca. O delegado meteu a peia no bruto, botou no tronco e conversou com as cunhãs. Pois todas defenderam José Arruda, que lhes dava bóia e roupa. Pareciam cobrinhas assanhadas.”[98]
            Enquanto algumas narrativas apenas sugerem, num “causo” ou noutro contado pelos seringueiros, o bestialismo como a forma de superar a ausência da mulher, Deserdados ostenta num capítulo intitulado “Aos azares da sorte” uma descrição da prática de sexo com animal. Na vida do seringal, essa prática não se torna exclusiva de seringueiros, mas também de outros homens envolvidos nas diversas atividades paralelas à extração, que também compartilham do regime recluso. Mateus, um comboieiro, é a personagem protagonizadora do capítulo de Deserdados que se sente obrigada a se satisfazer sexualmente com fêmeas não humanas. Pressionado pela falta de mulher, ele passa a observar libidinosamente as fêmeas dos bichos e a desejá-las:
 
De uma feita surpreendera os amores danozamente lubricos de duas onças e escitara-se ao estremo de alvejar a femea para tel-a na posse, numa impropria substituição do felíno; de outra uzara uma anta abatida, em espasmos baixíssimos de necrofilo ultra-degenerado. Os macacos que se amavam em digressões pela ramaría, ou os jabotís  que se faziam dos mais tonantes genezístas do orbe biolojico, levaram-no aos paroxísmos da sedução sexual: e como lhe faltasse humana companheira, Mateus vía–se na continjencia ingrata de tomar uma inferior das garras do macho, á bala, ou de uzal-a ao limiar da morte com a veemencia dejenerativa dos enfuriados.[99]
 
            O comboieiro encontra na mula “Faceira” a satisfação do desejo que o punha em constante inquietude, mas após servir-se da mula com constância, nota que ela se habituara a esperá-lo sempre no mesmo lugar e a indicar com gestos característicos o desejo de que ele consumasse a ação. Essa atitude do animal passa a enojá-lo e ele se dá conta de que tornara-se “[...] apenas um sordido instrumento para alimarías insatisfeitas..”[100] Da repulsa, ele passa ao ódio e executa uma vingança sádica contra a mula:
 
A “Faceira” fez-lhe de pezadelo-mór. E ele , por vingança, certo dia deparando na estrada um pedaço de muiratínga, desse arbusto singular cujos ramos, em secando, se bipartem em cem numero de falus, perfeitos com a morfolojía masculina, meteu um deles sob o braço e esperou sofrego, a parada da Faceira no ponto costumeiro. Era mais uma baixeza de sua psiquoze. Ensebou o troço imitativo. Esse admirável cazo de simbioze vegetal, e incrustou com bruteza na estrutura antes uzada com delícia...[101]
 
            No livro de contos O tocador de charamela, o aspecto da ausência da mulher faz-se mais uma vez presente através da  tríade  “Três histórias da terra”. Os contos deixam de lado o aspecto grotesco explorado em Os deserdados e enfocam a solidão do homem no seringal de uma forma pungente em “Tio Antunes”, o velho que espera indefinidamente a chegada de uma mulher e finda por enlouquecer. Por outro lado, há também uma abordagem bem humorada em “Zeca-Dama”, um seringueiro que ameniza a ausência de mulheres nas festas, dançando com outros seringueiros e em “João Carioca: mandão e famão – Juiz de Paz”, o seringalista que resolve o problema da falta de mulheres em seus seringais, trazendo prostitutas do Ceará e casando-as com seus seringueiros.[102]
            Se, por um lado, a ênfase dada pela ficção nos comportamentos sexuais aberrativos tem como principal motivo a solidão dos seringueiros e de outros trabalhadores do seringal, solidão que os leva, segundo a narrativa de Adaucto Fernandes, em Arapixi, a se animalizarem: “[...] São homens que não vivem. Vegetam segregados da sociedade que os brutaliza e explora. São sêres humanos no aspecto e alimárias estranhas na mata [...][103], algumas obras demonstram também que os desregramentos sexuais não são exclusivos dos seringueiros que não têm contato com mulheres e que vivem isolados na mata. Nessas obras, os coronéis seringalistas, mesmo casados e podendo também se afastar dos seringais para se divertirem com prostitutas nas capitais, cometem violações contra enteadas e sobrinhas. Diferentemente do castigo sofrido pelo seringueiro amasiado com três meninas, apresentado em Beiradão, esses seringalistas não sofrem qualquer punição ou advertência da justiça e continuam a exercer autoridade para determinar a conduta correta de seus subordinados.
            Na constância da abordagem do ser feminino como coisa rara, escassa ou inexistente no seringal, resulta um apagamento, na maioria das obras do ciclo, da personagem feminina enquanto realizadora de uma ação ficcional efetiva. As personagens femininas não possuem individualidade nas narrativas, não têm pensamento ou atos descritos que lhes possam dar um caráter próprio. Aparecem como mercadoria, como objeto de disputa tal como a cabocla Maiby, do conto homônimo, ou a prostituta Conchita, de Coronel de barranco. Quando esposas de seringalistas, recebem atenção na narrativa em virtude do desejo que despertam nos homens premidos pelo clamor sexual, como a personagem-esposa do guarda-livros, de A selva, cobiçada pela personagem Alberto nos momentos de volúpia causados pela abstinência prolongada.
            A exceção à falta de delineamento da personagem feminina faz-se em Terra de ninguém, em que a personagem Nadesca, filha do seringalista, constitui o oposto das personagens das demais narrativas, mostrando-se voluntariosa e dona de suas ações. Para delinear essa personagem que possui independência, o narrador comenta que ela falou-lhe “[...] do desejo que alimentava de viver livre, como as águas, barulhentas da corredeira; como os pássaros alígeros que voavam lá em cima; como as corças selvagens que não encontravam limites nem perspectivas marcadas”. [104] Nadesca não apenas tem voz, contesta o sistema de trabalho do seringal do pai e a truculência das ações deste, como participa, no final do romance, da revolta dos seringueiros. De ares revolucionários a ponto de se tornar uma caricatura, essa personagem é uma das responsáveis pela acusação que se faz a Francisco Galvão de criar um romance com situações e personagens inverossímeis.[105]
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A DIVERSIFICAÇÃO DA ABORDAGEM FICCIONAL DO CICLO DA BORRACHA NAS OBRAS A selva, Beiradão e O amante das amazonas.
 
Conforme demonstramos, as obras que abordaram o “ciclo da borracha” retomaram, em sua maioria, os aspectos em torno do comportamento truculento dos seringalistas e as conseqüências da ausência da mulher no seringal. Sobre a constância do primeiro aspecto, Mário Ypiranga Monteiro destacou a insistência dos autores em transformar o nordestino no que denomina “arquétipo do patrão seringalista mau e ganancioso, analfabeto e bronco.”[106]
É preciso distinguir, todavia, o papel tirânico do seringalista reiterado na ficção e a presença do explorador como elemento verossímil no contexto em que se desenvolveu o ciclo econômico de exploração do látex. Tornamos a lembrar que a existência do seringalista como explorador origina-se em virtude da estrutura implantada nos seringais, na qual ele constitui o elemento detentor dos meios de produção que efetivamente explora a riqueza natural através do trabalho do extrator.
De modo geral, a ficção sobre o ciclo hipertrofiou a presença do explorador, forjando um tipo com características que muitas vezes excediam as que a realidade oferecia. A abordagem sobre o ciclo limitou-se a forjar esse decalque do explorador, apresentando pouca variação.
A diversificação que a partir desse capítulo apontaremos na abordagem das obras ficcionais tem como base o aprofundamento e a renovação da temática e da estrutura narrativa. Antes, porém, de nos determos nas três obras sobre as quais empreenderemos a análise – A selva, Beiradão e O amante das amazonas – é necessário mencionar obras que compõem o ciclo de ficções da borracha cujo conteúdo e cuja estrutura narrativa apresentam alguma diversificação na abordagem do tema. 
O perfil quase unânime do seringalista cruel sofre uma alteração em Dos ditos passados nos acercados do Cassianã, romance de Paulo Jacob, publicado em 1969. Anastácio Trajano, a personagem do seringalista, foge em mais de um ponto ao tipo inescrupuloso, determinado em outras obras, pois cumpre as obrigações patronais, inclusive o pagamento do saldo aos seringueiros, não os submete aos castigos físicos usuais e não se nega a ajudá-los quando necessitam de seus favores. O romancista não deixa, todavia, de expor o caráter do seringalista perverso em outra personagem do romance, Macário Gomes, antítese de Anastácio Trajano. Macário , através de sua índole sórdida, é que, na verdade, domina a ação da narrativa da metade até o final. O romance não promove uma oposição duradoura entre as personagens que representam o bom e o mau seringalista. Saindo Anastácio Trajano de cena, o vil Macário Gomes predomina, à semelhança dos tipos característicos de outras obras. Em virtude disso, a presença no romance do seringalista que foge ao tipo corriqueiro não leva a uma completa diversificação, apaga-se como se tivesse apenas o objetivo de apresentar um exemplo de bom seringalista. Explicita-se que o romancista não tencionava levar a cabo uma luta do bem contra o mal, o desaparecimento da personagem Anastácio Trajano não possibilita que essa luta seja o desfecho do romance. O fim do seringalista mau é selado por seus próprios capangas, que se cansam de seus atos perversos e o assassinam.
É também numa outra obra de Paulo Jacob, O gaiola tirante rumo ao rio da borracha que a abordagem  do ciclo se afasta do usual binômio margem/centro para se localizar inteiramente a bordo de um barco, o gaiola “Rio Curuçá”. Aí se movem os tipos peculiares ao tema, sendo que a personagem do comandante do barco, secundária em outras obras, aparece com maior destaque. Não constituindo necessariamente uma obra que apresente aprofundamento do tema, é uma demonstração de criatividade do romancista que cria uma imagem do gaiola representando o próprio ciclo e faz coincidir a ruína e o desmantelamento do barco com o declínio da exploração da borracha amazônica.
Antes das obras de Paulo Jacob, o romance Terra de ninguém, publicado em 1934 por Francisco Galvão, trouxe algumas inovações, apesar de não se contarem até então um número muito expressivo de obras em que se possa identificar uma constância de abordagem. Já haviam, porém, sido publicados O paroara (1899), Inferno verde (1908), Deserdados (1921) e A selva (1930).
Primeiramente, cabe destacar a contenção narrativa do romance que, divergindo das obras que o antecederam, não se derrama em descrições, nem se excede no preciosismo dos vocábulos ou no rebuscamento dos períodos. Essa contenção revela que o autor buscava inovar em sua narrativa, atestando sua filiação ao ideário modernista.[107] Márcio Souza, no comentário sucinto que fez sobre a obra, tratou-a como uma “verdadeira floração estranha no interior de uma ficção comportada”[108] e apontou a sua inconsistência pela inverossimilhança ideológica. Djalma Batista, no ensaio “Letras da Amazônia”,[109] publicado em 1938, já apontara o livro como inverossímil sem maiores comentários. Para Souza, a falta de verossimilhança consiste em personagens membros de uma classe abastada defenderem ideais contrários a essa classe. Nessa observação, o autor talvez não leve em conta que não é totalmente improvável um membro de uma classe abastada se indignar com as injustiças sociais promovidas por essa classe. Acreditamos que a inverossimilhança em Terra de ninguém resida mais justamente em outro ponto. O de o autor tentar produzir um romance de tese sem o devido adensamento. Buscando veicular idéias feministas e socialistas através de suas personagens, o romance soçobra por carência de desenvolvimento da matéria romanesca e de consistência das personagens. Nadesca, uma das protagonistas, é incoerente não por ser membro de uma classe abastada e ter ideais de justiça social, mas porque se mantém usufruindo das benesses que o pai lhe oferece praticamente sem conflito até o final do romance, quando enfim assume uma atitude de revolta. Até então, ela que propala idéias socialistas, se comporta como uma turista passeando pelo mundo do seringal, notando seus problemas sem se envolver. Manifesta querer conhecer a forma simples de vida dos seringueiros, suas dificuldades, mantendo-se na posição de abastança. Não há, no romance, verdadeiro conflito de Nadesca que a revele como uma personagem complexa. Feitas essas considerações, não se pode negar ao romance de Galvão a tentativa inusitada de trazer a mulher para a cena central da narrativa do seringal na qual ela sempre figura como um objeto de disputa parcamente delineado. Terra de ninguém, sendo um romance publicado entre as décadas de 1930 e 1940, traz a marca do idealismo revolucionário de um período da história brasileira.[110]  O subtítulo do romance – romance social do Amazonas – e o seu conteúdo que inclui o desfecho com uma revolta dos seringueiros, levaram à consideração de que ele seria pioneiro na criação de uma prosa amazonense de cunho social. Consideração que não é de fato justa, se se levar em conta que em Inferno verde, obra de Alberto Rangel publicada em 1908, a temática social já é tratada no conto “Obstinação” que enfoca a revolta interiorizada de uma personagem caboclo o qual pratica o suicídio enterrando-se vivo na terra que lhe é tomada por um latifundiário, descrito como um apuiseiro social.[111]
A utopia de fundar uma sociedade mais justa alimentada nas décadas de 1930 e 1940 sob o influxo das idéias socialistas aparece delineada em Terra de ninguém e em outras obras do período. Amazônia que ninguém sabe, romance[112] de Abguar Bastos publicado em 1932 e depois rebatizado na segunda edição, em 1934, de Terra de Icamiaba projeta na personagem Bepe um herói socialista amazônico. Bepe sintetiza a busca de um líder nacional autêntico. A criação de uma nova arte nacional através do repúdio à velha arte da cópia do modelo europeu que Francisco Galvão propõe, no “Manifesto da beleza”, é igualmente encampada por Bastos em passagem que a narrativa de Terra de Icamiaba dá lugar ao manifesto[113]. Apesar das afinidades nas concepções estéticas entre Abguar Bastos e Francisco Galvão e de suas obras terem sido escritas em períodos próximos, assemelhando-se até no paralelismo dos títulos, o primeiro escreve uma obra diversa da temática usual da borracha. Ainda que o narrador profira críticas diretas às falhas do sistema extrativista da borracha: “O leite da seringueira, brilhante e pastoso, foi apenas um relâmpago de grandeza. Ceilão fez concorrência e matou a fortuna dos seringais”[114] não se detém na pintura do seringal, de seus tipos e de seus conflitos. Diferentemente de outras obras,  esta não realiza a estrutura convencional do romance realista, sua construção aproxima-se do discurso poético. Sem um desenvolvimento preciso de enredo, atrai mais pelas imagens do que por uma trama.[115]
Neste trabalho, optamos por uma análise detalhada das obras A selva, Beiradão e O amante das amazonas por serem essas três obras as mais representativas do aprofundamento e diversificação do tema do “ciclo da borracha” dentro de uma extensa trajetória ficcional. Para efeito de estudo, dividimos essa trajetória em três fases. A primeira compreendendo as publicações de O paroara, em 1899, até A selva, em 1930; a segunda, a partir da publicação de Terra de Icamiaba, em 1934, até Coronel de barranco, em 1970; e a terceira, a partir da publicação de O amante das amazonas, em 1992. Nosso critério de divisão dessas fases orienta-se não apenas por uma periodicidade temporal. Consideramos o conteúdo das obras e a sua forma de abordagem. Na primeira fase, o tema é abordado dentro de uma seqüência epigônica desencadeada por Euclides da Cunha com À margem da história, obra em que denuncia a espoliação sofrida pelo seringueiro. Apesar de ter sido publicada em 1909, sendo, portanto, posterior a Inferno verde (1908), de Alberto Rangel, é possível perceber a identificação de estilo e de idéias entre os autores e considerar Rangel seguidor de Cunha.[116]
Cunha e Rangel inspiraram, por sua vez, Carlos de Vasconcelos, em Deserdados (1921) que copia-lhes a opulência da linguagem. Desta tendência epigônica, fica à margem Ferreira de Castro, autor português que abordou o tema motivado por documentar sua própria experiência no seringal.
As obras da segunda fase, ao contrário das da primeira, não se delineiam pela continuidade de um estilo. Mesmo algumas delas possuindo uma dose de pensamento social reformador, como Terra de Icamiaba, Terra de ninguém, Um punhado de vidas, apresentam autores com estilos diversos. Nessa fase, portanto, as obras representam mais uma experiência de cada autor do que a continuidade da tradição de um estilo. A exceção ocorre em No circo sem teto da Amazônia (1955) que ainda traz o descritivismo e a linguagem carregada à semelhança dos estilos de Euclides da Cunha e de Alberto Rangel.
Incluímos na terceira fase apenas a obra O amante das amazonas, omitindo as abordagens episódicas do tema em parte dos romances Terra firme e Regime das águas e nos contos incluídos em O tocador de charamela por entendermos que o romance Coronel de barranco é um marco que baliza a segunda fase e que a abordagem do tema nessas obras posteriores é menos uma continuidade do ciclo ficcional do que recorrência isolada. Apontamos a terceira fase em O amante das amazonas por essa obra atestar um novo estágio de abordagem do tema do ciclo em que tanto o tema se renova quanto a estrutura narrativa sofre uma acentuada reorganização.
A selva, Beiradão e O amante das amazonas, abrangendo as três fases, expressam diferenciais de abordagem em cada uma delas. As três obras são representativas de três percepções sobre o ciclo, a do escritor estrangeiro, do escritor político e do escritor estudioso da literatura. Nessas três percepções, um ponto em comum: a experiência, direta e indireta, do seringal. Direta, em Ferreira de Castro e Álvaro Maia, que o conheceram pessoalmente. Indireta, em Rogel Samuel que o reconstitui pelo caminho da memória do avô, um rico comerciante da borracha. Passamos a analisar as três percepções e os consecutivos delineamentos que deram às obras.
 
 
 
 
 
 
 A selva: a visão de um imigrante português sobre o ciclo da borracha
 
            Ao escolher a Amazônia como espaço de representação de seu romance, Ferreira de Castro não o fez como um absentista[117], baseou-se na própria vivência de quatro anos num seringal localizado no rio Madeira que, coincidentemente com o topônimo dado ao local na ficção, também se chamava Paraíso. No Pórtico de abertura do romance, o autor declara: “Eu devia este livro a essa majestade verde, soberba e enigmática que é a selva amazônica, pelo muito que nela sofri durante os primeiros anos da minha adolescência e pela coragem que me deu para o resto da vida [...]”[118]. A edição comemorativa dos vinte e cinco anos de publicação da obra, em 1955, traz em “Pequena história de A selva” uma configuração maior do tom confessional que o romancista dá à criação do romance. Nesse texto, que é uma contribuição ao estudo da formação de um escritor, Ferreira de Castro expõe o quanto o contato e a experiência com a natureza amazônica impressionaram o seu espírito, impelindo-o a transformar em matéria ficcional todas as sensações de um mundo que não conseguia esquecer. Ao mesmo tempo, revela também um temor de registrar essas sensações e assim revivê-las:
 
[...] durante muitos anos tive medo de revivê-la literariamente. Medo de reabrir, com a pena, as minhas feridas, como os homens lá avivavam, com pequenos machados, no mistério da grande floresta, as chagas das seringueiras. Um medo frio, que ainda hoje sinto, quando amigos e até desconhecidos me incitam a escrever memórias, uma larga confissão, uma existência exposta ao sol, que eu próprio julgo seria útil às juventudes que se encontrassem em situações idênticas às que vivi.[119]
 
            Não obstante a recriação literária do ambiente amazônico significasse para o romancista rememorar uma experiência traumática do seu segundo decênio de vida, ele tinha convicção de que essa recriação só poderia se realizar a partir de um compromisso de fidelidade:
 
As selvas, fechassem elas o seu mistério nas vastidões sul-americanas ou verdejassem, mais permeáveis à luz solar, na Ásia, na África, na Oceania, representavam desde há muito, um assunto maculado literariamente. Maculado por milhentos romances de aventuras, onde a imaginação dos seus autores, para lisonjear os leitores fáceis, se permitira todas as inverossimilhanças, todas as incongruências.
Eu pretendera fugir à regra. Pretendera realizar um livro de argumento muito simples, tão possível, tão natural que não se sentisse mesmo o argumento. Um livro monótono porventura, se não pudesse dar-lhe colorido e vibração, mas honesto, onde o próprio cenário em vez de nos impelir para o sonho aventuroso, nos induzisse ao exame e, mais do que um grande pano de fundo, fosse uma personagem de primeiro plano, viva e contraditória ao mesmo tempo admirável e temível, como são as de carne, sangue e osso. A selva, os homens que nela viviam, o seu drama interdependente, uma plena autenticidade e nenhum efeito fácil – era essa minha ambição.[120]
 
            A verossimilhança que procurou manter em relação a um mundo que fez parte de sua experiência de vida deu a Ferreira de Castro a possibilidade de ser defendido quando foi acusado de detratar a realidade amazônica.[121]
            O cosmopolitismo de Ferreira de Castro, as viagens que empreendeu a começar pela saída de Portugal ainda menino, a chegada a Belém do Pará e depois a partida para o rio Madeira, a viagem de volta ao mundo na idade adulta deram-lhe a possibilidade de conhecer diferentes países. Daí a sua obra apresentar expressões culturais tão diversas: do Brasil, e nele é preciso abrir um parêntese para a Amazônia, da Espanha, da França e de Portugal, sua terra de nascimento. Podemos deduzir que a experiência de viajante foi fundamental na construção da obra do romancista. Jaime Brasil, biógrafo do romancista,  enfatiza que “[...] sem a ida ao Brasil, na idade e nas circunstâncias em que o fez, Ferreira de Castro, embora viesse a ser um grande escritor, não teria escrito A selva [...].”[122] Para Magalhães Júnior, A selva é um romance brasileiro pelo seu tema.[123] Ferreira de Castro é um autor que desafia as fronteiras literárias e enseja a discussão que envolve nacionalidade e tema na literatura.[124]
            A nomeação do romance como amazônico parte do fato de que o ambiente em que se passa e a sua temática estão voltados para essa região, mas um outro fato que também deve ser levado em consideração é que esse romance tem um criador e um protagonista de nacionalidade portuguesa. Nesse ponto, a experiência de vida e a criação estão ligadas. Se, por um lado, não há impossibilidade de um romancista escrever um livro sobre um mundo que não conheceu pessoalmente, por outro, há também uma necessidade que o compele a escrever sobre um mundo que faz parte de sua experiência. Em A selva, a particularidade da experiência se confirma não somente pelas próprias palavras do autor como também porque, diferentemente do que ocorre em outro romance de sua autoria, A curva da estrada, em que a ação se passa na Espanha e é protagonizada por personagem espanhol, Ferreira de Castro criou para o romance que se passa em ambiente amazônico um protagonista português. A intenção do autor, portanto, era enfocar o ambiente amazônico pelo prisma de um imigrante. Convém destacar que o romance é documental no sentido de que o autor registrou aquilo que de fato observou , dando azo à criação do romance, não é, porém, um romance autobiográfico, pois contém mais distanciamento do que aproximação entre autor e protagonista. Um comentário do autor é esclarecedor a esse respeito: “Se é verdade que nesse romance a intriga tantas vezes se afasta da minha vida, não é menos verdadeiro também que a ficção se tece sobre um fundo vivido dramaticamente pelo seu autor[...]”[125]. Como Alberto, o protagonista, Ferreira de Castro foi enviado para o seringal. As condições que motivaram as viagens de ambos coincidem em alguns pontos, mas também se diferenciam. Foram enviados ao seringal porque tornaram-se dispendiosos, Alberto para o tio, Ferreira de Castro para o seu protetor. Alberto era um homem com convicções formadas, participara em Portugal da revolta monarquista. Ferreira de Castro, um menino pobre com intenção de escrever textos literários. Quando se trata da personalidade, nota-se uma franca oposição. Ferreira de Castro foi um humanista que não se filiou a facções políticas [126]  Na ficção, Alberto é um monarquista que como tal defende os privilégios dessa classe, despreza  os humildes. Na terceira classe do barco onde vem a se encontrar pelas contingências da sorte a caminho do seringal, não quer se misturar aos nordestinos porque considera a natureza destes inferior. Despreza a democracia e a igualdade humana. Após um longo caminho de humilhações, sofrimento e resignação é que Alberto passa a ver a vida e os seres humanos de modo diferente, abandonando, no final da narrativa, os princípios monarquistas. A evolução por que passa o protagonista foi preferida pelo romancista que declara ter abandonado os planos de criar uma personagem estática: “[...] A personagem assim apresentada tinha idéias já formadas sobre a injusta organização do mundo em que vivia e, naturalmente, veria o mundo em que ia viver com uma atitude moral preconcebida, com um espírito apenas de confirmação, o que diminuiria, para quem não aceitasse as cores do seu horizonte, o sentimento de verdade naquilo mesmo que era verdadeiro. Preferi, portanto, uma figura evolutiva [...][127].
            O enredo de A selva começa focalizando o imigrante português Alberto, desempregado, vivendo às custas do tio em Belém. A situação que envolve o desconforto do protagonista por saber-se dispendioso e incômodo não demora a se alterar, pois o tio logo lhe expõe a oportunidade que se apresenta de ele partir para o seringal em busca de trabalho. Sem condições de recusar a quase imposição, Alberto se resigna, sabendo de antemão que se punha numa situação de risco, destacando-se para uma região desconhecida e perigosa.  O tio, cujo único objetivo é convencê-lo, alardeia uma chance promissora de fortuna:
 
- Para o Madeira, disse o tio?
- É o seringal chama-se o Paraíso.
- Rio Madeira... Rio Madeira... Não é lá que há muitas febres?
- No Madeira...
- É; em todos os seringais há muitas febres... - interrompeu-o, finalmente, Alberto.
[..]
- Que é que eu iria fazer lá?
- O que iria fazer?... Não sei. Cortar seringa, talvez não, porque é duro. Mas os seringais têm sempre um escritório, um armazém... Vamos a ver. Vamos a ver o que se arranja. E não te aborreças, pois aquilo, para quem tem saúde e juízo, são terras onde se enriquece em pouco tempo [...].[128]
 
            As considerações do narrador sobre o futuro que se afigura temerário para Alberto expõem o círculo que se constitui em torno da extração do látex: empregados de comércio, retirantes, oportunistas, buscando uma chance de fazer fortuna. Uma passagem do romance ilustra como se dá a riqueza de alguns e a miséria de outros:
 
Fora assim que o tio enriquecera e tinha já duas quintas em Portugal; fora assim que pobretões sem eira nem beira se transformaram, dum instante para o outro, em donos de ‘casas aviadoras’ tão poderosas que sustentavam no dédalo fluvial grande frota de ‘gaiolas’. Aos que desbastavam a saúde e a vida no centro da floresta, vendiam por cinqüenta aquilo que custava dez e compravam-lhes por dez o que valia cinqüenta. E quando o ingênuo conseguia triunfar de toda essa espoliação e descia, sorridente e perturbado pelo contacto com o mundo urbano, a caminho da terra nativa, nos confins do maranhão ou do Ceará, lá estava Macedo com os colegas e as suas hospedarias, que o haviam explorado na subida e agora o exploravam muito mais ainda, com uma intérmina série de ardis, que ia da ‘vermelinha’ onde se começava por ganhar muito e se acabava por perder tudo, até, o latrocínio, executado sob a proteção do álcool.[129]
 
            Alberto embarca rumo ao seringal e, ao se encontrar na terceira classe do “Justo Chermont”, depara-se com uma realidade que custa a aceitar. O convés úmido e escorregadio exala mal cheiro; os seres humanos que ali se encontram aglomeram-se numa promiscuidade de animais. Ele se põe intranqüilo com a situação mas tem esperanças de receber tratamento distinto. Sabe-se posto ao nível dos outros pelas contingências mas embasado em seus princípios monarquistas, acredita-se moralmente superior:
 
Magoava-o a facilidade com que outros recrutados dormiam tranqüilamente um sono que era, para o egoísmo dele, quase uma afronta.
E sorria, depreciativamente, ao pensar no apostolado da democracia, nos defensores da igualdade humana que ele combatera e o haviam atirado para o exílio. ‘Retóricos, retóricos perniciosos! Queria vê-los ali, ao seu lado, para lhes perguntar se era com aquela humanidade primária que pretendiam restaurar o Mundo [...] Ele e os seus, declarados inimigos da igualdade, defensores de elites, eram bem mais amigos dessa pobre gente que os outros, os que a ludibriavam com a idéia duma fraternidade e dum bem-estar que não lhe davam nem lhe podiam dar. Só as seleções e as castas, com direitos hereditários, tesouros das famílias privilegiadas, longamente evoluídas, poderiam levar o povo a um mais alto estádio. Mas tudo isso só se faria com autoridade inquebrantável – um rei e os seus ministros a mandarem e todos os demais a obedecer [...][130]
 
            As esperanças de Alberto se desvanecem, não lhe é dado tratamento especial a bordo do vapor, sua última ação de recusa a aceitar o estado de subserviência igual ao dos outros recrutados é contrariar as ordens de Balbino, o agenciador,  desembarcando em Manaus e recorrendo a uma tentativa de escapar ao seringal. Assim, resolve fazer um pedido de emprego a um rico comerciante, mas o emprego é-lhe negado e a sua humilhação se acentua com a constatação de que o distinto comendador a quem recorre, um conterrâneo no qual supunha encontrar solidariedade, haja vista também ter passado por dificuldade antes de enriquecer, trata-o como um pedinte, dando-lhe uma esmola a fim de se livrar de sua presença incômoda.
            O aprendizado de Alberto rumo à mudança de suas convicções políticas terá prosseguimento no seringal, onde, como brabo, primeiramente será submetido ao trabalho árduo de extração do látex, trabalho que não suportaria não fosse a ajuda de um seringueiro experiente, Firmino, que torna menos penosa a sua lida diária nas estradas. Firmino passa a ser mais que um seringueiro manso, guia de um seringueiro brabo, demonstra afeição de amigo por Alberto, poupando-o ou defendendo-o dos ataques de Balbino e Caetano, os fiscais do trabalho de extração que não acreditam na capacidade de Alberto, por ser estrangeiro, e procuram desmoralizá-lo numa competição que travam entre si para ganhar a confiança e a preferência do patrão.
            Isolado na monotonia da selva, oprimido pelo mundo verde, resta a Alberto apenas a certeza de ser impotente para mudar sua situação. A perspectiva da sucessão dos anos apresenta-se, então, como uma sentença que ele terá de cumprir tal qual os outros seringueiros. Um lance de sorte, porém, altera o que lhe parecia irremediável. O empregado do barracão que faz o despacho das mercadorias é remanejado para o trabalho de fiscalização das estradas e Alberto é chamado para substituí-lo. Com isso, o duro aprendizado interrompe-se. A ida para o barracão parece conferir-lhe uma distinção que lhe era atribuída inclusive pelo amigo Firmino: “ – Eu tenho pena de seu Alberto. O seringal não é para um homem de sua pele [...]”[131].
            A experiência na estrada do seringal, a impressão assombrosa que lhe causa a selva, o perigo dos ataques dos índios, que o punha sempre em estado de pavor, o trabalho para o qual não possuía habilidade, a humilhação que lhe haviam feito passar os empregados do seringal e também o patrão seringalista ao apontá-lo como inepto deram a Alberto uma nova dimensão da vida e também dos sofrimentos alheios. Ao se despedir de Firmino, a caminho de seu novo trabalho no barracão, ele já não demonstra a indiferença e o desprezo pela condição do outro que antes considerava de humanidade inferior. O sofrimento do outro compunge-o:
 
Alberto estremeceu. Sim, era verdade, dali em diante Firmino seria a única existência humana na clareira de Todos-os-Santos noites e dias a sós consigo, sepultado na solidão, sem ninguém que o distraísse, sem ninguém partilhando a mesma vida, os mesmos perigos, sozinho e remoendo sempre os mesmos pensamentos, em condena e persistência de doido varrido. Teria de falar alto para ele somente se quisesse certificar-se de que não perdera a voz; e, por companheira, possuiria apenas a selva inquietante, que se debruçava quase sobre a barraca, a atestar o seu domínio. A selva e a possibilidade de os índios o surpreenderem isolado.[132]
 
            Ainda restará, mesmo após a dura experiência na estrada de corte, parte do orgulho monarquista refletido no desejo de receber tratamento especial, de ser reconhecido como alguém que possui estudo e não como um bronco. Por isso, Alberto se sente satisfeito em aprender o trabalho contábil, mostrando-se lépido e diligente ao exercer uma atividade que não lhe parece humilhante, mas se indispõe intimamente com o trabalho de lavar e encher as garrafas de bebidas para o patrão, sob as ordens de Binda, a quem substitui. Ao ser chamado pelo cozinheiro para almoçar na cozinha e perceber que não lhe cabe lugar na mesa principal, onde comem o patrão seringalista, o guarda-livros e a sua esposa, reacende-lhe o sentimento de revolta por sentir-se desconsiderado tal como na terceira classe do barco que o levara para ali. Tivera que se contentar com o mesmo tratamento dado aos retirantes porque a primeira classe lhe era interdita. Agora, corroía-se e perdia a fome ao pensar no privilégio que também lhe era negado: “A mesa, que adivinhava lá dentro, com toalha branca, cristais e vinhos, enquanto ele comia na cozinha, ainda de mãos engelhadas pela água onde lavava as garrafas, provocava-lhe nova humilhação.[133]
            A situação de se ver como inferior leva-o a pensar na criada de sua família, em Portugal, fazendo-o refletir no tratamento que a família lhe dispensava como um “ser à parte”. Dá-se conta de que ele próprio assim a considerava e sente-se incomodado. Recobra, porém, o orgulho quando percebe que seu sofrimento e resignação lhe renderam uma “humildade postiça” que diante da dignidade recuperada não tem razão de ser: “[...] À medida que crescia no lugar ia regressando a si mesmo, de novo sentindo-se merecedor de tudo quanto de agradável lhe faziam: da deferência do senhor Guerreiro, da recente bonomia de Caetano e de Balbino – e de muito mais ainda.”[134]
            É também na mudança para o barracão que Alberto constata a sua fraqueza moral perante os desejos carnais. Se no centro havia reprovado as alternativas dos companheiros Agostinho e Firmino para satisfazer o desejo sexual, considerando-as ignominiosas, no barracão, à margem, onde parecia estar menos afastado da civilização tanto pelas condições de vida, quanto pela possibilidade de um dia tomar um barco para deixar definitivamente o seringal, sente, para roubar a tranqüilidade daquele pequeno conforto que conquistara, o clamor sexual assomar incontrolavelmente, tomando conta da mente e do corpo. A esposa do guarda-livros, dona Yayá, é a principal causadora de seus delírios lúbricos. A obsessão de possuí-la leva-o a cogitar a morte do marido, mas uma estima que passa a ter por este, reconhecendo o tratamento digno que lhe dá, livra-o de cometer o ato criminoso quando tem a oportunidade de executá-lo durante uma caçada da qual ambos participam.
            Não podendo ter dona Yayá, Alberto volta-se para a prática que mais considerara aviltante quando dela tomara conhecimento ainda no centro:
 
Sentindo-se ele próprio, com modos de autômato, dirigiu-se ao alpendre onde se guardavam os laços. Palpou as cordas na obscuridade, com os dedos escolheu uma, e cá fora ensaiou-a, abrindo-a e atirando-a várias vezes para um quadrúpede imaginário. E de novo se fundiu na noite morna e cúmplice.
Quando voltou, já se havia desvanecido no seu espírito a ígnea imagem de dona Yayá. Mas ele cravava as unhas nas palmas das mãos, salivava constantemente e falava sozinho como nunca lhe acontecera:
- Bolas! Bolas! Não está certo!
Despiu-se logo que chegou ao quarto, pôs a toalha no ombro e, atravessando o pequeno quintal, colocou-se ao lado dos barris. Esgotou toda a água no banho longo e persistente mas não conseguiu lavar-se da imensa repugnância que tinha por si mesmo.[135]
 
            O arrependimento não impede que ele seja tomado novamente pelo impulso de satisfação, investindo contra nhá Vitória, uma das raras mulheres no seringal, que presta o serviço de lavar sua roupa. A mulher ressente-se de seu ato desrespeitoso, que não lhe considera sequer a idade avançada, e denuncia-o ao guarda-livros Guerreiro. Esse vexame cai-lhe como um balde de água fria e dá-lhe força para suportar a abstenção que, devido à carta da mãe, dando notícia da anistia aos monarquistas revoltosos, promete ser temporária. A possibilidade de deixar o seringal torna-se viável por fim com a ajuda em dinheiro que a mãe lhe remete e com o saldo que o patrão considera quitado pelo salário de balconista, abreviando em alguns meses a sua espera. O romance caminha, então, para o seu desfecho, a trajetória de Alberto, constituída por um processo de evolução de sua personalidade e transformação de seus princípios chega ao fim.
            A transformação da consciência e a luta contra o instinto são os principais motivos que perpassam a estadia de Alberto no centro. O processo da transformação da consciência vai se dando de forma sutil, ora sua percepção avança, ora recua:
 
Melhor elucidado, via agora a situação dos ex-companheiros com maior amplitude crítica do que quando moirejava no mesmo plano deles; uma situação que lhe ocorria diariamente no próprio escritório onde seu âmago se encontrava. E nas horas de solidão, em que a austeridade e a fantasia tanto gostam de alternar, distribuía mentalmente justiça a todos eles, muitas vezes ofendendo durante esse devaneio, as suas idéias autocráticas, sem da agressão que lhes fazia se dar conta. Se as incoerências se denunciavam, quedava-se perplexo, todo confuso perante a nova inclinação que sentia e lhe provocava amargo conflito em lugar de uma consciência apaziguada. E então, buscando o equilíbrio que se lhe negava, discorria que naquela natureza o homem pertencia menos a si próprio do que em qualquer outra parte.[136]
 
            Esse estado de oscilação é freqüente na consciência de Alberto. Beneficiado pela inesperada generosidade do patrão, ele se questiona sobre sua contradição interior e a contradição como parte da própria relação entre os seres humanos, decorrida de seus interesses e das posições que eles ocupam na sociedade:
 
[...] ‘Seria ele quem mereceria mais a legítima restituição? E os outros? Os outros? Os que haviam esgotado, no cativeiro da selva, muitos mais anos do que ele, toda a mocidade, toda a vida, as ambições e as quimeras? E se ele não fosse branco, se não tivesse a simpatia do senhor Guerreiro, se não se encontrasse apto para desempenhar o cargo de Binda, que as circunstâncias lhe abriram subitamene? Se em vez de estar ali, em contato com Juca, se em vez de jogar o solo com ele, de comer ultimamente a mesma mesa, estivesse em Todos-os-Santos, simples seringueiro como Firmino, como todos os outros que mantinham o seringal, que davam a vida por uma riqueza que não aproveitavam, a dívida ser-lhe-ia  também perdoada? Não, com certeza não! Era certo que os homens são bons ou maus conforme a posição em que se encontram perante nós e nós perante eles; e falso o indivíduo-bloco, o indivíduo sem nenhuma contradição, sempre, sempre igual no seu procedimento’.[137]
 
            A rendição ao instinto e o reconhecimento da humanidade daqueles que não compartilhavam dos privilégios monárquicos ou os defendiam são interdependentes à medida que Alberto só reconhece essa humanidade após passar pela mesma degradação por que passaram os outros. Como os outros seringueiros, ele é dominado pelo instinto, sua natureza superior sucumbe da mesma forma que a natureza dos outros por ele considerada inferior: “ ‘Sou um miserável e um porcalhão como os outros’ ”[138]
            Cabe notar que a personagem atribui a vitória do instinto ao meio. Ante o meio bárbaro, de nada adianta ao homem lutar, sua rendição é inevitável:
 
[...] Afirmava a si mesmo que a responsabilidade não era dele, era do meio, era essencialmente da Natureza, [...] Um instante, às suas faces, agora freqüentemente barbeadas pelo filho de nhá Vitória, sobrepuseram-se as faces sujas de barba que ele e os outros seringueiros traziam, desmoralizadamente, em Todos-os-Santos, durante a semana inteira, por vezes durante semanas a fio. ‘E para quê o contrário, se todos eles eram vítimas, se não havia ali presenças femininas a estimularem a presunção dos homens, se não havia exemplos a seguir, para quê se lentamente a selva impunha o regresso à negligência, o retrocesso dos civilizados, como se estivesse empenhada em reincorporá-los na selvageria de onde se tinham evadido?’[139]
 
            É a selva também a responsável pela truculência humana, o patrão se alia a ela para executar sua obra de escravidão. Nesse ponto, a reflexão de Alberto nega que a injustiça decorra da relação entre os seres humanos e a atribui ao papel implacável do meio que degenera o humano, fazendo com que não se pertença nem se domine.
            O processo de aprendizagem de Alberto, compreendendo a sua tomada de consciência sobre o sistema de injustiça em que está calcado o funcionamento do seringal, a reavaliação de suas convicções políticas, mostra-se concretizado quando o principal motivo que o infelicita cessa. Podendo deixar o seringal e a selva, ele se permite uma nova mentalidade. Não mais acredita que a evolução da humanidade dependa das velhas castas e de seus direitos adquiridos, visualiza que a vida humana só transporá o simples rastejar, se os “velhos processos” forem abandonados e novas experiências tentadas: “[...]‘Não era, decerto, no que estava feito, era no que estava por fazer, que o homem viria a encontrar, talvez, o melhor de si próprio’ ”.[140]
            No diálogo que mantém com Juca Tristão, sente-se à vontade para admitir que não se considera mais nem monárquico nem republicano e que almeja “justiça para todos”. Faz um prognóstico que o patrão não entende, comunicando que sonha com a evolução do ser humano mas que acredita ser a evolução lenta e a sede de justiça mais profícua.
            A transformação de Alberto, compreendendo uma reflexão e uma prática não é completa, seu individualismo se sobrepõe ao seu senso de justiça social. A decisão de ajudar Firmino a fugir do seringal, fornecendo a lima para cortar as correntes da canoa na qual ele pretende fugir revela-se um ato temerário, uma vez que ajuda o amigo e considera justo que ele deseje a liberdade, mas teme se comprometer, arriscando seu futuro. Quando Firmino e os demais seringueiros fugitivos são capturados, vem-lhe o receio de que se descubra que ele teve participação na fuga. Ao tomar conhecimento do castigo imposto aos fugitivos, ele se horroriza, mas se cala. Não defende os seringueiros, apesar de estar convicto de que eles nada devem, não ousa questionar o patrão. Sabe que reagir significará perder a chance de partir, de recomeçar sua vida em Portugal e terminar seus estudos.
            Seu comportamento em defesa da monarquia fora diferente. Pelos princípios monárquicos, arriscara-se, exilara-se, afastara-se da mãe, da pátria. Como o pai, que não traíra esses princípios nem mesmo para ter uma vida mais cômoda, aceitando cargos oferecidos pelos republicanos em troca de adesão, ele defendeu a monarquia veementemente.
            A mudança de mentalidade ocorrida no seringal não leva de fato a uma ação em favor da justiça social, da “justiça para todos”, aspiração que ele revela ter ao patrão. Existem motivos que justificam a omissão de Alberto. Não há condições objetivas para que ele possa reagir contra as injustiças que presencia no seringal. Está totalmente isolado, não tem apoio de ninguém. Na revolta de Monsanto, ele contava com o apoio de outros que pensavam como ele, jovens dispostos a se insurgir contra o regime republicano. O enredo do romance demonstra que Alberto não encontra apoio nem no guarda-livros nem no seu substituto de balcão. O primeiro parece-lhe também insatisfeito com a tortura dos seringueiros, mas como ele, teme se envolver;  o segundo age como um capacho do patrão.
            Ao final do romance, a justiça será feita pela personagem menos provável de praticá-la: o negro Tiago, submisso a Juca Tristão a ponto de oferecer a cabeça como suporte para o objeto com o qual ele pratica o tiro ao alvo, mas não capaz de tolerar no seringal as práticas de tortura empregadas durante a escravidão negra. O fogo ateado por Tiago tem como principal objetivo atingir  Juca Tristão, pois tranca as portas do barracão, impedindo que o seringalista possa sair. Desse modo, a destruição se faz pela via mítica do fogo e atinge a fonte da injustiça.[141]
            O percurso do enredo de A selva informa o assunto e a conseqüente organização do romance. De acordo com o que expusemos, A selva faz a abordagem dos principais tópicos de um romance do “ciclo da borracha”. Grosso modo, temos conhecimento da saga de uma personagem recrutada para o seringal e o detalhamento das condições de viagem, comum a muitas obras, a passagem pelo centro e depois pela margem. No centro, são abordados assuntos como o trabalho do seringueiro, sua vida e suas privações, principalmente a privação sexual, as ameaças do meio assombroso e dos seus habitantes selvagens; na margem, focalizam-se os motivos que geram o sofrimento e a escravidão dos seringueiros, trabalhadores que não progridem: a extorsão através do aviamento, o poder do seringalista que controla com mão de ferro o dia-a-dia no seringal, o seu enriquecimento, em contraste com a pauperização dos seringueiros.
Numa consideração inicial, em termos de conteúdo, A selva não apresenta uma abordagem diferenciada quanto às obras da primeira fase do ciclo nem quanto às análises empreendidas por alguns autores em obras não ficcionais. O escorchante sistema extrativo já havia sido analisado por Euclides da Cunha em À margem da história; os problemas da escassez da mulher e da sua conseqüente negociação foram expostos por Alberto Rangel e Carlos de Vasconcelos. Através da escritura desses autores, das passagens literárias às mais informacionais, tinham sido expostos os principais aspectos que iriam caracterizar a abordagem sobre o ciclo. Salientamos que, apesar disso, A selva atinge uma maior compreensão e aprofundamento do caráter documental e histórico do ciclo. Dentro da temática histórica, é a obra que melhor contempla todos os aspectos. Da viagem do recrutado à revolta representada individualmente pela personagem Tiago, A selva fornece um amplo painel para entendimento do processo econômico do ciclo através do discurso romanesco. A obra apresenta os principais atores envolvidos nesse processo. Os tipos, como o tio Macedo, que se comunicam com o migrante ainda antes de ser seringueiro e que também o extorquem quando ele consegue ganhar algum dinheiro e volta à cidade; o aviador, representado pela personagem do Comendador Aragão, aventureiro português que faz fortuna; o seringueiro nordestino (Firmino, Agostinho); o seringalista (Juca Tristão); seus auxiliares (Balbino, Caetano, Binda); o filho do seringalista (Juquinha); o agregado (Tiago), que não participa do processo de extração, mas tem importância na vida do seringal[142]; o caboclo (Lourenço), que no romance é o contraponto para os arrivistas, pois não é movido pelo desejo de ganhar dinheiro; o guarda-livros (Guerreiro), uma personagem bem delineada, e o estrangeiro, protagonista (Alberto) e personagem secundária (Elias), aparecida já no fim do romance.
            A preocupação de Ferreira de Castro de dar ao romance um plano verossímil e bem arquitetado aproxima-o do documentário. Nas palavras de Márcio Souza, o romance atinge a mesma precisão de um “relatório crítico” e consegue resumir “os trinta anos de loucuras nos seringais”.[143]
            Em relação ao epigonismo característico da primeira fase, ao qual já nos referimos na introdução desse capítulo, A selva dele se afasta, haja vista o autor Ferreira de Castro não estar inserido num mesmo contexto de produção, tal como Cunha, Rangel e Vasconcelos. Desse modo, a criação romanesca de Ferreira de Castro se origina fundamentalmente do fato de necessitar pôr em cena o mundo do seringal, fruto de sua vivência, como ele próprio informa. Para que Ferreira de Castro desse continuidade a um discurso literário, seria necessário que representasse o trabalho continuado de vários romancistas num mesmo contexto de produção, fosse esse trabalho de caráter semelhante ou antagônico.[144] O que não significa, por outro lado, que a obra A selva não possua expressão amazônica. Contexto de produção deve ser entendido como as condições e as motivações que levam o autor a criar, que se distinguem de ambiente que ele efetivamente enfoca.
            Um dos diferenciais que apontamos na obra de Ferreira de Castro quanto à produção desses outros autores é a linguagem. A selva é escrita num estilo límpido, preciso e objetivo. Algumas passagens descritivas do romance ostentam a preocupação com o detalhe, mas não transmitem informações através de torneios sintáticos característicos a Cunha e Rangel. A clareza de linguagem apresentada por Ferreira de Castro distingue-se mesmo em comparação aos outros autores portugueses. Para Brasil, a sua escrita despoja-se da herança de escritores como Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano, Eça de Queiroz, Fialho de Almeida, pois opta por não explorar a opulência verbal ou o vernaculismo, preferindo um estilo “rico da seiva da vida, sem artificialismo.”[145]
            Num plano, porém, a expressão lingüística de Ferreira de Castro e de Euclides da Cunha e seus epígonos confluem: na criação de um discurso voltado para as excentricidades do meio amazônico.[146] Embora sem a grandiloqüência destes, Ferreira de Castro expressa os mesmos espasmos diante da natureza assombrosa, de sua fantasmagoria de luzes e sombras, seus silêncios inquietantes e seus ruídos assustadores, suas árvores portentosas e seu entrançado de cipós traiçoeiros, tudo concorrendo para a tese apresentada no romance de que o ambiente amazônico animaliza o ser humano: “[...] o homem, simples transeunte no flanco do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino aquele despotismo. O animal esfrangalhava-se no império vegetal e, para ter alguma voz na solidão reinante, forçoso se lhe tornava vestir pele de fera [...]”.[147]
            A selva distingue-se das obras da primeira fase como distinguir-se-á também de obras da fase posterior por apresentar um plano narrativo que não se detém no decalque de um aspecto do ciclo, abordando-o superficialmente. O patrão seringalista articula-se num grupo econômico, possibilitando a compreensão do significado de seu papel nesse grupo. Apresenta-se para além do estereótipo de um homem mau; é a representação de um homem enriquecido pela super exploração do trabalho de outros; é o patrão que defende a sua riqueza acumulada e não pode prescindir de sua fonte geradora, tal qual depreende-se deste trecho do romance em que encolerizado com a fuga dos seringueiros, Juca Tristão toma conhecimento das suas “dívidas” acumuladas:
 
Inclinado sobre o ‘contas-correntes’, Alberto elucidou:
- O Manduca devia um conto e setecentos e vinte e três... O Firmino um conto e duzentos... Quem eram os outros?
- O Romualdo e o Aniceto – comunicou Balbino.
Alberto folheou de novo:
- O Romualdo, dois contos e seiscentos e quarenta...
Juca voltou a exaltar-se:
- Dois contos e seiscentos! Cachorro! Cachorro! E eu a ter pena dele! Sou tolo mesmo! Vinha chorar para o pé de mim e, só em pílulas para a febre, lhe vendi uma fortuna! Que morresse, que fosse para o inferno! Mas eu fui tolo e ele agora me paga assim!
Ao pequeno silêncio sucedeu a voz de Alberto:
- O Aniceto devia oitocentos e noventa...
- Oitocentos e noventa... – Um conto! Com dois e seiscentos do outro, quase quatro. Quanto devia o Manduca?
- Um conto e setecentos...
- Cinco contos e tal! E o Firmino?
- Um conto e duzentos...
- Seis contos! Quase sete contos por água a baixo! Eu aqui a sacrificar-me longe da minha mulher e do meu filho, para que esses cachorros me roubem assim! Porque é um roubo! É um roubo! E eu que podia estar mesmo descansado na minha fazenda do Marajó! Se os apanho!...[148]
 
            Apontado por Djalma Batista como romance social, A selva atinge essa perspectiva ao apresentar as contradições do mundo do seringal. A passagem do romance em que os seringueiros fugitivos são capturados por outros seringueiros demonstra uma dessas contradições, que é refletida pelo protagonista nos seguintes termos: “[...] ‘Como podia ser, como podia ser que as vítimas saboreassem também o papel de algoz? De que sórdida matéria era formada a alma de alguns homens, que gozavam em castigar a desgraça alheia, mesmo quando era igual à deles?’ ”[149]
            Por outro lado, a contradição também constitui o plano ideológico do romance que propaga a tese do meio como responsável pelos desajustes humanos. De acordo com Lucas, o romance de tese costuma aplicar o método dedutivo para exame dos problemas sociais, significando que o conceito antecede a realidade.[150] Analisando o determinismo do meio esboçado em A selva, é essa precisamente a noção – ante um meio estabelecido como bárbaro, todos os indivíduos se barbarizam.
            O ficcionista e ensaísta Jorge Tufic, ao fazer um levantamento da produção ficcional sobre o “ciclo da borracha”, declara que A selva e La voragine, obra do romancista José Eustásio Rivera, encerrariam essa produção e destaca que as obras do ciclo não atingiram “um vago contorno geral da realidade em causa”.[151] Há, na avaliação do autor primeiramente, uma falha ao não considerar um veio de produção que continuou aberto para a temática do ciclo e, em segundo lugar, um juízo precoce sobre o grau de aprofundamento das obras.
            Ao destacarmos A selva como um romance que, seguindo a linha da abordagem histórica do ciclo, propicia uma compreensão abrangente do tema, não desconsideramos que em outros romances, como, por exemplo, Coronel de barranco, ocorra também uma construção ficcional contundente. O tratamento dado à obra em relação ao ciclo recebe o mesmo detalhamento didático de A selva. A selva e  Coronel de barranco são, por isso, dois romances em que a realidade em causa – “o ciclo da borracha” – é tratada com aprofundamento. Entretanto, a obra de Ferreira de Castro apresenta um diferencial em relação à de Araújo Lima que nos levou a elegê-la como recorte para esse estudo. Seu protagonista é partícipe e analista no mundo do seringal, enquanto Matias, de Coronel de barranco, é basicamente analista. O fato de ser Alberto um protagonista que vive as próprias situações que analisa confere densidade à narrativa através do embate que se cria entre sua consciência e o sistema com o qual se depara.
            Tufic também observa que o romance La voragine diverge de A selva por possuir um caráter de libelo ou revolta enquanto o último somente relataria os dramas vividos no seringal. Embora não possa se assemelhar a um libelo, a abordagem do romance A selva denuncia a extorsão e a escravidão num seringal amazônico e seu desfecho propõe uma destruição desse sistema injusto, determinando também um sentido de revolta. Revolta que não é arquitetada nem praticada por seringueiros indignados. O fato de essa revolta ser praticada por uma personagem negra demonstra que a visão de mundo do autor, expressa pelas suas palavras de que em seu espírito sobrepõe-se “[...]‘uma causa mais forte, uma razão maior: a da humanidade’ ”[152], não tem como objetivo pôr em evidência apenas uma forma de injustiça. O negro Tiago, despojo de outro processo de espoliação é, por isso, o escolhido para pôr fim ao local que representa a injustiça (o barracão) e o elemento humano que a executa (o seringalista). Suas palavras de justificativa do ato que pratica surtem o efeito de uma sentença: “O homem é livre.”[153] A destruição não é eficiente, uma vez que o seringalista é apenas um elo, e inclusive o não mais poderoso, da grande cadeia de espoliação montada em vista da extração do látex, mas é a destruição que o romancista elege como possível no contexto em que se desenvolve o romance.
            Apesar de possuir características em consonância com o romance neo-realista português o qual recebe influência da ficção sócio-realista brasileira dos anos 30[154], A selva apresenta os pontos básicos do que Alfredo Bosi considera um romance de tensão crítica em oposição a um romance de tensão mínima, mais em acorde com a prosa neo-realista. Segundo o autor, o romance de tensão crítica alcança “uma verdade histórica muito mais profunda”, não se restringindo apenas a enfocar a cor local ou datar os fatos.[155]
            É, pois, A selva um romance que não se limita à perspectiva de enfocar fatos isolados característicos do ciclo e que procura concentrá-los e organizá-los sistematizando-os. Abrangendo tanto o centro quanto a margem, a narrativa demonstra o nexo causal entre eles. Não aleatoriamente, Alberto vive antes a experiência do centro e depois a da margem. Quando vem a se instalar na margem, já não é mais possível considerá-la sem a outra experiência. A manipulação do contas-correntes do seringal o põe a par de uma verdade que suspeitara ao receber a nota de seu aviamento e compará-la com a dos outros seringueiros no tempo em que ainda era um brabo como eles. As faturas lançadas evidenciam que os débitos dos seringueiros e o conseqüente crédito para Juca Tristão resultam de uma cobrança extorsiva do preço da mercadoria aviada e de um pagamento ínfimo pela produção da borracha, depois vendida a um alto preço. Paralelamente, toma conhecimento de que o trabalho não pago dos seringueiros proporciona as altas despesas do seringalista:
 
Estavam ali as faturas, vendendo a Juca Tristão por cinco o que ele entregava ao seringueiro por quinze e muitas vezes até por vinte. Estavam as notas da borracha, que se comprava ali por dois e se vendia por cinco e seis na praça de Manaus.
Alberto sentia uma curiosidade dolorosa ao ler toda essa papelada, confrontando algarismos e inventariando o tempo que cada um trabalhava a mais em proveito do amo. Depois, chamado pelas disparidades das situações, quedava-se absorto sobre as cifras da mesada que Juca enviava à mulher – três contos de réis que significavam o preço dos muitos anos que um seringueiro necessitava para o seu resgate. Alberto juntava aquilo às viagens do patrão a Belém, sempre marcadas por grandes quantias recebidas da ‘casa aviadora’, as maiores que se viam em todos os lançamentos verificados – e ficava mais pensativo ainda. Doíam-lhe essas descobertas, esses números e contrastes. Poder absoluto, por herança ou outro conceito estabelecido, em prol dum só todos os demais se sacrificavam. Confirmava-se, assim, tudo quanto se dizia sobre a vida dos seringais, desde o Pará à Bolívia e do Ceará distante às fronteiras do Peru, onde a sorte dos párias não seria melhor.[156]
 
            Além do sistema de aviamento, base de sustentação econômica do ciclo, o romance expõe as conseqüências que a saga da extração traz para a população humana, transformando o encontro do migrante nordestino e do nativo amazônico num desfecho traumático através do assassinato do caboclo Lourenço pelo seringueiro Agostinho. O motivo causador do assassinato não é a riqueza da terra, mas o segundo motivo de cobiça no seringal, a mulher. Agostinho pratica a vingança sangrenta contra Lourenço porque este não lhe concede em casamento a filha ainda criança. No romance, Lourenço é o símbolo do homem nativo. Indiferente à sede de enriquecimento, sua existência se orienta apenas pela posse de “uma barraca, uma mulher e uma canoa.” Os homens nordestinos que vêm desbravar a selva, atraídos pela promessa de enriquecer, despertam-lhe piedade, pois ele os vê sucumbirem vencidos pelo meio que lhes é adverso. A vida na selva só é fácil para ele que “letargicamente” aceita viver sem ambições. O processo de exploração da riqueza natural, trazendo com ele o ádvena e conseqüentemente a cobiça, as necessidades incontidas, aniquila o ritmo de vida dos habitantes cordatos e hospitaleiros como Lourenço.
A repercussão mundial que alcançou o romance A selva, tendo sido traduzido na Alemanha, Bélgica, Bulgária, Tchecoslováquia, França, Holanda, Inglaterra, Espanha, Iugoslávia, Itália, Noruega, Romênia, Suécia, Suíça, Canadá, Estados Unidos, ampliou conseqüentemente o seu leque de estudos.
Uma parte da crítica estrangeira enfatiza a grande capacidade da obra de evocar o exotismo da natureza amazônica. Em prefácio escrito em 1932 para a tradução alemã , o tradutor Richard Bermann refere-se à selva como o inferno verde e à capacidade de Ferreira de Castro de descrever a sua “trágica beleza”[157]
Para o crítico italiano Alberto Viviani, a novidade na obra de Ferreira de Castro acha-se no ambiente ou, mais precisamente, no poder que a obra demonstra estar concentrado na natureza, soberana em relação ao ser humano. Põe, por isso, a natureza no papel de protagonista do romance: “[...] tudo o mais não passa de complemento necessário [...] tudo está subordinado à vastidão primitiva da selva que hostiliza e aniquila”.[158]
A crítica estrangeira, que não nos cabe detalhar nesse trabalho, é por nós enfocada à medida em que sua percepção do meio amazônico ressaltada pela leitura do romance se articula com a percepção da crítica brasileira.
A Amazônia, definida por Euclides da Cunha como a “última página ainda a escrever-se do Gênesis”[159] é um referencial geográfico e literário difundido amplamente no Brasil. Exótica para os próprios brasileiros, é caracterizada da seguinte maneira por Peregrino Júnior:
 
O homem que penetra a Amazônia – o mistério, o terror, ou se se quiser, o deslumbramento da Amazônia – escuta desde logo uma voz melancólica: a voz da terra. Abandonado na vastidão potâmica das águas fundas, dos igarapés e igapós paludiais, das ásperas florestas compactas, perdido naquele estranho mundo de assombração, acossado pelo desconforto do calor sem pausa e pela agressão da mata insidiosa, com seus bichos, suas febres, suas sombras, seus duendes, êle logo de entrada recebe um golpe terrível, e desde então trava a luta mais trágica da vida, que é a da adaptação ao meio cósmico. As fôrças que o esmagam – fôrças telúricas de aparência indomável – são um convite permanente à retirada e ao regresso. Paraíso dos aventureiros, dos charlatães, dos mercadores e dos flibusteiros, a Amazônia em geral não retém ninguém, expulsa os seus desbravadores, que dela, no entanto, se recordam sempre com temor e nostalgia ao mesmo tempo. Daí o destino nômade dos seus habitantes, que dificilmente ali se fixam e permanecem. O homem é, na selva, o intruso descrito por Euclides, sempre insatisfeito e instável, esperando a hora de enriquecer para voltar, para fugir, para se libertar em suma... Afinal de contas só o caboclo – fatalista, taciturno e triste, - na inércia do seu conformismo congênito, ali fica, e não quer sair. O homem daquele mundo é assim um ‘ser destinado ao terror e à humilhação diante da natureza’. Todos, de resto, nativos e adventícios, vivem lá num estado permanente de perplexidade, que explica a atitude literária de quantos viram de perto a Amazônia [...].[160]
 
            Peregrino Júnior veicula essa concepção em 1955, demonstrando ainda o mesmo referencial exposto por Euclides da Cunha, em 1908, no prefácio de Inferno verde ou em 1909, em À margem da história. De forma significativa, na expressão crítica brasileira, o tema do ambiente aparece como subsidiário ao tema do ciclo na análise de A selva. Um dos textos que mais se destaca como estudo do romance foi escrito por Humberto de Campos sob o título “Um romance amazônico”. Neste texto, Campos toma a defesa do romancista português em virtude da acusação que lhe foi feita por setores da crítica brasileira de ter o escritor enunciado inverdades sobre a realidade amazônica.
            Campos ressalta que o verdadeiro conhecimento sobre a Amazônia foi revelado a partir da escrita de Ferreira de Castro, respaldada pela experiência, esta, segundo ele, imprescindível para conhecer a fundo o seringal. A verdadeira dimensão do assunto teria sido ignorada ou não compreendida pelos outros autores que tentaram expressá-lo porque o perceberam externamente, apenas como visitantes. Neste assunto, Campos faz do homem o foco central: “[...]o que interessa, na Amazônia, à literatura, é o homem, e, particularmente, o seringueiro e a sua tragédia”.[161]
            Conquanto ponha na linha de frente da expressão amazônica a aventura do homem como desbravador, a natureza não deixa de figurar com um poder grandioso, a ponto de a luta que o homem contra ela travou se assemelhar para o autor como o “combate de Siegfredo contra o dragão”. A seu ver, essa heróica luta em que a natureza saíra vencedora, fazendo milhares de vítimas não tinha encontrado a justa expressão antes de A selva. Campos também se deixou fascinar pela espécie de “retórica do assombro”, expressa tanto pelos críticos quanto pelos ficcionistas. Uma passagem de um conto de sua autoria, intitulado “O furto: um conto amazônico” , exemplifica-o:
 
Na quietude daquela hora de assombros, afugentando ou convocando os demônios da terra, coaxavam os sapos, martelando, monótonos na bigorna do silêncio nas moitas húmidas de onde partiam, confundindo-se, tantas vozes anônimas, os pirilampos eram como a centelha dessa oficina monstruosa, onde os batráquios batiam, talvez, a couraça de ouro do sol.[162]
 
            O enfoque no exotismo já não se faz presente na análise empreendida por Márcio Souza em seu ensaio A expressão amazonense. Numa severa avaliação da produção literária amazonense, o autor aponta a sua inconsistência por não criar uma representação autêntica da realidade amazônica, isolando-se na ostentação e proporcionando apenas desfrute para alguns pares de literatos que não almejavam atingir um público abrangente e sim uma pequena elite interessada na literatura como um ornamento. Para Souza, durante o “ciclo da borracha”, essa tendência atingiu o ápice:
 
Não há nenhum escritor do “ciclo da borracha”, com exceção de Ferreira de Castro, marcado com a tarefa de escrever como um escritor. Eram todos bacharéis que escreviam e a literatura algo de não desmesuradamente perigoso. O bacharel que escrevia tinha um público especializado, da mesma forma que as diversas qualidades da borracha possuíam seus compradores determinados. Raramente publicavam  um livro, eles tinham os jornais. O livro já pressupunha uma universalidade, um alcance que não interessava. O jornal satisfazia pela postulação do indefinido, do punhado de leitores fiéis e selecionados que iriam escolher os poemas entre o noticiário e o reclamo.[163]
 
            Souza aponta em A selva o desmascaramento da ostentação. A face que a prosperidade do ciclo oculta por intermédio da cidade com sua parte economicamente prestigiada da população é revelada pelo discurso literário de Ferreira de Castro: “[...] Mostrando o reverso da ostentação, ele sentiu a vertigem dessa natureza submetida e a sorte dos miseráveis errantes. A selva possui o discurso exato, diariamente sofrido, onde a realidade não era uma aparência incômoda, obrigando a literatura a se tornar uma boêmia perdida.”[164]
            Ferreira de Castro realizou a expressão lúcida do “ciclo da borracha”, distinguida por Souza, como um autor à margem do processo de produção literária amazonense. A visão do ciclo que logrou romper o marasmo de uma literatura provinciana, sendo o romance, nas palavras de Souza, o primeiro a marcar encontro público com os leitores do mundo, possui o acento do escritor estrangeiro que mantém uma concepção de mundo eurocêntrica. Em algumas passagens do romance, isto pode ser observado através de uma negatividade na descrição da natureza amazônica em relação a uma positividade da natureza européia:
 
[...] A árvore solitária que borda melancolicamente campos e regatos na Europa, perdia ali a sua graça e romântica sugestão e, surgindo em  brenha inquietante, impunha-se como inimigo. Dir-se-ia que a selva tinha, como os monstros fabulosos, mil olhos ameaçadores, que espiavam de todos os lados. Nada a assemelhava às últimas florestas do velho mundo, onde o espírito busca enlevo e o corpo frescura [...].[165]
 
            Ferreira de Castro retoma o discurso de viajantes, cronistas e cientistas sobre a Amazônia à medida que os motivos que compõem a trajetória do protagonista Alberto no seringal são os da confrontação com o meio bárbaro. O enredo do romance termina com a destruição da fonte de injustiça mas também com a possibilidade de Alberto deixar o meio que poderia levá-lo à condição de fera.
            Toda a constituição do enredo se volta para a aprendizagem subordinada à libertação do meio. Alberto perde a soberba ao passar pela experiência do seringal, constatar o sistema de espoliação do trabalho humano ali implantado, mas o mesmo meio que o faz descobrir a solidariedade para com os homens humildes que consomem a vida num trabalho de que não tiram proveito se torna o algoz de todos esses homens e dele próprio. Dando este contorno à obra, o ficcionista segue uma tendência do romance naturalista, destacada por Brayner:
 
Reduzindo todos os homens a uma mesma fórmula – criaturas dominadas pelo meio, raça e momento – o romancista naturalista parte sempre do princípio mestre que todos os homens são fundamentalmente iguais. Não importa a classe social a que pertençam e nem mesmo o grau de cultura a que se liguem; submetidos ao ambiente e às paixões instintivas, agem todos de forma idêntica [...].[166]
 
            A selva significa essa redução da personagem protagonista que chega ao meio desconhecido como um ser distinto perante os outros. É estudante de direito enquanto os demais recrutados não possuem instrução; leva para a barraca livros entre seus pertences ao passo que os demais muitas vezes além das roupas do corpo levam apenas as ferramentas básicas aviadas pelo seringalista; é moço fino, não adaptado para o trabalho grosseiro de penetração na mata e corte das seringueiras e os outros, seres rudes dos quais se espera adaptação ao meio. Entretanto, o meio irá igualar o protagonista no decorrer da narrativa aos outros. O cerne desse momento se estampa na passagem do romance em que o protagonista, ao se olhar no espelho, não vê sua fisionomia atual, mas o mesmo rosto embrutecido, animalizado dos homens com os quais labutou outrora nas estradas de corte. A única chance que se apresenta à não capitulação ao meio é deixá-lo, fugir de sua barbaria em busca da civilização. Essa é a ambigüidade da realização social do romance: documentar as relações econômicas que promovem o ciclo e, ao mesmo tempo, apresentar uma justificativa determinista, fatalista, para essas relações.
 
Beiradão: a percepção de um escritor nativo sobre o ciclo
 
            A prerrogativa de escrever sobre o “ciclo da borracha” tendo sido testemunha ou partícipe do processo dá-se com alguns escritores. Entre eles, incluem-se Ferreira de Castro, Humberto de Campos, Alberto Rangel, Carlos de Vasconcelos e Álvaro Maia. As experiências de Ferreira de Castro e Humberto de Campos os situam no barracão, executando as tarefas do dia-a-dia que ali se faziam necessárias. O primeiro fazia pequenos serviços não tendo, segundo Jaime Brasil, trabalhado na estrada de corte por ser ainda muito jovem. O segundo foi gerente de seringal. Quanto a Alberto Rangel e Carlos de Vasconcelos, executaram como engenheiros serviços de demarcação de terras, o que lhes possibilitou também um contato com os seringais.
            A particularidade que cabe a Álvaro Maia é ter conhecido o mundo do seringal não como alguém que vem de fora, mas que nasceu nele. O cenário de seu nascimento é o sítio- seringal Goiabal, localizado à margem esquerda do rio Madeira, no município de Humaitá. Seu pai foi um imigrante da região cearense do Crato, descendente de família próspera que, como outros, veio para a Amazônia, seduzido pela possibilidade de ganhar dinheiro com a borracha, e a mãe, uma amazonense, herdeira de proprietário de seringais no rio Madeira, que estudou em internato religioso. Em sua obra Beiradão, esses traços da família são reproduzidos através das personagens Fábio e sua esposa. Maia fez os primeiros estudos com a mãe, que o alfabetizou, e depois, seguindo um roteiro comum à condição de filho de seringalista, completou os estudos fora do Amazonas. Primeiramente, em Fortaleza e depois no Rio de Janeiro onde se bacharelou em Direito na Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais.
            Conforme ressalta Santos[167] Álvaro Maia veio a tornar-se uma liderança política estadual, quando regressou dos estudos, por fazer parte ou ser oriundo de um grupo dominante local que lhe possibilitou primeiramente ocupar cargos públicos como redator da Assembléia Legislativa, auditor da Força Policial do Estado do Amazonas, Secretário da Superintendência do Território Federal do Guaporé, Secretário da Comissão de Propaganda e Organização do Centenário da Independência, Secretário da Municipalidade de Manaus, Diretor da Imprensa Pública.
            Contando com apoio de setores tradicionais da economia local, ligados ao comércio e ao extrativismo, Álvaro Maia é nomeado por Getúlio Vargas interventor federal do Amazonas em 1930, sob a indicação de Juarez Távora, delegado federal do Norte. Essa interventoria foi exercida apenas até 1931, quando Maia foi exonerado por Vargas em virtude de ter dissolvido o Tribunal de Justiça do Amazonas, causando descontentamento entre a classe dos juízes, que recorreram a Vargas. Maia retorna ao poder em 1934, elegendo-se indiretamente governador constitucional do Estado do Amazonas. Graças à formação de um secretariado constituído por parentes e cooptados políticos, mantém-se no cargo. Em virtude do golpe político do Estado Novo, em 1937, torna-se interventor federal e governa até a queda de Vargas, em 1945. Em 1946, é eleito senador constituinte. Por intermédio de eleições diretas, volta ao governo do Amazonas em 1951 e, em 1954, é derrotado em nova campanha política. Só consegue retornar ao cenário político em 1966, elegendo-se senador pela Aliança Renovadora Nacional (ARENA).
            O elo com o seringal e a carreira política marcam  a obra do escritor Álvaro Maia, sendo que o ambiente do seringal dá-lhe o conteúdo e a política o delineamento ideológico. É o escritor amazonense que mais se voltou para os motivos ensejados pela vida no seringal e os motivos correlatos a ela. A maioria da produção abordando o seringal foi publicada a partir dos anos 1950, durante o retorno à literatura após as derrotas políticas.[168] Em 1956, é editado Gente dos seringais; em 1958, Beiradão e Buzina dos Paranás; em 1963, Banco de Canoa; em 1966, Defumadores e Porongas. Buzina dos Paranás destaca-se nessa série de narrativas por ser um livro de poemas, mas os motivos do seringal trabalhados nos outros livros não estão ausentes, uma vez que o autor dedica também poemas à seringueira e a assuntos abordados nas demais obras, como, por exemplo, a figura da parintitin Narcisa, mãe de leite índia, ou aos aviões “Catalinas” que transportavam passageiros e cargas e levavam auxílio médico aos seringueiros.
            Existe uma continuidade nos assuntos abordados em Beiradão e nas demais obras. Uma vez que sua publicação é anterior à maioria delas, entendemos que o autor pretendeu desdobrar o seu conteúdo através dos outros livros. Aproveitando um título que o escritor dá à quarta parte do livro Banco de canoa, podemos dizer que as narrativas contidas em Beiradão e nas outras obras  são “histórias que se repetem.”
            Contendo crônicas sobre acontecimentos e pessoas ligadas ao desbravamento de regiões às margens dos rios amazônicos[169] e histórias prosaicas sobre situações da vida interiorana e dos seringais, as figuras que aparecem nas narrativas são quase sempre as mesmas: pobres, figurões poderosos, religiosos. A vida no interior é registrada através de manobras políticas, apadrinhamento, vinganças passionais, disputa e abuso de poder. O autor também procura captar aspectos culturais como crenças, seres lendários. Há nas histórias abordando as relações políticas interioranas a preponderância da noção de que a não aderência a um grupo político pode resultar em perseguições e enxovalhamentos. Já as histórias envolvendo religiosos geralmente abordam sua castidade, honestidade ou desonestidade.
            A identificação entre Beiradão e as demais obras dá-se também por intermédio de personagens comuns. Fabrício, velho Unias são os contadores de histórias; velha Romana, Zé dos Espíritos, os curandeiros; Narcisa, a ama de leite índia. Personagens como Fábio, Segadais e padre Silveira constituem uma síntese de personagens de outras obras à medida que representam respectivamente o bom pioneiro, o arrivista e o missionário.
            Álvaro Maia atribui uma autoria coletiva às narrativas contidas em obras como Gente dos seringais, Beiradão, Banco de canoa e Defumadores e porongas. Em Gente dos seringais, informa que reduziu narrativas ouvidas de seringueiros e hinterlandinos a textos escritos que pudessem ser compreendidos pelos próprios narradores. Para tanto, amoldou-as à “[...] tessitura ductil dos narradores, fugindo, quando possível, ao ‘latim do padre e do advogado’[...].”[170] Entretanto, declara ter modificado o “colorido das tragédias passionais” que pudessem se apresentar como obscenas. Eximindo-se da autoria, considera-se um “mero compilador”. Nas demais obras, repetem-se as mesmas justificativas no sentido de atribuir as narrativas à imaginação popular. A veracidade das obras é outro ponto sempre destacado.
            A intenção do autor de atribuir a autoria das narrativas a uma coletividade explicita uma preocupação de não se colocar como criador de acontecimentos que, segundo sua percepção, devem-se ao barbarismo do início do processo de desbravamento:
 
Certas narrações prendem-se aos tormentos sexuais nas selvas, quando povoadas exclusivamente por homens, sem refrigeração de mulheres. Surgiram tremendas crises, - raptos e crimes sangrentos, assunto exaurido pelos estudiosos. Evoquei alguns instantes de intenso realismo, revivescendo, em tintas escassas, e sem colorido descritivo, os dramas e os imprevistos patológicos, raros após a incipiente formação geo-social dêstes últimos tempos, na hiléia fragmentada pelas ânsias de estruturação.[171]
 
            O autor, dessa forma, demonstra uma consciência do impacto do conteúdo da obra e, por isso, torna-se um mediador entre sua produção e o público. Conforme observa Sartre, a mediação reflexiva do autor remonta ao fim da Idade Média e se acentua no romance burguês do século XIX. Anteriormente, o autor limitava-se ao ato de narrar e não procedia uma reflexão sobre a sua função de autor, “[...] os temas de seus relatos eram quase todos de origem folclórica, ou ao menos coletiva, e ele se limitava a utilizá-los [...].[172] Ainda que Maia ponha-se como um mero compilador da imaginação popular, é possível identificar em suas narrativas uma ponderação de autor instruído sobre o conteúdo de cunho não culto que afirma compilar. A inserção de suas convicções políticas em muitas dessas narrativas atesta que procedeu um trabalho de elaboração consciente.
            Sartre aponta o momento em que o conteúdo da narrativa, suas palavras, era tido como as próprias coisas que designava como de um “realismo objetivo e metafísico” e o distingue do “idealismo literário” em que a substância do relato é a subjetividade do autor. Neste último, “[...] a história que se oferece ao público tem como característica principal o fato de já estar pensada, isto é, classificada, ordenada, podada, esclarecida [...].[173]
            Beiradão realiza-se intermediariamente entre a feição do romance burguês e a narrativa. A distinção entre essas categorias é posta por Walter Benjamin ao apontar a procedência da narrativa da tradição oral ou da experiência relatada por terceiros e a limitação do romance ao indivíduo isolado.[174]
            Destacamos que Álvaro Maia atribui a origem das narrativas aos seringueiros e moradores das margens dos rios, colocando-se como o compilador que reduziu a textos escritos esse repertório de histórias transmitidas oralmente. Beiradão apresenta uma quantidade expressiva de pequenas histórias cujos assuntos muitas vezes não se limitam aos tópicos correntes sobre o seringal. Nelas, o fabulário nordestino soma-se ao caboclo. Os assuntos inerentes ao dia-a-dia do seringal se tornam menos exclusivos, o que não impede que o romance realize uma visão sobre o “ciclo da borracha”.
            A unidade que dá ao mosaico de narrativas uma constituição de romance é estabelecida pelo protagonista Fábio e sua trajetória de retirante a seringalista. Ao mesmo tempo que possui uma história independente, Fábio também é o elo de condução das narrativas paralelas, exercendo o papel de um ouvinte.
            Beiradão é organizado em três partes: Bamburral, Serras e Centros e Beiradão. Segundo o autor, em nota preambular, o beiradão caracteriza “[...] a margem dos rios principais, onde se fixaram os primeiros desbravadores e permaneceram os seus descendentes”.[175] O bamburral é descrito no decorrer do romance através de uma analogia: “A sociedade em formação imitava aqueles bamburrais. Na aparência, era serena, como uma orquestração de sanhaços, mas, por outro lado, oscilavam em ousadias e ambições.[176] Essa divisão espacial do romance remete a uma divisão temporal do ciclo, tendo em vista que a primeira parte trata do início do desbravamento através da chegada de pioneiros, entre eles, as personagens de Fábio, Segadais e Padre Silveira. Serras e Centros representa o período intermediário, abordando o auge e o princípio do declínio do ciclo. Enquanto, na primeira parte, o protagonista Fábio deixa o Amazonas após ter acumulado algum dinheiro, trabalhando como recenseador para um coronel seringalista e volta ao Ceará, esse momento do romance marca o seu retorno e estabelecimento definitivo no Amazonas, tornando-se pequeno proprietário de seringal. O romance demonstra que, por ser pequeno proprietário e investir em meios alternativos como a agricultura e a pequena criação, Fábio resiste e não se arruína totalmente com a crise.
 A terceira parte do livro apresenta o mundo do seringal pós-crise. O bamburral e o beiradão especificam ainda a índole dos desbravadores. Aqueles que se alocaram nos bamburrais exploraram a terra sem com ela criar vínculos, já aqueles que se instalaram nos beiradões tornaram-se os elementos que se fixaram na terra e nela permaneceram mesmo quando se desencadeou a crise.
            Apesar de a fundamentação do romance estar calcada na figura de Fábio e de sua atuação dentro do que representa o ciclo, o enredo se inicia com a personagem Segadais. Estudante de direito, mais interessado em ganhar dinheiro do que em seguir o rumo traçado pelo professor de “levar justiça às massas desamparadas”, Segadais se ajusta aos procedimentos ditados pelos poderosos coronéis de barranco, consciente de que dessa atitude depende o êxito de sua carreira:
 
Nas sedes municipais, o profissional tinha de reagir à politicagem, filiando-se, sem entusiasmo, às hostes do governo, representadas pelo coronel barranqueiro, cuja autoridade pairava acima do superintendente.
Segadais resistiu, mas teve, ante a inutilidade dos esforços, de babujar no cocho, onde babujavam o médico, o dentista e o vigário [...]
Diabo! Não viera tomar banhos salgados nos altos rios do inferno e sim arranjar dinheiro, supremo sonho do bacharel pobre no pouco movimentado foro local.[177]
 
            Segadais é o emblema de profissionais (engenheiros, advogados, médicos) que, recém-formados, vêm tentar carreira fora dos grandes centros e findam por ter de se submeter ao jugo do poder local, mas, como seringueiros, comerciantes, almejam acumular riqueza. Não tendo o destino atado à escravidão do seringal, valem-se do oportunismo, casando-se com a filha de algum potentado ou partem, como Segadais, para outras alternativas, “[...] enganando bolivianos, transpondo cachoeiras nas jangadas, imaginando diversões para os seringueiros, centralizando-os em torno às ladainhas.”[178] Fica, assim, caracterizada essa personagem como o arrivista. Move-o o desejo de ganhar dinheiro e não o espírito de estabilidade. Mas, conforme é demonstrado nas obras de Álvaro Maia através de outras personagens, Segadais também é afetado pelo “banzo da floresta”. No romance, essa situação é descrita como um estado em que aqueles que retornavam as suas terras
 
[...] enfermavam da alma. Ouviam o murmúrio das selvas brutas, o bater do vento nas praias onduladas, em cujos baixios os peixes se empilhavam aos cardumes, as chuvas sem-fim [...] A mesma nostalgia do marujo que não se acostuma à terra firme, e do catequista, que retorna às malocas ameaçado de ser morto pelos índios.[179]
 
            Paralelamente ao perfil aventureiro de Segadais, está a persongagem Padre Silveira, representando a presença religiosa no processo de desbravamento desencadeado pela extração da borracha. Gondim destaca que as figuras do aventureiro, do missionário e do abnegado são comuns ao processo de conquista da Amazônia.[180] Padre Silveira, por seu turno, acumula o papel duplo do missionário e do aventureiro no sentido de que motiva-o o mesmo senso de oportunismo de Segadais, levando-o a aproveitar-se do sacerdócio para amealhar recursos em proveito próprio. A principal causa que se apresenta no romance para os desvios do padre, que flerta com as mulheres casadas e aproveita-se da boa fé dos seringueiros e da população interiorana, são os efeitos do meio, os quais o levam a agir de maneira diferenciada:
 
[...] Fábio sustentava que a honestidade, até nos sacerdotes, depende do ambiente. Fácil a comparação: Padre Silveira, como vigário na serra, espalhando confissões em seu cavalo choutador, bebendo copos de leite mugido, e Padre Silveira nos seringais, comendo tambaquis com pimenta, sentado em rede macia de Zefa Mixira, enquanto o pescador estava no lago e os curumins na roça. Não há dúvidas: a honestidade depende também do ambiente.[181]
 
            Nos trabalhos de desobriga pelo Amazonas, instalando o altar portátil onde for conveniente para batizar pagãos, dizer missa, sacramentar uniões, Padre Silveira demonstra seriedade, usando a batina e a coroa. Findas as obrigações do sacerdócio, trata de comercializar clandestinamente com os regatões a borracha e os demais produtos recebidos em doação pelos fiéis. O lucro sobrepõe-se aos escrúpulos sacerdotais; quando estão em jogo os seus ganhos, os pecados dos fiéis diminuem de importância. A sua noção de pecado distingue os de menor e maior gravidade, esses últimos os verdadeiros. Entre os pecados verdadeiros, está o adultério que ele próprio ajuda as mulheres a praticarem. Não teme, porém, confessá-lo ao Monsenhor, confiante na justificativa de que o ambiente é o responsável pelos excessos.
            Tanto Padre Silveira quanto Segadais opõem-se à personagem Fábio Moura. Essas três personagens recebem um tratamento individualizado no romance, que é entrecortado por episódios em que surgem dezenas de personagens em casos diretamente relacionados ao seringal ou à vida interiorana. A história principal do romance é protagonizada por Fábio e refere-se desde a sua migração até o período pós-crise que enfrenta como seringalista.
            No que diz respeito à história principal vivida pela personagem Fábio, o enredo do romance não segue uma ordenação rigorosamente linear. O início da narrativa apresenta Fábio inserido no trabalho de recenseamento e fiscalização dos seringais do coronel Francisco Moreira, viajando a bordo de batelões ao longo dos rios. A partir da seção “D” desta primeira parte, a narrativa presente é interrompida e conta-se a história pregressa de Fábio. No Crato, sua carreira de seminarista determinada pelo pai é interrompida em virtude da rigorosa seca do fim do século XIX. Ele tem, então, dezoito anos. Após esses esclarecimentos sobre sua origem, aspectos culturais de seu ambiente familiar e sobre sua decisão de abandonar o Ceará, a narrativa torna ao curso presente. Mais adiante, ainda na segunda parte do romance, colhe-se uma sumarização do roteiro de vida seguido por Fábio depois de abandonar o seminário e partir de sua terra:
 
Fábio Moura coletava observações curiosas, que lhe feriam a vida acidentada de vinte e dois anos. Viera de longe, cortara os primórdios da educação seminária, palmeara caminhos sertanejos, com aglomerações amontoadas de retirantes, hospedarias de Fortaleza e Belém, cabeças-de-porco de Manaus, viagens em cargueiros do Lóide, nos gaiolas, motores, batelões, canoas e ubás. Campos, terra firme, alagações, águas cristalinas das chuvas, águas escuras do Machado e dos igarapés, águas dos igapós e charcos, águas do Madeira.[182]
 
            Ao fim da segunda parte do romance, Fábio viaja de retorno ao Ceará, tendo acumulado uma considerável experiência nos bamburrais através do trabalho de recenseamento. Conhecera a realidade muitas vezes grotesca dos centros onde famílias morriam à míngua atacadas pelas febres, permanecendo os corpos abandonados nas barracas para banquete das varejeiras, mucuras e urubus; acompanhara a saga de pioneiros no desbravamento das áreas inóspitas e admirava os que se tornavam proprietários às custas do próprio suor;  conhecera a selva além do registro nos livros e, ao contrário do que lera sobre o seu adormecimento, descobrira que ela jamais dormia; ouvira histórias escabrosas de crimes passionais e de vinganças e histórias sobre extorsão, fuga e revolta nos seringais; acompanhara as ingerências políticas abusivas dos coronéis no trato com os adversários e os eleitores.
            Em sua terra, apercebe-se de que mesmo tendo ali nascido, cursado o seminário e possuindo terras que lhe foram deixadas de herança para administrar, os bamburrais o haviam seduzido e o chamavam de volta. Teria de cumprir a missão de “[...] desbravar o Amazonas, incorporar os seringais ao movimento econômico do Vale [...].”[183] Imbuído dessa missão e também afetado pelo banzo da floresta, Fábio retorna para, desta vez, instalar-se definitivamente. Casa-se com a filha de um seringalista e com ela divide a abnegada dedicação à terra, fundando uma escola que recebe gratuitamente os alunos. Só não consegue manter-se isolado do jogo político local. O quadro em que o indivíduo se sente encurralado e é obrigado a aderir às hostes políticas locais é reiterativo nas narrativas de Álvaro Maia. Em Beiradão, ilustra-o a seguinte passagem:
 
[...] A politicagem era um retiário: os vencidos lhes caíam nas malhas, que se apertavam mais e mais, até a asfixia e o estrangulamento. Improvisavam-se imaginários crimes, perseguiam-nos em qualquer empresa que exercessem, demitidos de funções públicas, caluniados na vida pública e privada, e, ao fim, não escapavam de sovas e exílios disfarçados, impostos por implacáveis perseguições. Não podiam resistir à debandada nas cidades às vinditas tributárias e comerciais. Multiplicavam-se os impostos; executavam-se os atrasados, em prazos sumários; as embarcações, por precaução, não lhes tocavam nos portos. Nas vilas, se comerciantes, sofriam bloqueio oficial, e poucos lhes compravam as mercadorias.
- O chefe não quer!
Procuravam-nos à noite, passando ao longe sem pagar as dívidas. Se residiam num seringal, sofriam também feroz assédio. O camarada resistia algum tempo, mas não poderia ficar nesse crescente prejuízo e cedia. Transferia-se ao partido situacionista, assinando-lhe uma ficha, e tudo se modificava. Impostos reduzidos, taxações desclassificadas, recomendações ao coletor, silêncio ou elogios nos jornais. Perdia as fumaças de rebeldia, calava-se rendendo graças por não ser surrado ou expulso de sua propriedade.[184]
 
            Fábio mantém seu seringal, procurando não criar desafetos. Para tanto, equilibra-se entre a vida de pequeno proprietário rural e a execução de algumas funções públicas que as relações políticas lhe impõem e não lhe é conveniente recusar. O seu entendimento sobre a distorção da política, a politicagem, no entanto, está estabelecido: “[...] Servia-a para servir a amigos; suportava-a para não querer parecer melhor que os outros [...].”[185] Fechando os olhos para as hipocrisias políticas, vai tocando sua pequena propriedade. A missão de educar os filhos preocupa-o mais que a obtenção de lucros. Com a pouca produção de borracha, cobre as despesas essenciais, o que demonstra lhe bastar, apesar das críticas feitas por Segadais e Padre Silveira, apontando sua falta de ambição.
            A feição diferenciada de seringalista apresentada por Fábio é destacada ironicamente pelo narrador que o qualifica com jeito de pai de santo ao invés de comerciante. Seu procedimento de receber todos que lhe batem à porta, corrigindo contas, lendo e respondendo cartas e ouvindo histórias, dá-lhe ares de conselheiro.
            Precavendo-se contra tempos difíceis, Fábio constrói um pomar em que mistura espécies locais às do Pará e Nordeste e completa a sua defesa econômica com um pequeno rebanho. Nesta fase em que seu seringal prospera, surge uma epidemia de varíola nos seringais, levando-o a enfrentá-la com a família. Com a atenuante de já terem ele e a mulher apanhado a doença quando crianças, conseguem isolar os filhos e prestam auxílio aos enfermos. À epidemia, sucede uma outra calamidade: a economia da borracha entra em crise devido às plantações no Oriente. Contudo, Fábio e outros pequenos proprietários unem-se para enfrentar a crise, recorrendo às alternativas de sustentação econômica que haviam criado. Já “[...] os grandes seringalistas não se haviam preocupado com a lavoura e a pecuária: importavam sempre, porque a borracha dava para tudo [...].”[186] A lição tirada da crise é o endividamento e a ruína dos grandes proprietários, que sofrem também a pressão dos seringueiros, os quais ameaçam revoltar-se devido à suspensão de fornecimento de mercadorias. Inicia-se o êxodo de seringueiros principalmente nas regiões de seringais mais ricos, os dos rios do Alto: Machado, Jamari e Preto. Nos seringais mais pobres, dos beiradões, onde os seringueiros haviam feito roças, há uma tendência a permanecerem na terra apesar da crise. O aventureiro, como Segadais, novamente se prepara para partir, desta vez, tangido pela falta de perspectiva na terra onde buscava recursos de forma imediatista: “[...] ninguém tinha a loucura de morrer sem proteção, sem amparo, sem financiamento, num Vale que retornava às condições primitivas do descobrimento [...].[187] O romance acentua os posicionamentos opostos de Segadais e de Fábio no momento da crise, determinando o espírito arrivista de um e os princípios idealistas do outro:
 
Fábio amava as florestas e as águas. Alguém teria de ficar, porque aquele mundo verde não desapareceria, somente porque diminuía o preço de um produto. Outros produtos existiriam; outras explorações teriam de nascer; agitando indústrias e industriais. O futuro não seria para daqui a cem anos; era um futuro que se desenhava bem perto, tecido no presente. A crise parecia uma seca; voltaria o inverno nordestino, limpando o horizonte. Regressariam os fugitivos e encontrariam de pé, embora alquebrados, os vultos que não se arredaram dos portos bombardeados, como alavancas de resistência. O comerciante não é o homem do imediatismo, mas um idealista na ação que desenvolve. Nem todos se esforçam somente para ganhar dinheiro: abrem o caminho, como pioneiros, e milhares marcharão cantando [...].[188]
 
            Temperamentos opostos têm também os seringueiros dos rios do Alto e os dos beiradões na relação com os patrões durante a crise. O primeiro caso é ilustrado na situação da personagem Coronel Moreira, o rico potentado que perde o poder e o respeito que impunha aos seus trabalhadores. No segundo caso, está o seringalista representado pela personagem Fábio, que consegue manter uma relação cordial com seus trabalhadores. Enquanto Fábio precisa intervir como mediador junto aos seringueiros do coronel para que não tomem de assalto o seringal deste, atentando contra sua vida; com os seus seringueiros, pode conversar francamente, revelando-lhes a gravidade da situação “[...] porque ali tudo era de todos [...].”[189] Assim, os seus seringueiros, ao invés de exigirem pagamento e abandonarem o seringal, decidem permanecer ali mesmo, como o patrão, enfrentando os tempos difíceis. Quando a escassez de mercadorias se acentua, dificultando a obtenção de produtos básicos para a sobrevivência, o aparecimento do regatão se registra como uma tábua de salvação para os náufragos que decidiram permanecer. Desse modo, o narrador destaca: “[...] fugiram os aviadores, os seringalistas, mas, na hora difícil, o tão amaldiçoado regatão vinha salvá-los [...]”.[190] Na consideração do narrador, essa era a verdadeira fase dos regatões, pois poderiam negociar com os pequenos seringalistas sem serem perseguidos e sem sofrerem fiscalização. Para o narrador, portanto, os regatões, através de seu comércio ambulante, prestaram uma ajuda aos hinterlandinos, evitando a morte por doenças, uma vez que não lhes chegava qualquer assistência oficial.
            O enredo do romance prossegue arrolando as conseqüências da crise na capital e nas regiões dos seringais de que são significativas as seguintes passagens:
 
Na capital em torpor, sacudida pelo temporal, desapareceram os dias faustosos da queima de cédulas para acender cigarros: os comerciantes lutavam, desesperados de receber os saldos espalhados no interior, pela simples razão de que, sem mercadorias, esse interior não poderia lutar. As sedes municipais eram uma cópia empobrecida da capital.[191]
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[...] Seringais, campos, embarcações, casas-de-farinha, engenhocas respondiam pelas dívidas; agricultores perdiam as posses, onde lutaram anos e anos, tentativas de pequenas indústrias caseiras cediam aos impostos excessivos[...]
[...]
Choviam as execuções criminosas, sem uma providência aleatória e salvadora. Seringais tornavam a florestas, sem atividade lucrativa, pois não encontravam novos exploradores; barracões desabavam, barracas emaranhavam-se nas trepadeiras; a capoeira dominava. Surgia o imprevisível: seringalistas, outrora prósperos, pediam um emprego aos mais abastados, ou ocupavam um pedaço alagadiço da ilha para defender a vida – derrubar a mata, plantar roçados...[192]
 
            Durante esse período, Fábio permanece em seu sítio seringal, sobrevivendo às custas de sua cautela. À insistência de Padre Silveira de que deve abandonar o Amazonas e voltar ao Ceará para dar educação completa aos filhos, argumenta a lealdade para com os que também decidiram ficar, seguindo seu exemplo. Partir, deixando-os sós na dificuldade seria, para ele, traição. Diante de um convite que recebe para o filho estudar num seminário, Fábio titubeia ao refletir que o menino, acostumado a viver nas brenhas, não se amoldaria à missão eclesiástica, não possuiria a vocação necessária para ser um sacerdote virtuoso. Ademais, o próprio filho resiste a seguir esse caminho. O ambiente amazônico onde fora criado é tido como o principal fator negativo para a sua conversão. Entretanto, Fábio deseja que o filho tenha uma educação integral e por isso o menino segue com uma tia para a capital a fim de realizar os estudos que apenas iniciara com as lições primárias da mãe. Posteriormente, Fábio também se questiona sobre sua própria partida para a cidade e, consultando a esposa, obtém dela a mesma convicção que sempre tiveram de permanecer no beiradão até o fim de suas vidas.
            Quase ao fim do romance, o beiradão começa a dar sinais de recuperação da crise, atestando um incipiente restabelecimento. Não é mais a extração da riqueza encontrada abundantemente na natureza, especialmente o látex, que anuncia o soerguimento:
 
O beiradão povoava-se, povoaram-se as terras marginais às linhas telegráficas. Seringais em abandono começaram a ser procurados. Velhos seringueiros, fatigados de esforços andarilheiros, apelavam também para a agricultura; tabaquistas e farinheiros, desiludiam-se das estradas e se aboletavam nas terras férteis das ilhas vizinhas. Notava-se diferença entre o ilheiro, independente em suas roças e bananais, e o seringueiro, vergado ao encarceramento das matas.[193]
 
            Seguindo essa perspectiva de restabelecimento, o sítio de Fábio também atinge uma prosperidade, atestando que “[...] havia tranqüilidade na pobreza, a fartura na relatividade, a comprovação da vida no interior verde, afastando o tabu da vida unicamente apegada ao extrativismo [...]”.[194] As ações de Fábio na administração de sua propriedade comprovam ainda um planejamento racional, à medida que não somente busca outras alternativas econômicas, além da monocultura, mas também se previne de surpresas que possam ser causadas pelos acidentes naturais próprios da estrutura geológica da região, plantando cacauais em restingas altas, longe, portanto, das margens afetadas pelo fenômeno das terras caídas.
            Redenção é a palavra que resume o desfecho do romance, haja vista que a sociedade ressurgida após a crise está “galvanizada pelo sofrimento.” É também uma sociedade com a marca da hibridação, um Amazonas “cearensizado” cujo casal representativo é Fábio e sua esposa.
            Beiradão é um romance que abrange integralmente o ciclo econômico da borracha, da fase áurea à derrocada. Como as demais ficções do ciclo, aponta a ilusão dos seringueiros com o processo de extração do látex, que os leva muitas vezes a consumir a vida nas estradas de corte e depois dissipar o saldo que por ventura tirem com gastos fúteis na cidade, deixando escapar a possibilidade de retornarem a sua terra; o endividamento inevitável com as despesas de viagem, instrumentos de trabalho e alimentação, comprometendo a possibilidade de saldo no primeiro ano de produção; a dura realidade dos centros, onde encontram a morte pelas febres; a disputa pelo sexo feminino; o bloqueio tropical, expressão utilizada pelo narrador para caracterizar a impossibilidade de fuga dos seringais, seja pelas barreiras impostas pelo ambiente, seja pelo consórcio dos patrões que se irmanavam na perseguição e captura dos foragidos com o apoio das autoridades locais; e, conseqüente ao poder conjugado dos seringalistas, o desamparo e a submissão do seringueiro que “[...] sente medo de autoridade. Olha-a, como quem olha uma fera, abestalhado e sem arma [...].”[195] Com isto, no romance, confirma-se  “o mando indiscutível dos patrões”, especialmente aqueles que se estabeleceram nos rios Jamari, Machado e afluentes do rio Madeira. A luta dos exploradores contra os índios é, por fim, outro aspecto reiterado em Beiradão.
            Entretanto, ao mesmo tempo em que o romance aborda os aspectos convencionais em torno do ciclo, renova algumas das suas tradicionais abordagens literárias. Assim sendo, uma das principais inovações apresentadas é o rompimento do anátema que recai sobre o seringalista. A personagem Fábio sintetiza esse rompimento. Comparando-a com modelos de seringalistas rudes, sem visão e tacanhos, criados em outras obras, é possível perceber o quanto diferem. Divergindo mesmo do tipo de explorador que caracterizou o ciclo, Fábio não almeja tão somente obter lucro da terra, mas ocupá-la, implantando uma forma de economia duradoura, numa palavra, seu objetivo é criar raízes.
            A formação que irá possibilitar o perfil diferenciado à personagem Fábio é também oposta à das demais personagens de seringalistas. Antes de se tornar um imigrante banido pela seca, foi seminarista o que lhe possibilitou se instruir: “Fábio deixara o internato em tempos rigorosos de catecismo e latim. Lia os seus clássicos, abeberava-se em História e Filosofia [...].”[196]
            Mais do que um bom seringalista, a personagem Fábio encarna o pioneiro que se tornou proprietário, mantendo uma posição arrazoada sobre a exploração da terra, trabalhando não apenas para extrair benefícios num momento presente, mas fazendo uma previsão para os dias futuros, da qual proprietários apoiados na monocultura chegam a fazer pouco caso: “[...] Fábio esquematizou a sua resistência contra o temporal que se aproximava, - plantações de café, cacau, árvores frutíferas e roças, criação de gado, suínos e galinhas. Alguns, julgando-se mais atilados, gracejavam dessas atividades sertanejas – seria melhor enveredar pelo Machado, arrendar seringais e voltar rico [...].[197]
            Fábio também possui a faceta de abnegado, enfatizada por sua postura de estar preocupado em dar ganho aos outros ao invés de ganhar, de não saber cobrar nem valorizar os seus próprios esforços. O idealismo que manifesta, por sua vez, é efusivamente otimista como quando fala aos seus seringueiros, pedindo-lhes paciência nos momentos de crise: “- Devem ter calma e esperança. Daqui a 50 anos, tudo mudará. Preparam esse tempo para nossos filhos, que terão liberdade, assistência médica, escolas.”[198] Essa percepção da personagem harmoniza-se com o pensamento político de Álvaro Maia, o que pode ser observado já através do discurso intitulado “Canção de fé e esperança”, proferido em 1923, ensejado pela data comemorativa do centenário da adesão do Amazonas à Independência Nacional, ocorrida em 1823. Referindo-se ao amor que devota ao Estado, declara:
 
[...] É esse amor que nos faz prever o Amazonas de dois mil e vinte e três, como uma pátria em que milhares de homens, unidos pelo mesmo afeto, celebram uma nova era, sustentando, por seu poder financeiro, uma potência econômica formidável, cujas cariátides serão as fábricas plantadas nos campos, os armazéns com incalculáveis valores, as cidades debruçadas à margem dos rios nervosos e barrentos. As estradas de ferro comunicarão os afluentes entre si  e porão em contato os reservatórios de riquezas, que se prolongam do Rio Branco aos campos-gerais do Madeira [...][199]
 
            As críticas que Álvaro Maia empreende no mesmo discurso à falta de um trabalho efetivo de cultivo da terra são assinaladas também pelo narrador do romance ao destacar uma “[...] terra em que não se plantava, não se criava, importando-se sempre e destruindo as reservas naturais.”[200] Outros pontos de confluência que também podemos notar é a exaltação do nordestino, o “nobre bandeirante do nordeste”, apontado como herói do desbravamento, e a denúncia do descaso governamental em relação ao Estado. Tanto a crítica quanto a exaltação presentes no discurso justificam plenamente a arquitetura de uma personagem como Fábio, um nordestino que demonstra amor à terra para a qual se transplantou, que constrói e administra sua propriedade com base na racionalidade, que ao invés de inimigo se transforma num parceiro daqueles que para ele trabalham. A idéia da cooperação entre patrões e empregados que podemos depreender da postura de Fábio, patrão que se solidariza com seus trabalhadores, está em afinação com a política trabalhista do Estado Novo que, como lembra Santos, postulava “a ausência dos conflitos entre patrões e trabalhadores [...].”[201]
            Figurando sempre como oponente, o seringalista não teve na ficção do ciclo o status de protagonista. A nomeação de protagonista em relação à personagem Fábio deve ser estabelecida a partir de algumas considerações. Ela pode ser tomada como uma figura central por ter destaque em relação às demais personagens, especialmente no que diz respeito à história principal, sendo Beiradão uma narrativa que se divide em muitas histórias paralelas. No que diz respeito ao herói como um ser problemático que enfrenta adversidades e busca entender-se no mundo ou numa sociedade de que faz parte, Fábio representa uma categoria e não um ser individualizado, pois não enfrenta situações que o ponham em choque com forças opostas as suas e não ostenta maiores transformações de sua personalidade. Sendo assim, não tem oponentes mas contrapontos como Segadais e Padre Silveira, personagens com posturas diferentes da sua, mas com as quais não entra em conflito. Mesmo em relação aos seringalistas de papel oposto ao seu, não se cria um antagonismo, uma vez que admira sua função de desbravadores. Em síntese, Fábio é um modelo ideal de seringalista em contraponto a um modelo errôneo. Desde o princípio do romance, sua personalidade já está traçada para atender a esse modelo.
            A criação de Fábio como um modelo ideal de seringalista não leva a uma tendência generalizada da bonomia de todos os seringalistas apresentados no romance. O autor não assume uma defesa intransigente do seringalista, propõe uma faceta alternativa para o patrão dos seringais.
            A indicação dada no romance de que o seringalista rude, sem visão e planejamento, é responsável pelo fracasso do ciclo econômico, torna claro o papel alternativo desempenhado por Fábio e está exemplificada na personagem do coronel Moreira endividando-se e não prevendo a crise ou em Valério Liras, 
 
[...] exportador de toneladas de borracha e centenas de hectolitros de castanha, sem uma escola, uma assistência médica, sem educar um filho de seringueiro. Viagens, luxo, larguezas, mesa com vinhos, e nada para os pobres. Somente sol, frio, nudez, barraca escura. Lendo pouco, tivera coragem, faro canino para negócios e pouco ligava à defesa da terra. Não incentivava roçados, agricultura, porque lhe prejudicava os lucros nas compras de farinha do Pará. Dava-lhe o dinheiro influência política, e as autoridades locais se curvavam aos seus arrotos de mandão.[202]
 
            O seringalista cruel não desaparece no romance e o seu perfil vingativo e por vezes sádico é ressaltado em tipos como Arsênico, que queima vivo o seringueiro causador de prejuízo, ou de caciques políticos como o coronel Moreira, capaz de pôr em prática vingança sumária contra os seus desafetos. Na posição posta no romance sobre o seringalista, há distinção entre o mau e o bom, evitando  generalização, conforme se nota neste diálogo entre Fábio e Padre Silveira, em que o primeiro busca um consenso e o segundo não acredita numa recompensa à postura justa do explorador:
 
- Quer dizer que você estabelece diferenças entre eles?
- Sim, como em todos os períodos de conquista. Bons e maus latifundiários, bons e maus pioneiros e seringueiros. Os pioneiros das selvas, vamos dizer assim, impunham a sua vontade com um 44 à ilharga. Se fraquejassem, estariam mortos. Rezavam a Deus e levavam o demônio por dentro. Sorriam uns para os outros, pensando que tinham uma quicé à ilharga. Também se arrojavam às cachoeiras para salvar um trabalhador, expondo a própria vida.[203]
 
            Conquanto o romance esteja voltado para a temática do ciclo, notamos uma descentralização dos tópicos tornados exclusivos em outras obras. O mapeamento detalhado do dia-a-dia do seringal, com suas situações peculiares, sofre um desvio que favorece um leque maior de sub-temas da vida interiorana. As relações políticas figuram como um desses acréscimos, fornecendo uma visão às vezes irônica como a dos eleitores famintos, do período da crise, que prometem votos a candidatos adversários a fim de melhor lucrarem com o banquete oferecido em virtude da eleição:
 
- Dizem que vai haver carne na eleição de outubro. Vem um homem oferecer boi e vinho pra votar no doutor de Manaus, que fala bonito. Mas o coronel tem espia. A gente não diz nada, vota no coronel, que é de casa e come a carne dos dois lados. [204]
 
            As críticas que o autor faz no romance em relação ao governo são fruto de sua atividade política. Mesmo sendo um político conservador,  ligado ao Estado Novo, Álvaro Maia não contém o tom de denúncia, apontando o descaso e a falta de assistência governamental. É preciso destacar, no entanto, que o romance foi escrito em 1958, no período em que esteve desligado dos cargos públicos, retirado em sua residência no seringal “Goiabal” e que como político enfrentou denúncias em relação ao recrutamento e assistência aos nordestinos na campanha da batalha da borracha, realizada durante sua interventoria, sob os desígnios da política do Estado Novo. O episódio é comentado por Santos:
 
Após 1946, proliferaram as críticas dos adversários de Álvaro Maia, no Diário da Tarde, formuladas contra a “batalha da borracha” e a desorganização da imigração de nordestinos para os seringais. Nesse empreendimento, a interventoria de Álvaro Maia consumiu enormes esforços, o que acarretou um desgaste político ao Partido Social Democrático e seus líderes. O esquema institucional montado durante o Estado Novo para implementar a “batalha da borracha”, recebeu denúncias na imprensa local e nacional em decorrência de sua improvisação, carência organizacional e desordem administrativa. [205]
 
            A utilização de motivos à margem dos tópicos abordados na ficção da borracha, empreendida por Álvaro Maia em Beiradão, também se origina do viés político. As narrativas colhidas nos repertórios nordestino e caboclo, propiciadoras do conjunto de histórias paralelas ao enredo principal do romance, e que, nas palavras de André Araújo, dão a conhecer a “[...] gleba, a estrada, a dietética, os hábitos, o lendário, o místico, a vida social, a criminologia, as revoltas, as fugas de dentro das florestas, a fé, o amor, as técnicas, o trabalho, a medicina caseira, o caçador, o regatão, o banditismo, a politicagem [...]”, [206]  configuram o enfoque que o autor dá aos textos produzidos durante o afastamento da política e que já estava caracterizado em seus discursos, artigos e conferências publicados na década de 1920, os quais tinham ressonância no movimento denominado glebarismo, através do qual eram defendidas idéias regionalistas.[207]
            Desse modo, Álvaro Maia apresenta-se, desde o início de sua carreira política e de sua atividade no magistério, como um defensor da glória dos heróis do passado, o que se constata em sua conferência “Pela glória de Ajuricaba” na qual eleva essa personagem histórica a símbolo do Amazonas. No artigo intitulado “O elogio do caboclo”, Maia procura, por sua vez, desmistificar o perfil negativo em relação a esse ser, acusado de indolência e covardia, e o aponta como o guia ideal dos pioneiros e desbravadores, estes também alçados à categoria de heróis:
 
Esses homens rudes, que sentem no espírito a adustão de seus sertões e a agitação de seus males, transmudam-se em valentes, ao contato sarcástico dos caboclos, desvendam o labirinto de nossas terras e, no momento preciso, se metamorfoseiam em soldados para morrer ou vencer, cantando pelo orgulho de sua pátria. Velos-eis, em Porto-Acre, pelejadores em nome do Amazonas e do Brasil, contra um exército, bater uma nação: velos-eis enfrentar, em fronteiras indefesas, invasores imprudentes; velos-eis no Rio Branco e no Madeira, no Javari e no Negro, como sentinelas, conservando no coração o culto da terra e da gente [...][208]
 
            Além do enfoque no elemento humano que, a exemplo dos textos mencionados,  também se dá em Beiradão, o romance apresenta uma percepção do ambiente amazônico distinta daquela das obras da primeira fase do ciclo ficcional. Ainda que Beiradão evoque o determinismo do meio em personagens como Padre Silveira, o qual tem o comportamento alterado pelo ambiente amazônico, levando-o à concupiscência, a natureza não é retratada pelo estigma do “infernismo” que caracterizou, segundo Mário Ypiranga Monteiro, a produção ficcional em torno do “ciclo da borracha”. Importa mencionar que Álvaro Maia reprovou, em carta aberta ao presidente Washington Luís sob o título “Em Nome dos Amazônidas”, a denominação “inferno verde”, estampada no livro de Alberto Rangel e propôs, ao invés, a expressão “Paraíso verde”. 
            Os desequilíbrios no ambiente expressos em Beiradão são dados como resultado do processo de desbravamento tal se pode notar por esta passagem do romance:
 
Redimiam-se os seringalistas da triste fama de criminosos, explicável pela violência dos pioneiros, na arrancada para vencer o índio e dominar o desconhecido, uma pequena parte desse desconhecido [...] A conquista prosseguia em capítulos verídicos, inscrevendo os nomes daqueles homens audazes entre os que empurraram o Amazonas para a frente, espalhando barracas e caminhos, cadáveres e heroísmos nos meridianos coloniais [...][209]
 
            A justificativa apresentada no romance de que a violência e a espoliação são conseqüências de uma “sociedade em formação” afina-se com a concepção do historiador amazonense Arthur Cezar Ferreira Reis, para quem esses mesmos fatores são resultados naturais de um processo de colonização ou de um “meio-sociedade em formação”. A redenção é também destacada pelo historiador: “[...] Os anos de rigor, da fase  de decadência dos seringais, ferindo seringalistas, aviadores e seringueiros, tiraram-lhes muito daquele sentimento de voracidade, de apetite insofrido que os levou àqueles excessos por demais lamentáveis.”[210]
            Nesse diapasão, os “pecadilhos” de Padre Silveira são postos como perdoáveis porque ele realiza a tarefa pioneira de oferecer assistência religiosa aos interioranos. Padre Silveira e Fábio são dois exemplos de que a carreira sacerdotal sofre um abalo numa natureza virgem, o primeiro, tendo chegado ordenado ao Amazonas, exerce o sacerdócio pela metade e o segundo, ao se deparar novamente com o seminário na volta ao Ceará, perde a vocação em virtude da estada nos bamburrais amazônicos.
            A natureza em Beiradão seduz e deixa na alma do pioneiro uma marca indelével: “[...] Estas margens, estes aguaceiros, estes sofrimentos gravam-se na gente para sempre e cozinham os dias em saudade permanente.”[211] No romance, a atração exercida pelo meio ocorre de forma extensiva, atingindo o arrivista e o abnegado.
            O que motivou a diversificação na abordagem de Beiradão quanto ao papel do seringalista foi menos um diálogo com os ficcionistas da borracha do que uma proposta política de alternativa econômica para a região. Durante a década de 1930, quando governava em sua primeira interventoria, Álvaro Maia já pedia providências ao governo federal para minimizar a crise e sugeria o amparo à lavoura, através da divisão de terras pertencentes ao Estado entre pequenos proprietários, como forma de conter o êxodo rural ocorrido com a desvalorização da borracha. Por outro lado, Santos observa que, como interventor, Maia não abandona a idéia da valorização da borracha e que tanto essa valorização quanto o apelo à implantação de um meio econômico alternativo atendiam aos interesses das classes conservadoras amazonenses e das populações interioranas.[212] A cooperação entre o proprietário e o extrator, a necessidade de fixação do homem à terra que marcam o procedimento da personagem Fábio, em Beiradão, faziam parte do programa populista desenvolvido por Vargas e igualmente assumido por Álvaro Maia.
            Vemos que a percepção do escritor no romance pouco diverge dos postulados políticos que defendeu toda a vida, que podem ser mapeados em seus artigos, discursos e conferências, mesmo tendo o romance sido escrito durante a fase de afastamento da política.
 
 
 
 
 
O amante das amazonas: o ciclo sob o olhar de um analista-autor
 
            Rogel Samuel, autor de O amante das amazonas, agrega duas características relevantes para nosso estudo sobre as obras literárias do “ciclo da borracha”. A primeira delas é a experiência que, em seu caso, não é direta, vem de reminiscências legadas pela memória de antepassados, como o avô, um alsaciano enriquecido pelos lucros da borracha amazônica, no início do século XX. A segunda característica motivadora do estudo desse romance surge do fato de o autor ser analista literário, atividade resultante de sua carreira no magistério.[213]
            Entendemos ser a atividade de analista empreendida por Rogel Samuel a promotora da diversificação de abordagem do romance O amante das amazonas. Não o nomeamos, contudo, um escritor-crítico, conforme concebe Leyla Perrone-Moisés[214] por entendermos que o autor exerce a atividade de analista paralelamente a de escritor e por considerarmos que tanto a sua produção teórica quanto a sua produção ficcional não alcançaram a extensão e o nível de sistematização necessários à qualificação de escritor-crítico, como o estabelece o estudo de Perrone-Moisés. Uma vez que Samuel não pratica a análise do texto ficcional como corolário de sua atividade de escritor, podemos considerar o oposto: que sua atividade de professor e analista possibilitou a expressão de ficcionista, expressão essa que marcará a renovação da terceira fase ficcional do ciclo.
            O amante das Amazonas realiza a brevidade que, segundo lembra o narrador de um romance de Ítalo Calvino, é necessária aos romances modernos: “[...] Hoje em dia, escrever romances longos é um contra-senso: a dimensão do tempo foi estilhaçada, não conseguimos viver nem pensar senão em fragmentos de tempo que se afastam, seguindo cada qual sua própria trajetória e logo desaparecem [...].”[215] Dessa forma, o romance se divide em 23 capítulos curtos: Viagem, Palácio, Numas, Paxiúba, Ferreira, Júlia, Desaparece, Ratos, Frei Lothar, Perdida, Ribamar, Manaus, Conversas, O leque, A livraria, Benito, Rua das Flores, Encontro, Mistério, Noite, O pórtico, Jornal, Fim. São capítulos que, por sua vez, não estabelecem uma continuidade linear do enredo, alguns deles basicamente introduzem personagens, o que reforça a característica fragmentária da narrativa.
            Fragmentado é ainda o narrador do romance. Divide-se entre primeira e terceira pessoas. Em primeira pessoa, narra Ribamar, retirante do povoado de Patos, em Pernambuco, vindo para a Amazônia em 1897. Já a voz que narra alternando a primeira e terceira pessoas tece comentários, dialoga com o leitor, insere digressões e se assume como ser ficcional: “[...]sei, e de antemão o digo, que esta é apenas uma obra de ficção, e portanto mentirosa, dentre as várias que há na literatura amazonense, e espere o leitor e a leitora o surpreender-se como, apesar disso, o fio do destino do que vai descobrir é correto. Todos os fatos, aqui expostos, foram realidades notáveis e aconteceram realmente para a minha imaginação [...].”[216]
            As narrações em primeira e terceira pessoas, portanto, não se apresentam como instâncias independentes. Por vezes, a forma indireta da terceira pessoa se personaliza. Expressa-o o fato de que o romance se inicia com a narração em primeira pessoa da personagem Ribamar para, posteriormente, no capítulo dez, ser atribuída ao narrador em terceira pessoa, que destaca: “O Manixi naquela época agonizava, improdutivo. Fazia dois anos que o próprio Ferreira não aparecia, e a sede, depois da morte do Capitão João Beleza, ficara sob as ordens de um Ribamar (d’Aguirre) de Souza, oriundo de Patos, Pernambuco, conforme o primeiro capítulo desta minha narrativa.”[217]
            Depreendemos que a impessoalidade da terceira pessoa transforma-se em diversos momentos da narrativa em uma voz paralela à do narrador-personagem Ribamar. Essa outra voz que também fala em primeira pessoa (minha narrativa/Eu, o narrador) e se assume como narrador, concomitantemente cria uma noção de veracidade extratextual, entretanto, há aí também um artifício ficcional: “[...] do que pude conseguir de jornais da época e de cartas de familiares, o desaparecimento de Zequinha Batelão nas margens do Igarapé do Inferno se deu em janeiro de 1912. Não fosse essa uma obra de ficção e poderia citar, em notas de pé de página, as fontes de onde obtive tal informação [...]”[218]
            A abertura do segundo capítulo do romance apresenta-se como um dos momentos em que narrador-personagem e narrador analista se fundem. Essa passagem norteia a própria leitura que devemos fazer do romance, pois a ficção se auto-define:
 
[...] esta narrativa-paródia de romance histórico que define com boa precisão esta minha tardia confissão - vai-lhe revelar a vida tão surpreendente de Ribamar de Souza, aquele adolescente que eu era aparecido num inesperado dia de inverno da Amazônia dentro da chuva compacta de um ostinato extremamente percussivo em comandos de improvisação de uma partitura imaginária, ecológica, de acordes politonais sobre o que sentado estava num banco de madeira no alpendre do tapiri ao som do suporte de compassos 5/4 do Igarapé do Inferno, que sai no Igarapé Bom Jardim que sai no Rio Jordão, que sai no Rio Tarauacá, que sai no Rio Juruá, afluente do Rio Amazonas, o Solimões, aonde estamos retornando.[219]
 
            O entendimento do caráter parodístico atribuído pelo narrador ao romance requer algumas considerações sobre a especificidade desse tipo de discurso. Em seu estudo acerca da tipologia do discurso na prosa, Bakhtin[220] argumenta que o procedimento parodístico do discurso se caracteriza não somente por uma remissão ao objeto referencial da fala, como também a um segundo contexto, um ato de fala de outro emissor, sendo por isso um discurso duplamente orientado ou de duas vozes. Bakhtin estabelece também a diferença entre a paródia e a imitação, fazendo notar que enquanto aquela cria um antagonismo em relação à voz na qual se aloja, essa torna própria a palavra do outro, fundindo-se a ela. Outra peculiaridade que deve ser considerada, segundo o autor, é que a fala parodiada é apenas subentendida. Bakhtin destaca que o campo de possibilidades do discurso parodístico é bastante amplo, pode lançar mão de um estilo enquanto estilo, de modos típicos de pensar social ou individualmente. A construção parodística pode se limitar a níveis da superfície verbal ou atingir níveis mais profundos. O uso parodístico da palavra do outro, lembra o autor, não se dá apenas no campo literário, ele ocorre sempre que há intenção de pôr um acento irônico nas palavras de um outro emissor, criando uma ambivalência em relação a essas palavras: “[...] Em nossa fala cotidiana, é extremamente comum este uso das palavras do outro, especialmente no diálogo em que, freqüentemente um interlocutor repete de modo textual a afirmação de outro interlocutor, investindo-a de outra intenção e enunciando-a a seu próprio modo: com uma expressão de dúvida, de indignação, de ironia, de zombaria, de troça ou algo semelhante.”[221]
            Sendo O amante das amazonas definido por seu narrador como uma paródia de romance histórico, é necessário chamar a atenção para o fato de que a maioria da produção ficcional sobre o ciclo pode ser considerada de enfoque histórico, haja vista essa ficção ter abordado aspectos em consonância com os dados históricos sobre o evento. Desse modo, os principais fatores que envolvem a história econômica do ciclo são retomados pelos ficcionistas. A ficção geralmente faz recortes desses fatores através de cenas que são comuns a muitas obras. O processo de transumância do nordestino, compreendendo os fatos antecedentes, como o sofrimento causado pela seca, a falta de perspectiva na terra natal até a decisão da partida, enfrentando a longa jornada do Nordeste ao Norte, atinge o cerne na ficção através da descrição da viagem. Nessa descrição, geralmente são enfocados o estado de submissão dos recrutados ao seringal, as condições do transporte onde são tratados como passageiros de terceira categoria, sem direito a dignas condições de higiene e à privacidade.
            Em O amante das amazonas, as descrições do barco e da viagem recebem um novo tratamento por meio de uma construção parodística que acrescenta um tom irônico ao tradicional tom de denúncia de outras obras:
 
[...] Navio dentro do qual não cabia mais único engradado de porcos, alojando aquela horda que fedia podre, de suor, esterco de gado e urina – redes se entrecruzando e houve roubo, bebedeira, estupro, briga, facada e morte – um pai esfolou um macho surpreendido com sua filha num vão de esterco; outro, bêbado, mijava ali no chão enquanto escorria até onde dormiam muitos, no chão; sobre um garajau de galinhas um homem sacou de si e se aliviou sob a luz de um candeeiro amarelo cheio de moscas. Era um soldado.
Passamos do Farol de Acaraú ainda dentro daquele porão e paramos em Amarração para largar um cadáver, o preso e dois passageiros cobertos de varíola. Mas não tocamos em Tutóia, aportando em São Luís onde o Alfredo foi dentro d’água cercado por botes, catraias e se transformou em  gigantesca fera [sic] flutuante, lá subindo todos para bordo os vendedores de camarão frito, doces e frutas. Pois não foi uma viagem maravilhosa? [...][222]
 
            A linguagem em que a descrição é posta formula-se através de uma sintaxe não convencional que inclui cortes de conectivos, gerando um caráter sintético peculiar à linguagem coloquial (aquela horda que fedia podre). A sintaxe do texto também apresenta uma disposição de orações que possibilita a interposição de informações e torna significativa a desordem espacial no barco e as relações conturbadas entre os passageiros (redes se entrecruzando e houve roubo, bebedeira, estupro, briga, facada e morte). A escolha de verbos e substantivo característicos da linguagem chula (esfolar, mijar, macho) demonstra a aplicação dos níveis de linguagem, o que permite que a condição dos passageiros se expresse com mais rudeza. Com a frase interrogativa no final do trecho, o sentido irônico se estabelece.
            Um dos pontos mais marcantes nos estudos históricos e na ficção do ciclo, o elemento que se caracteriza como o explorador, é retomado em O amante das amazonas sob um olhar distinto daquele que se convencionou na maioria das obras ficcionais. O que se torna central no romance não é a abordagem maniqueísta em torno desse elemento, mas sua relação com um processo econômico mais abrangente do que a monocultura local. No romance, a personagem Pierrre Bataillon, proprietário do seringal Manixi, em nada se assemelha às tradicionais personagens de seringalistas. Divergindo dessas personagens, Pierre representa uma linhagem “[...] nobre, neto de Duque de Cellis, uma das mais nobres famílias de Espanha, que vinha da antiga Roma, inteligente, culto, falando fluentemente várias línguas [...]”,[223] vivendo como um “[...]fidalgo engastado na floresta, cercado de todo o luxo e de muitos livros [...]”.[224] Pierre não significa apenas o oposto do arrivista bronco enriquecido, seus hábitos e o palácio que constrói no meio da selva sintetizam o aspecto voraz do capital internacional e da cultura estrangeira, impondo sua hegemonia sobre a cultura local através de uma ostentação delirante e esquizofrênica:
 
 [...] O palácio era imagem em busca de sua natureza profunda. Ali se dispunha de uma sala de música onde se ouvia principalmente Beethoven, com um piano Pleyel, a vitrine onde Pierre Bataillon ostentava sua coleção de violinos (o Guarnerius, o Begonzi, o Klotz, o Vuillaume), as gravuras representando Viotti, Baillot, David, Kreuzer, Vieuxtemps, Joachim; a máscara mortuária de Beethoven, laureado em bronze, de Stiasny. A biblioteca, em que alguém uma noite leu em voz alta versos de Lamartine. E salas e salas se interrogando para quê, salões e galerias e cômodos se intercomunicando por portas sucessivas que se abriam em galerias e corredores restritos, que se fechavam em si mesmos, ao som do piano de Pierre Bataillon [...] no silêncio rigoroso do gabinete inglês; na dinâmica, na morfologia prostituta do divã de Delanois; na unidade e variante elíptica do canapé – e nos cipós, íris, cardos, insetos estilizados, poliformes, incorporando-se aos móveis e às linhas dos painéis franceses num delírio neo-rococó como não quis a natureza: estátuas sobre lambrequins, rocalhas e rosáceas ecléticas, urnas nas cimalhas dos balcões simbolizando a energia, a ontologia e o desejo do capitalismo de tudo consumir, de tudo gastar, de tudo produzir, de tudo poupar e de tudo faltar e apropriar-se, transbordando e abortando na loucura, na miséria e na morte – cariátides, capitéis, folhagens da selva ...[...][225]
 
            O palácio, edifício “[...] encapsulado de civilização da humanidade européia [...]”,[226] localizado no meio da selva, opõe-se à moradia convencional do seringalista na ficção, o barracão tosco, que se harmoniza com o caráter rude de seu proprietário. Nas ficções do ciclo, a selva e a civilização sempre estiveram separadas. Os coronéis seringalistas comandavam o seringal em sua moradia improvisada na selva e construíam palacetes na cidade como forma de usufruírem do luxo e ostentação proporcionados pelos lucros da borracha. O espaço da cidade era adequado à fruição dos prazeres copiados à cultura européia, representativos da Belle-époque: palacetes art-nouveau, móveis franceses e toda uma gama de objetos de usos variados, importados dos mercados europeus.
            As duas faces do ciclo, civilização e mundo selvagem, não se apresentam dicotomizadas em O amante das amazonas. Civilização e selva se chocam, se confrontam e se mesclam. A obra faz a ligação entre os opostos. Aquilo que a civilização significou em termos de progresso e vida moderna se defronta com a força rústica da natureza. Num caminho de duas mãos, a ostentação invade a floresta e a floresta invade a ostentação. O tratamento parodístico dado ao romance se evidencia também por essa confrontação de dois mundos antagônicos:
 
[...] No meio da noite Pierre toca piano, lê, caminha dentro da casa do fim do mundo. As noites são soturnas, lúgubres, envolvem o Palácio em demônios que saem da escuridão. Pierre, indiferente, anda e seus passos se fazem ouvir ao longo a galeria das portas e janelas. Ele contempla os quadros, segue a fileira das janelas de folhas duplas fechadas até o chão, pesadas, almofadadas, bandeiras guarnecidas de cortinados franzidos de filó. No galpão, o viveiro dos patos com que se protege o Palácio de cobras, aranhas e escorpiões. A lâmina d’água tenta impedir a invasão das formigas. Mas sempre se encontra uma aranha peluda em cima da cama, ou se surpreende um escorpião atravessando por debaixo da mesa de jantar, ou se depara com uma cobra, coleando no vão do corredor. Ao cair da noite se fecham portas e janelas. Em turíbulos espalhados pela casa, se começa a queimar uma mistura de bosta de vaca e óleo de anta, para repelir insetos, cheiro que impregna e caracteriza o paço. Mesmo assim o prédio é assediado à noite por nuvens de insetos voadores, que querem entrar, atraídos pelas luzes [...][227]
 
            No processo de instalação de seu “império”, Pierre Bataillon se depara com dois povos indígenas: os Caxinauás e os Numas. O contato dos exploradores com os índios sempre foi apresentado como conflituoso na ficção da borracha e em O amante das amazonas não deixa de o ser, mas o romance acentua um posicionamento duplo dos índios em relação ao invasor do espaço por eles habitado. Logo que chega ao Igarapé do Inferno, Pierre encontra apenas os Caxinauás e como estes não ostentam resistência a sua invasão, mostram-se pacíficos, ele os domina com facilidade e implanta ali sua soberania. Impõe, como homem branco civilizado, a paz e a ordem entre os Caxinauás, desconsiderando que eles pudessem ter qualquer organização social. Em nome do progresso, Pierre promove a castração da cultura Caxinauá. Tendo a identidade negada, os Caxinauás se submetem “quase alegres”, ironiza o narrador, e são transformados em objetos do seringal Manixi, reduzindo-se, após enfrentarem doenças como tifo, malária, sarampo, sífilis e uma epidemia de gripe, “[...] a 84 viventes agricultores, servos da gleba do Coronel.”[228]
            Enquanto os Caxinauás se submetem à dominação, os Numas demonstram comportamento oposto. Nômades, arredios, impõem-se como resistência, insistem em ser, em não se negar. Diferentemente do que ocorrera com os Caxinauás, que tiveram seu espaço restringido, os Numas, seres que se deslocam na rapidez de um sopro, que se movimentam com facilidade na noite, que quase não são vistos, cercam o seringal e impedem sua expansão. Usando de estratégias para conquistá-los, Pierre deixa, nos limites do seringal, presentes nos quais eles não tocam, impossibilitando um canal de comunicação. Diante do comportamento dos Numas, a voz parodística do narrador interroga, instalando uma problemática: “Onde há resistência, há poder?”[229]
            As obras do ciclo, em geral, apresentam o índio como elemento hostil e cruel. Poucas vezes, é acentuado que o seu comportamento violento resulta de uma reação a uma violência, a invasão. Divergindo do tratamento omisso ou pelo menos parcial, haja vista que em algumas obras destaca-se a figura sanguinária do indígena e de vítima do invasor, no romance O amante das amazonas há uma declaração enfática sobre o extermínio indígena. Essa declaração, posta através de uma imagem alegórica, permite ouvir, por intermédio do narrador, a voz sufocada de Maria Caxinauá, que é também uma voz coletiva:
 
OS ásperos, compridos cabelos ensombravam a face com a figura da morte. As pupilas eram dadas por incompreensível aura branca, um espantoso horror. Nariz aquilino, cigano. Pele bronze escuro queimado e fosco, amassado como papel. Sujo, longo vestido azul, rasgado num flanco, sem cintura, arrastando-se no chão como uma louca num hospício. Observada à distância, era a concentração do Ódio. De perto, era o Medo, o incontrolável Pavor, olhos bem abertos. As faces murchas indicavam que perdera todos os dentes, as sobrancelhas eram ralas. Mas aquela mulher não era uma velha! Subitamente se deixava ver! A face tem arrogância, desprezo, desafio, o olhar perigo, o veneno, pensou Ferreira, apertando o laço da gravata. Hostil, aquela existência silenciosa e animal concentrava-se em si mesma, refluía em si, como serpente. Desde aquela noite Ferreira a teme. Vê a inimiga. Pois a Caxinauá é vingança acumulada, petrificada. Toda a multidão inumerável de índios massacrados reterritorializava-se naquele corpo. Todos os torturados, os banidos, os exterminados pela humanidade européia, os saqueados, desculturados, reduzidos a ruínas se cartografam ali, na pessoa física e individual de Maria Caxinauá. São raças inteiras espoliadas, traumatizadas, despossuídas de seus deuses e de suas riquezas construídas durante séculos, sangradas em hecatombes, liquidadas para sempre. Contaminadas de doenças, escravizadas e corrompidas, submetidas ao trabalho escravo que consumiu o sangue de milhões de pessoas desprovidas de suas economias de subsistência, tragicamente transformadas em exércitos de massas proletárias – vinte milhões de índios massacrados no Brasil se corporificavam ali, no gesto cego de Maria Caxinauá.[230]
 
            Nesta passagem, está implícita a paródia ao conto “A decana dos Muras”, de Alberto Rangel. O tom inicial da descrição de Maria Caxinauá segue paralelo à caracterização assombrosa e torpe da decana para apresentar ao leitor o texto parodiado, mas, num segundo momento, surge o distanciamento ou a oposição parodística a partir da negação de senilidade à índia Caxinauá – aquela mulher não era uma velha! – e ao invés de impor comiseração pelo estado de rebotalhamento da índia, alça-a à condição de um ser terrível, forte e ameaçador. Em “A decana dos Muras”, ao contrário, o narrador, após apresentar o aspecto assombroso da velha índia, tenta suavizar-lhe o aspecto, atribuindo-lhe uma docilidade na juventude perdida. O texto parodístico traz, por fim, a denúncia do massacre da cultura indígena que o texto parodiado não acentua. Destacamos que o texto parodístico atinge um nível profundo em relação ao texto parodiado. A determinação ideológica que preside o discurso do autor Alberto Rangel, assentada na visão ambivalente sobre o extermínio autóctone, à medida em que comunga do coro depreciativo do colonizador, não podendo ocultar sua repugnância e rejeição pelo ser que representa o outro, é desocultada.
            O império do látex, emblemado em Pierre Bataillon e seu palácio excêntrico e anacrônico no meio da selva, ressurge no final do romance numa alegoria fantasmagórica. Nas ruínas do palácio saqueado, resta apenas o piano de cauda Pleyel, objeto sufocado em seu aspecto nobre e fáustico como se silenciado após o encerramento de um concerto. O palácio, congelado no tempo, é povoado por fantasmas da História, abriga os espectros da ostentação que passam “[...] arrastando longos e pesados vestidos de veludo verde, envergando reluzentes casacas [...]”,[231] esquálidos, saídos do “sepulcro do luxo” para expiar suas “culpas mortas”. Pierre também ali se encontra transformado numa negação do que fora outrora:
 
E à noite a figura do antigo e descarnado dono poderia ser vista, através das janelas, como se o iluminasse uma catedral, mostrando-lhe a face horrível e desesperada, os olhos mergulhados no escuro, à procura de algo, à procura do tempo, à procura de si – e passando sem que ninguém o visse na sua infinita miséria. E todo o esplendor daquele luxo antigo era uma torturação sinistramente mergulhada na destruição de um império ali por fim silenciado.[232]
 
            A narrativa de O amante das amazonas focaliza, além da personagem Pierre Bataillon, evocadora de um passado que o narrador insere fragmentariamente na história, as personagens Juca das Neves e Ribamar de Souza que se ligam às fases de decadência e de mudança de perspectiva econômica. A fase de decadência, em que muitos aviadores se arruinaram, concentra-se em Juca das Neves, dono do falido “Armazém das Novidades”, ainda mantido aberto quando a abastança já não mais existe e Manaus é uma “cidade-fantasma”. A indicação de que o “ciclo da borracha” está encerrado e de que as estruturas social e econômica apresentam ares de mudança, estampa-se no mobiliário discreto, na decoração que já evoca o modern style descritos na casa do comendador Gabriel Gonçalves da Cunha, personagem histórica recriada na ficção. Ribamar de Souza transforma-se no herdeiro do falido império do látex, compra o armazém de Juca das Neves e o moderniza, tornando-se um novo-rico: “Ribamar, com auxílio de Juca das Neves, modernizou o Armazém das Novidades, passando a representar vários produtos norte-americanos, como as máquinas de costura Singer – de enorme popularidade. Ribamar expandiu os negócios e começou a ameaçar o império comercial da poderosa família Gonçalves da Cunha [...]”.[233]
            O amante das amazonas promove um olhar abrangente e profundo sobre o ciclo econômico da borracha que se seria no texto como um todo e também condensa-se em trechos do romance. A capacidade de condensação, segundo Perrone-Moisés,[234] é um dos valores apontados pelos escritores-críticos no texto moderno, na medida em que permite “dizer muito em poucas palavras”. A autora destaca que a condensação, mais do que uma síntese, importa numa saturação de sentidos. Um trecho de O amante das amazonas realiza uma condensação que retoma toda a História do ciclo, englobando o processo que deslanchou a alta cotação da borracha no mercado internacional e os efeitos locais desse processo, estampados na circulação de riqueza na capital amazonense e na adoção de todo um modus vivendi à reboque da cultura européia. O narrador acrescenta aos fatos e aspectos históricos, enumerados em frases curtas, comentários irônicos e críticos, caracterizando o tratamento parodístico:
 
[...] A cotação da borracha amazonense sobe na Bolsa de Londres. Aumenta a produção dos pneumáticos. O Amazonas, único produtor de látex do mundo. Manaus rica, copia Paris. Comerciantes enriquecem. Ostenta o Teatro Amazonas os seus espelhos de cristal. Os milionários jogam cartas com anelados dedos pesados de diamantes, arriscando fortunas no Hotel Cassina, no Alcazar, no Éden, no Cassino Julieta. Telhas de Marselha ao luar na Rua dos Remédios, na Rua da Glória. Arquitetura art-nouveau do palácio de Ernest Scholtz – depois Palácio Rio Negro, sede do governo. Arandelas, bandeiras, implúvio. Intercolúnio. O cunhal, o lambrequim, a voluta, o capitel, a cornija. Arquitrave. Barrete de clérigo, adufa, muxarabi, água-furtada, muiraquitã, envasadura, aleta, estípite. O enxalso, o frontão de cartela. Galilé. Pequena Manaus, grande Paris!.[...] Um prédio importado, peça por peça, da Inglaterra: a Alfândega, montada aqui. Outro, projeto do próprio Gustavo Eiffel, de ferro: o Mercado Municipal. Um Serviço Telefônico serve a cidade. A eletricidade ilumina as ruas de Manaus no início do Século, talvez das primeiras cidades brasileiras a ter este serviço [...] Óperas, óperas, óperas. Diariamente. Prostitutas importadas. A Cervejaria Miranda Correia. A Praça da Saudade. O Roadway, o Trapiche. Sífilis. Malária [...] 126 navios trafegam no interior do Amazonas. Vaticanos, gaiolas e chatas. Inaugura-se, às custas de 3,3 milhões de dólares, o Teatro Amazonas, em 1896 – a mais cara e inútil obra faraônica da História do Brasil, milionária e importada, com painéis, centenas de lustres de cristal venezianos, colunas de mármore de várias cores, estátuas de bronze assinadas por grandes mestres, espelhos de cristal visotados, jarrões de porcelana da altura de um homem, tapetes persas – tudo o que, aliás, em 1912 desapareceu, esvaziando-se o Teatro para transformá-lo num depósito de borracha de uma firma americana. Ali o erário público foi enterrado em 10 mil contos de réis: o Teatro Amazonas custou o preço de 5 mil casas luxuosas. O dólar a 3 mil réis. Por 900 contos de réis se constrói o Palácio da Justiça. E por 1 mil e seiscentos contos de réis se constrói o Palácio do Governo; nunca concluído. O Teatro custou 10 mil vidas. Sim: Em 1919 no Amazonas já tinham chegado 150 mil emigrantes. A borracha naqueles anos foi tão importante quanto o café. O Amazonas exportou 200 mil contos de réis em borracha, contra 300 mil contos do café paulista na mesma época. Em 1908 é fundada a mais antiga universidade do Brasil, em Manaus, com cursos de Direito (o único que sobreviveu), Engenharia, Obstetrícia, Odontologia, Farmácia. Agronomia, Ciências e Letras. Nessa época 12 milhões de francos franceses sumiram, roubados no Governo de Constantino Nery. Encampa-se, fraudulenta e inutilmente, a Manaos Improvements, por 10.500 contos de réis – o preço do Teatro Amazonas. A história do Amazonas é um acúmulo de loucuras corruptas.[235]
 
            A diversificação apresentada no romance O amante das amazonas em relação às demais obras ficcionais do “ciclo da borracha” refere-se tanto a um tratamento mais aprofundado e crítico sobre o tema quanto a uma renovação do código lingüístico-literário. Através do procedimento parodístico, aspectos muitas vezes tratados superficialmente ganham uma nova interpretação como já demonstramos no que diz respeito à versão do relacionamento do autóctone com o explorador e à colocação do seringalista em um contexto mais amplo do ciclo.
            Ao mesmo tempo, imagens desgastadas são acrescidas de novos conteúdos como, por exemplo, a do estado de solidão dos seringueiros, isolados na selva. Geralmente postos em um nível animal, que também o romance destaca (“tinham virados bichos”), recebem, por outro lado, o perfil de seres mecânicos, “[...] movidos por um interno aparelho de corda [...][236], que significa pôr em evidência a negação de sua existência como seres vivos e demonstrar a condição de objetos em foram tomados.
            A espoliação dos seringueiros é destacada, mesmo sem a enumeração das atividades diárias do seringal. A discussão sobre o sistema de exploração seria-se em frases curtas que podem ser tomadas como fragmentos de discursos que põem em antagonismo duas visões de mundo: a do explorador, calcada no lucro, e a do nativo, baseada na subsistência. Assim também se acentua a paródia que toma o discurso do outro sob forma de pergunta para problematizá-lo: “[...] O leite se tornava negro, ao meu contato. A agricultura não casa com a seringa? Produz o que consome? [...]”.[237]
            Em categorias da narrativa, como o foco narrativo, o tempo, o enredo e as personagens, está concentrada a renovação do plano de expressão de O amante das amazonas. Sobre o foco narrativo (narrador) já fizemos considerações. O tempo e o enredo, por sua vez, são categorias interdependentes, a mudança numa, acarreta conseqüentemente mudança na outra. Comprovando uma orientação que norteia todo o romance, a auto-explicação, o enredo pode ser melhor entendido se tomarmos um trecho em que a personagem Frei Lothar rememora os saraus promovidos por Pierre Bataillon, nos quais o Frei tocava violino, atrasando o movimento, e Pierre, piano: “[...] Aquela sonata tem um módulo que se repete, e sobre esse par de notas Beethoven vai construindo a intriga, uma trama de perguntas e respostas, indagações, uma seriação de questões amorosas, apaixonadamente transcendentes que o violino pega e alonga, desenvolvendo, em diálogo com o piano, em rápidas e fortes frases... O segundo movimento conta uma história curta e simples, conseqüência da anterior, que o violino repete, reconta, reforça, concorda, apoia e retoma. O violino entra com alma...”[238] Esse trecho detalha a construção do enredo do romance. O primeiro movimento da sonata refere-se à primeira parte da história em que o narrador evoca o fastigioso império de Pierre Bataillon e as personagens que estão a sua volta; o segundo movimento, conseqüentemente, refere-se à segunda parte da história em que ruído o império do látex, a narrativa passa a enfocar Manaus em seu estado de decadência física e humana. São sintomas dessa decadência o arruinado aviador Juca das Neves e sua mulher, D. Constança. Como o andamento do piano de Pierre e do violino de Frei Lothar que não se desenvolvem no mesmo compasso, essas duas partes da história, apesar de interligadas pelos aspectos apogeu e decadência do ciclo, seguem uma estruturação diferente. O universo mítico evocado em capítulos como “Numas” e “Ratos”, na primeira parte da história, não encontra lugar na cidade, o espaço da vida pretendida racional. É de se notar que na segunda parte os acontecimentos da narrativa se apresentam de forma menos desordenada e fragmentária do que na primeira parte, marcada não somente pela quebra da relação causal entre os capítulos como também pela descontinuidade das ações das personagens ou da seqüência de acontecimentos. Em relação ao enredo, portanto, o romance não tece seqüencialmente as ações como ocorre no romance tradicional. A atração que esse enredo exerce não é, por conseguinte, pelos encadeamentos de episódios que caminham para a solução de um ou mais conflitos, mas justamente pelo estranhamento da  disposição estrutural da narrativa.[239]
            A categoria tempo implicada na disposição do enredo é igualmente tratada sob uma perspectiva inusitada no romance. Primeiramente, devemos ressaltar que o tempo do romance tem um caráter psicológico porque é tempo da memória, da lembrança, e daí a fragmentação do enredo em virtude do que o narrador pode e quer lembrar. Quando o narrador enuncia, na abertura do primeiro capítulo: “Nós nos despedimos na Cancela sob a primeira luz da madrugada do Natal de 1897 – eu e minha mãe, nunca mais a vi - na presença de todos que ali estavam e de quem me não quero lembrar no povoado de Patos em Pernambuco, de onde parti com duas mudas de roupa na mala [...]”[240], temos preliminarmente a noção de que os fatos a serem narrados pertencem ao passado pela indicação dos verbos no tempo pretérito e pela referência à condição de lembrança.
O tempo pretérito, contudo, como indicador de uma ação decorrida, deve ser tomado com cautela no plano ficcional. Nunes alerta, baseado em argumentos de Kate Hamburger e Harald Weinrich, que “[...] na ficção criamos personagens, Eus fictícios originais, que se movem num plano de existência estética, relativamente ao qual as enunciações perdem o alcance factual de registros da experiência [...].[241] Desse modo, a ficção não se guia pela mesma lógica da gramática, que é a lógica do mundo real. O uso do tempo pretérito não indicaria uma ação passada, mas uma ação contada: “[...] O pretérito assinala que há narrativa e não o fato de que esta se realiza para trás no tempo que passou.”[242] Como exemplo de que não se narra necessariamente aquilo que já ocorreu estão as obras de ficção científica que também empregam o tempo pretérito e, por outro lado, situações ficcionais em que, mesmo utilizando o pretérito, indica-se que uma ação está se processando.
O narrador narra um tempo passado, atualizando-o no ato da enunciação. Não fala de um passado de forma distanciada, mas se põe em seu momento mesmo. A segunda pessoa do plural inclui narrador e leitor: “[...] Nós retornávamos à elaboração do nosso faustoso passado, nós chegávamos naquela brusca tarde de ouro sem sentido e sem valor em que o Palácio ocupava na sua singularidade todos os detalhes de um aspecto de deslumbrante luz [...].”[243] Trata-se de uma situação mais complexa do que o recurso da retrospecção por meio da analepse em que o recuo narrativo “[...] é feito numa exposição separada, interrompendo a ação principal, que volta ao seu curso quando aquela termina [...]”.[244] O narrador aproveita-se do tempo lingüístico em que dialoga com o leitor a partir de um agora para dar ao passado um caráter de ubiqüidade; fazê-lo acontecer como presente ficcional.
A personagem é uma categoria narrativa que tem particular importância em O amante das amazonas e por isso não podemos deixar de considerar a concepção que Rogel Samuel expressa sobre ela em seu texto teórico Crítica da escrita: “[...] o próprio da natureza narrativa não é a ação (há romances sem ‘ação’, ou de ação reduzida [...] o próprio da natureza narrativa não é a ação, mas o personagem como nome (o ‘pai’, a ‘Capitu’, o ‘Peri’, a ‘Ceci’) como material sêmico desta moldura catalogável de rótulos, deste fichário do dito sobre o personagem”.[245] Na própria seleção dos capítulos do romance, estampa-se a proeminência que têm as personagens, uma vez que dos 23 capítulos que compõem o romance, 6 levam como título nomes de personagens (Paxiúba, Ferreira, Júlia, Frei Lothar, Ribamar, Benito). Ademais, os capítulos “O leque” e “Rua das Flores” podem ser considerados como enunciadores de personagens, pois detêm-se quase que exclusivamente nelas e não numa ação.
A menção feita por Samuel à personagem como material sêmico remete a terminologia proposta por A. J. Greimas em seu livro Semantique Structurale (1965),[246] que está  calcada na concepção semiológica, significativa de um rompimento com a noção de personagem como imitação do ser humano, concebendo-a como signo.[247] Samuel destaca que o texto ficcional é constituído de logros e que o seu logro fundamental é ocultar sua própria condição fictícia. Jogando com uma forma de exposição da personagem oposta a dessa ocultação, o narrador de O amante das amazonas revela o seu caráter ilusório: “Paxiúba na montaria, espetáculo bom de ver, veja-o que ele é de papel, literário [...].”[248]
As personagens, em O amante das amazonas, são emblemáticas tanto em relação ao ciclo quanto ao processo de colonização da Amazônia como um todo. O narrador anuncia essa condição através da personagem Paxiúba, quando a refere como “[...] emblema da Amazônia amontoada e brutal, sombria, desconhecida e nociva [...].[249] Paxiúba carrega a marca de um ser híbrido, filho de um negro barbadiano e de uma índia Caxinauá. Nele se personaliza um duplo: Com os seres que estão no seu mesmo plano, libera taras sexuais: Zilda, mulher do seringueiro Laurie Costa é estuprada e a investida se repete com Maria Caxinauá. Com Zequinha Bataillon, seu senhor, transforma-se num animal domado, dormindo a seus pés:
 
[...] Paxiúba era da confiança de Zequinha, dormia na sua cama, criado desde criança junto dele, adorando-o, como um cão [...][250]
...............................................................................................................................
[...] ele era personalidade do Palácio, chefe do aparelho policial do Seringal, guarda de Zequinha Bataillon, diziam amigo que dormia com o menino, importância capital de bicho. Sendo que Paxiúba armado assassino, com águia e serpente, eliminava quem devia de ser, na sua função de coagir e de matar [...][251]
 
            Pierre Bataillon é outra personagem emblemática e indicial[252] pela significação que acumula de uma cultura hegemônica, assim como também o é Maria Caxinauá pelo que representa de oposição a essa cultura. Engloba a submissão dos Caxinauás, mas também é uma imagem da reação.
            Se o romance apresenta a imponência em Pierre Bataillon, não deixa de vasculhar o fundo de mediocridade e mesquinhez que a ostentação oculta através da personalidade neurótica de D. Constança:
 
D. CONSTANÇA tinha sido educada para ser uma boneca inútil. Exagerara e ficou louca [...] D. Constança se abanava com o leque, como se a queimasse um fogo interior. E tinha péssimo caráter, bastava a pessoa dar as costas para que ela começasse a retaliação. Voz fina, língua viperina. Olhar de fuzilante ódio. Os seres das classes inferiores eram ‘gentinha’, não existiam [...]
[...] Nunca teve uma amiga. Começava a falar de todas logo que fechava a porta da rua. Falava para Juca das Neves, falava muito rapidamente, a voz nervosa, fina, angustiada. Passava horas e horas em fofocas, maledicências, escondendo-se atrás de portas para ouvir, entreabrindo janelas para espiar. Vestia as pessoas com tudo o que pensava a respeito, a todos nutrindo um ódio que a corrompia por dentro [...]
[...] à medida que foi envelhecendo foi ficando pior. Começou a falar e abanar-se sozinha, sentada na cadeira de balanço onde se abanava e falava até tarde da noite. E sozinha falando, falando, e abanando-se, abanando-se, os olhos se fixaram numa característica sua, que era o “rabo do olho”, como ela dizia, já não olhando de frente para ninguém, não encarando ninguém, o olhar fixo nos lados e cantos das órbitas como se sempre procurasse ver e ouvir algo que se passava pelos lados e atrás, um olhar congelado numa expressão de ódio, e até hoje me lembro dela assim sentada, olhando para os lados e para trás, como cercada de inimigos, abanando-se frenética e falando aflita, falando mal de seres imaginários, de pessoas que já tinham morrido há muito e muito tempo, e sozinha, esquecida...[253]
 
            Por outro lado, o romance ilustra na personagem Benito Botelho o elemento que se recusa a aderir à cultura da ostentação e, por isso, torna-se marginalizado. Na contramão dos hábitos sofisticados, ele anda mal vestido, tem os dentes estragados e esboça uma palidez doentia. A sua ironia “[...] contra os poderosos e contra o tacanho e conservador meio em que vivia [...]”[254] não lhe rendia mais do que o insignificante cargo de revisor do Jornal Amazonas Comercial. No entanto, a sua cultura não era postiça, como poeta e poliglota “[...] lia e falava francês, inglês, alemão e italiano, além de sólidos conhecimentos de grego e de latim. Autodidata, construíra o seu saber: “[...] Conhecedor dos dois mundos, seu domínio ia da Filosofia à literatura, da História à Filologia [...]”.[255] Apesar disso, e talvez por isso mesmo, todos o desprezavam. Contrastando com a simplicidade e o verdadeiro interesse pelo conhecimento de Benito, que não se importava nem com as condições precárias em que morava, com as águas da enchente batendo à soleira da porta do tapiri chamado de casa, onde empilhava livros, estavam os “[...] beletristas da Academia, os homens de letras, juristas de óculos no nariz e paletó impecável, doutores, jurisconsultos, magistrados, desembargadores [...].”[256] A Benito, porém, como opositor nato a tudo o que significavam, era negado o emprego na biblioteca municipal. O narrador destaca o isolamento de Benito na razão direta de sua rebeldia:
 
[...] Ele era a única voz de oposição naquela sociedade louvaminheira, laudatória, servil, risonha e patriarcal [...] Ele era o inimigo da elite de quem Eudócia fora aliada e escrava – ela, porém, grata à patroa, que considerava uma espécie de benção, não compreendia o ódio do sobrinho, ódio de que, por isso, também era vítima.[257]
 
            Frei Lothar que, a exemplo de Benito Botelho, dá nome ao capítulo, constitui personagem que recebe especial atenção no romance. Como missionário, acumula um diálogo com as demais obras do ciclo que quase unanimemente se voltam à representação dessa personagem e está rigorosamente ligado ao processo de colonização da Amazônia.
            Essa personagem se choca com o papel histórico que Arthur Cezar Ferreira REIS atribui aos missionários na Amazônia:
 
Empresa de titãs, a conquista espiritual da Amazônia empreendida pelos franciscanos de Santo Antônio, Salezianos, beneditinos, padres do Espírito Santo, agostinianos, dominicanos, padres servos de Maria, capuchinos, barnabitas, padres do Preciosíssimo Sangue, está constituindo um capítulo dos mais memoráveis e dignificadores da espécie humana na história da civilização contemporânea.[258]
 
            A disposição de um titã seria o aspecto mais improvável a se atribuir à personagem Frei Lothar. No capítulo dedicado a ela, o primeiro destaque é a sua triste figura. Sem denodo algum, o frei encontra-se vencido pelo cansaço de uma tarefa inglória: “[...] Oh, meu Amazonas! Deus é grande mas a Floresta é maior, e eu já não sou o mesmo.”[259] A conquista espiritual que teria o Frei de empreender, por sua vez, acha-se ameaçada pelo abalo das convicções religiosas e pela enumeração de fatos contingenciais que perturbam a sua missão: “[...] O Frei perdera a fé, falava grosso, cuspia no chão, andava armado, tinha mau humor e mau cheiro [...].”[260]
            Frei Lothar e Benito Botelho se aproximam enquanto seres inadaptados num espaço. Tal como Benito, Frei Lothar é repudiado, execrado porque abomina a sociedade onde vive, os seus modos requintados, mas sem autenticidade. É o oposto desse requinte, tem maus modos, escarra no chão, fala palavrões e age com rebeldia, odiando a classe dominante, a religião, a fé porque não as vê produzirem nada verdadeiramente útil para a vida. Como religioso, o que viu toda a vida “[...] não foi Deus: Foi a dor, a dor e a morte, a miséria e a desolação [...].”[261] Frei Lothar só encontra prazer na música, como Benito só pode encontrá-lo nos livros:
 
[...] Frei Lothar se levantou com esforço, saiu dali e foi ao camarote de onde veio com o violino. Sentou-se. Ia estudar até o sono chegar. Era a Segunda Partitura de Bach, que sabia de cor, mas nunca conseguia superar certas dificuldades. Tocava sem a partitura. Estudava sem a partitura, no escuro, dentro do vento veloz. Sozinho. Sem partitura e sem luz, sem ninguém. Oh! No Amazonas era assim. O Amazonas não tinha partitura, não tinha luz, nem ninguém. O Amazonas era uma imensa planície de miséria [...][262]
 
            Frei Lothar e Benito são duas personagens que remetem à degradação. Não em virtude da derrocada econômica do ciclo, mas por uma inadequação a um modo de vida baseado num simulacro: um desenvolvimento econômico ilusório, um projeto fictício de civilização.
            O relevo que têm as personagens em O amante das amazonas aparece destacado no final do romance, que ao invés de remeter para um desfecho do enredo, faz um encadeamento de personagens no tom dos antigos narradores:
 
[...] não se esqueça dessa história tão bonita do amante das amazonas. A Amazônia é um certo lugar fantástico que também está no fim, mas quando sonhar sonhe com o Igarapé do Inferno se indo por dentro daquele pântano, passando pelo Palácio Manixi de grande memória, com o jovem Zequinha Bataillon. Lembre-se de Maria Caxinauá, do bugre Paxiúba, de Benito Botelho, de Pierre Bataillon ao piano e de sua Ifigênica Vellarde. Não se esqueça de Antônio Ferreira, da maacu Ivete, da Conchita Del Carmen, de Juca das Neves e D. Constança, sua mulher, e do Comendador Gabriel Gonçalves da Cunha. Mas de Frei Lothar e de Ribamar de Souza, que assim se vai nesse vosso Narrador que desaparece, neste ponto.[263]
 
            O comentário do historiador Arthur Cezar Ferreira Reis sobre a conquista espiritual da Amazônia apresenta-se menos contundente para entendermos a participação do missionário na Amazônia do que o ser de papel que é Frei Lothar. Vemos que a missão de Frei Lothar não depende apenas de um arrojado pioneirismo, ele luta com os empecilhos naturais, a lama, o calor, os mosquitos e com a própria inviabilidade de justificação da conquista porque não crê nela. Por intermédio do discurso ficcional, portanto, promove-se uma percepção mais autêntica do real, para a qual chama atenção Samuel, baseado na tese de Jean-Paul Sartre em A imaginação: “A literatura fala do mundo, através de uma imagem que é outro mundo. Só aprendemos o real se sairmos do real, pela imaginação [...]”[264] Por outro lado, a visão do historiador Arthur Cezar Ferreira Reis é ideologicamente convincente, transmite um discurso oficializado pelos conquistadores na Amazônia, que a literatura tem a capacidade de desmontar.
            Samuel explicita que sair do real pela imaginação não significa se pôr além do real dado no mundo, ao destacar que o discurso não se separa do mundo, “[...] o discurso só pode falar de uma única coisa: Do mundo [...].”[265]
            A postulação que Samuel apresenta em Crítica da escrita é coerentemente realizada em O amante das amazonas à medida que se verifica a apresentação do discurso literário como arte imaginativa, revelada, metalingüisticamente, através do narrador que se anuncia como fingido; do caráter irreal (ficcional) das personagens apresentado no próprio texto e do nível simbólico do texto que apresenta relações solicitadoras da busca do sentido do que não está explicitamente dito. Por esses caminhos o romance atinge um nível de criticidade na abordagem do evento histórico do “ciclo da borracha”.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 

 

 

 

C O N C L U S Ã O

 

            Alejo Carpentier argumenta que quando não há experimentação, diversificação, uma novelística não evolui.[266] Essa constatação pode ser tomada como válida para o conjunto de obras ficcionais sobre o ciclo econômico da borracha no Amazonas. Durante um século, a maioria das obras apresentou pouca inovação. Entretanto, mesmo sob uma constância de abordagem, algumas obras realizaram um grau de diversificação, seja pelo teor de aprofundamento que conseguiram desenvolver em relação às demais, seja pela quebra de estereótipos sempre retomados, seja por uma renovação profunda no tratamento conteúdístico do tema e no tratamento estético.  

            Com base nessa diversificação, propusemo-nos a estudar três obras que reúnem características afins: A selva, de Ferreira de Castro, Beiradão, de Álvaro Maia, e O amante das amazonas, de Rogel Samuel. A primeira dessas características é o contato e a experiência do escritor no mundo do seringal, que tomamos não como negação de trabalho inventivo do escritor, mas como possibilidade de verificação das determinações dessa condição de experiência em cada obra.

Procedendo a divisão de três fases em que foram produzidas as obras mencionadas, obtivemos um indicador que permitiu a dedução de que as obras do ciclo apresentam uma característica temporal, ligando-se a manifestações estéticas de sua época. Ainda assim, à exceção da terceira fase, ocorreu um contínuo de abordagem: o enfoque maniqueísta, o que evidencia que as obras, mesmo distanciando-se no tempo, mantiveram uma aproximação. Consideramos, portanto, que o tempo influiu menos do que a repetição dos estereótipos para a não diversificação das obras.

            Não é o tempo em que são publicadas as obras um critério de fundamental importância para a diversificação temática e estética. A obra de Ferreira de Castro, enquanto representante da primeira fase, por se situar num determinado período de publicação, extrapola o critério temporal e as limitações dessa fase por apresentar um conjunto documental bem constituído. O tempo também não significa que uma obra publicada praticamente no século XXI torne-se moderna em relação ao tema que aborda ou demonstre um trabalho de re-elaboração da expressão narrativa. Esclarecendo essa observação, está o romance Látex, de Marco Adolfs, (2000) que, apesar de não se centralizar nos estereótipos comuns a outras obras, não realiza uma criação ficcional contundente.

A primeira característica – a experiência - a partir da qual selecionamos as três obras tem um fator decisivo para suas criações. Ferreira de Castro produziu A selva, compelido pela emergência de registrar a sua experiência no mundo do seringal. Essa experiência difícil e inusitada para o escritor em sua adolescência só se amenizou como um fantasma de sua lembrança quando pôde extravasá-la sob a forma de criação ficcional, mas o autor destacou, em prefácio ao romance, que a vivência no seringal, motivadora da obra, não significou reprodução de sua vida particular.

Álvaro Maia foi igualmente impulsionado pela experiência de vida que compreende o nascimento e a vivência durante a infância no seringal na criação de Beiradão. Os dados de sua vida e da representação ficcional de sua obra estão tão próximos que se pode seqüênciá-los. A saga de Fábio, personagem central de Beiradaão, é a mesma do pai de Álvaro Maia, com suas características peculiares como o rompimento do sacerdócio, a vinda para o Amazonas banido pela seca, o casamento com a filha de um seringalista também oriunda de educação religiosa. O filho desse casal vem a ser a representação do próprio autor. Pode-se dizer que o autor inseriu na obra os seus dados familiares, dando-lhes nomes fictícios. Além da experiência do mundo do seringal, Álvaro Maia introduziu na ficção a sua experiência na política. Essas, portanto, são as bases em que se assentam a criação ficcional de Álvaro Maia.

Rogel Samuel teve também a experiência como ponto de partida para a sua criação. Não se verifica, nesse caso, uma experiência direta, mas o legado da memória familiar, do avô, rico comerciante da borracha; do pai, Albert Samuel, que reuniu relatos do ciclo econômico em Jaguareté, o guerreiro, e do tio, M. Samuel, proprietário do barco Adamastor, referido na ficção e reproduzido através de foto na capa e contracapa do romance, num acréscimo fotográfico que compõe uma ambientação extra-textual para o romance. O trabalho de invenção a partir da memória é destacado no comentário de apresentação do romance, cerceando a análise apenas biográfica da obra: os dados ficcionais que coincidem com os dados biográficos são, ainda,  “mera coincidência”.

Na realidade, as três obras estão significativamente ligadas à memória como ponto de partida da criação ficcional. A memória do escritor, como ser real, sempre se imprime nas obras, o que varia é sua menor ou maior intensidade. Agregando essa memória à invenção ficcional, consciente ou inconscientemente, os escritores deixam em suas obras fragmentos do que é infinitamente intenso.[267]

É preciso ressaltar que um fator distintivo na obra de Ferreira de Castro é a proximidade da experiência no seringal ao trabalho de criação da obra. O autor viveu no seringal Paraíso de 1912 a 1913 e escreveu A selva em 1929, dezesseis anos depois, portanto, de sua estada no seringal. Como ele próprio informa, as sensações que lhe imprimiram essa experiência estavam vívidas em sua lembrança e os momentos de dificuldades que passou em Portugal, antes de escrever a obra, tornaram-na mais presente:

 

Foi esse momento tão extraordinariamente grave para meu espírito, que desde então não corre uma única semana sem eu sonhar que regresso à selva, como, após a evasão frustrada, se volta, de cabeça baixa e braços caídos, a um presídio. E quando o terrível pesadelo me faz acordar, cheio de aflição, tenho de acender a luz e de olhar o quarto até me convencer de que sonho apenas [...][268]

 

            O seringal, para Álvaro Maia, está marcado pela experiência de seus pais e essa talvez seja a principal causa de reproduzir os dados biográficos deles em Beiradão. Maia deixa o seringal ainda jovem para fazer os estudos em Manaus e depois no Rio de Janeiro e, quando retorna, praticamente já ingressa na carreira política que o manterá afastado do seringal, enquanto ambiente. Essa situação justifica o enredo de Beiradão se construir quase todo em torno de Fábio, representação ficcional do pai do autor, e só focalizar no fim do romance o filho da personagem Fábio, que corresponde ficcionalmente a Álvaro Maia. Entretanto, não se deve perder de vista que as concepções da personagem Fábio estão imbuídas da visão política de Álvaro Maia. Outro fato a ser considerado é que embora  Álvaro Maia não tenha permanecido a maior parte da vida no ambiente do seringal, uma vez que os cargos políticos exigiam sua presença na cidade, o tema do seringal é constante em tudo o que escreveu. Por outro lado, sua proposta de alternativa econômica ao extrativismo da borracha e a construção ficcional da mudança do perfil do seringalista têm menos apoio na vivência do seringal do que na plataforma política estado-novista.

Os três autores escreveram após o declínio do ciclo, mas tanto Ferreira de Castro quanto Álvaro Maia têm próxima a significação do processo econômico. Maia escreveu Beiradão em 1958, quando a Campanha da borracha promoveu um fugaz interesse pela extração do produto.

O contexto histórico de cada autor deu o matiz de suas obras. Com Ferreira de Castro, esse contexto histórico-literário é o Neo-realimo português e a defesa dos postulados de justiça social claramente declarados pelo engajamento dos neo-realistas. O  desfecho da obra aponta para esse desejo de justiça , de eliminação da opressão. Entretanto, os ideais socialistas subjacentes na obra de Ferreira de Castro apresentam uma contradição na sua visão sobre o meio amazônico, acentuada no determinismo com que avalia as injustiças sociais deflagradas no mundo do seringal, em que tanto o explorador quanto o explorado acham-se condicionados pelos implacáveis ditames do meio amazônico , que os animaliza e justifica todas as perversões do ciclo econômico.

O perfil alternativo do seringalista descrito na personagem Fábio, em Beiradão, tem origem no posicionamento político de Álvaro Maia e, ao mesmo tempo, é um a discussão presente na época de publicação de seu romance, uma vez que nessa época setores da sociedade amazonense faziam uma reavaliação do ciclo econômico da borracha , apontando as suas falhas e aventando uma possibilidade de soerguimento da economia local. Destacamos que Álvaro Maia adere em sua obra à percepção de setores conservadores da historiografia amazonense, endossando posições ideológicas como a do historiador Arthur Cezar Ferreira Reis que vê o processo de desbravamento da região amazônica e a espoliação promovida pela estrutura econômica do ciclo como naturais ou como conseqüência do barbarismo do meio ambiente.

 

A opção por contar um tempo da memória é condizente com a época em que Rogel Samuel escreve seu romance. Em 1992, o “ciclo da borracha” faz parte de uma memória em ruína. No romance, a voz do narrador destaca essa condição da memória perdida: “[...]a minha descrição corresponde ao que era o Palácio há muitos anos na minha mocidade e na  proliferação da minha memória perdida, ah, sim, porque estou velho mas não estou louco, e as ruínas no meio da floresta lá estão como cultura e  substância ainda para confirmar a existência e elaboração[...]”[269] 

O amante das amazonas rompe com o determinismo enfocado pela estética naturalista , verificado em A selva e Beiradão, desvelando as reais condições sobre as quais se assenta o processo de exploração econômica da borracha: a emergência do capital internacional de conquistar novos mercados para torná-los subsidiários dos grandes mercados, que é a verdadeira determinante das relações econômicas do ciclo. A obra de Rogel Samuel acumula toda uma herança de percepções e interpretações ficcionais sobre o ciclo e por isso se confronta com as obras de Ferreira de Castro e Álvaro Maia.

Em termos de conteúdo e de estruturação, os romances A selva, Beiradão e O amante das amazonas representam uma diversificação gradual do tema do ciclo na ficção amazonense. A selva atinge essa diversificação por se constituir numa narrativa bem realizada sobre o processo econômico, reunindo e organizando os seus principais fatores. E, até o ponto em que não incorre na contradição aqui apontada, evidencia a dialética desse processo.

Beiradão, discutindo o papel do seringalista, faz um corte na caracterização maniqueísta que se tornou habitual nas obras que o antecederam e que ainda é acentuada em algumas obras posteriores. O romance não contribui criticamente para o entendimento profundo do ciclo econômico em virtude de promover uma diversificação que está subordinada a um posicionamento político do autor e não a uma proposta de reavaliação do discurso literário em torno do ciclo. Conquanto não realize plenamente essa reavaliação, contribui com alguma matéria nova em torno do tema através do acréscimo de sub-temas da vida interiorana amazonense.      

Ainda que as três obras se encontrem distanciadas no universo de produção ficcional do ciclo, há um diálogo entre os autores. Esse diálogo tem uma certa pessoalidade entre Ferreira de Castro e Álvaro Maia, que se comunicam para uma troca de amabilidades.

Álvaro Maia faz referência ao romance de Ferreira de Castro em seu livro de narrativas, Gente dos seringais, enviando-lhe um exemplar. Ferreira de Castro lhe responde com uma carta escrita em Lisboa, datada de 20 de dezembro de 1956, agradecendo a referência a sua obra e a sua pessoa e também fazendo elogios ao livro de Álvaro Maia, considerando-o como de grande beleza formal e, principalmente, evocador do mundo do seringal, que Ferreira de Castro consegue reviver através da obra.[270]

Rogel Samuel, por sua vez, empreende um diálogo ficcional com Álvaro Maia, pois representa o autor na personagem Abraão Gadelha, de O amante das amazonas, fazendo uma avaliação crítica e irônica das relações políticas amazonenses. O diálogo que empreende é, por isso, de caráter parodístico.

Através desse estudo, procedemos a uma comparação orientada não apenas para a busca de semelhanças entre as obras. Consideramos, com Flávio Kothe, que o estudo comparativo carrega identidades e diferenciações:

 

A comparação é uma busca de igualdades, para acabar num encontro de desigualdades, de não-igualdades. Como busca de igualdades, enquanto identidades abstratas, ele precisa superar-se para chegar  a semelhanças e diferenças concretas. Ela parte de uma abstração : de que se pode aproximar o semelhante e o que se distancia  por suas diferenças, ou  que até se repele por suas semelhanças. Por outro lado, ela é propiciada por aspectos idênticos, que tendem a acabar se revelando como diferenças e até diferenciações intencionais. [271]

 

Rogel Samuel chama a atenção de que a abrangência de sentidos promove o enriquecimento do texto ficcional: “O valor do texto está em que não se lhe pode dar um sentido pleno, conclusivo, mas sim deixar falar diversas vozes numa pluralidade de discursos”[272] A obra O amante das amazonas solicita um estudo vertical pela gama de sentidos que agrega (filosófico, psicanalítico, lingüístico e histórico). Esse estudo deverá pôr em evidência correlações que as demais obras deixam de proceder e possibilitar além de um entendimento profundo do ciclo econômico da borracha uma melhor compreensão também do processo de colonização da Amazônia. Este estudo, porém, não se comporta nos limites deste trabalho. Poderá ser realizado por intermédio de uma análise exclusiva da obra.                

     

 

B I B L I O G R A F I A

 

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[1] Leandro Tocantins é enfático sobre a criação do estado do Acre e sua relação com o ciclo da borracha: “[...] Acre e borracha confundem-se no mesmo processo histórico. Sem borracha o Acre não seria brasileiro, a menos que surgisse outro produto-rei capaz de emprestar à terra a mesma fascinação econômica [...]” (Formação histórica do Acre,  v.1, p. 31).
[2] O tratado de Petrópolis, de 1903, assinado pelo Brasil e a Bolívia, estabelecia o direito brasileiro sobre os 190.000km2 que compreendiam o Estado do Acre e também continha uma cláusula prevendo a construção da ferrovia Madeira-Mamoré. A ferrovia seguiria às margens do rio Madeira e possibilitaria uma ligação com a região onde foi fundada a povoação de Porto Velho, solucionando o problema de transpor o trecho por via marítima, uma vez que uma seqüência de vinte cachoeiras impossibilitava a navegabilidade desse trecho. Através da ferrovia, a Bolívia pretendia atingir um trecho navegável, alcançando o Oceano Atlântico. A construção da ferrovia seria um negócio rentável para o americano Percival Farquhar que conseguiu do governo brasileiro a concessão da estrada por sessenta anos e a autorização para explorar os seringais localizados próximos ao eixo da ferrovia. (Cf. Violeta R. LOUREIRO, Estudos e problemas amazônicos, p. 33-4).
[3] A ficção do ciclo das secas estabelece relações com a ficção do “ciclo da borracha”. Num trecho do romance O quinze, de Rachel de Queiroz, a personagem Chico Bento revela o anseio de uma vida melhor que caracterizou a vinda de muitos nordestinos para a Amazônia: “A voz lenta e cansada vibrava, erguia-se, parecia outra, abarcando projetos e ambições. E a imaginação esperançosa aplanava as estradas difíceis, esquecia saudades, fome e angústias, penetrava na sombra verde do Amazonas, vencia a natureza bruta, dominava as feras e as visagens, fazia dele rico e vencedor” (s.d., p. 30).
[4] Samuel Benchimol informa que a Amazônia recebeu, no período de 1877 a 1920, 300.000 imigrantes nordestinos (Amazônia: formação social e cultural, 1999, p. 136). Antônio Loureiro, entretanto, observa que esse número poderá ser ultrapassado através de novos estudos (Antônio J. S. LOUREIRO, Amazônia: 10.000 anos, p. 167).
[5]Arthur C. F. REIS, O seringal e o seringueiro,  p. 80.
[6] João B. RODRIGUES, As heveas ou seringueiras: informações, p. 7-8.
[7] Ibid., p. 7-8.
[8] CF. Leandro TOCANTINS,  Amazônia: natureza, homem e tempo, p. 98.
[9] Arthur C. F. REIS, O seringal e o seringueiro,  p. 104-5.
[10] Sobre esse aspecto, Arthur Reis comenta: “[...] Todas as energias se deslocaram das tarefas agropecuárias para a extração do látex das héveas, num regresso vertiginoso à etapa por que se iniciara o processo econômico da região [...]” (Ibid., p. 41). Samuel Benchimol ressalta que, em virtude da febre do enriquecimento fácil, o ciclo da borracha não poderia promover estabilidade na terra: “[...] Homens à procura de fortuna, não à procura de terra. Daí a instabilidade, nervosismo, palpitação. É a borracha na sua função atrativa, fazendo ‘foco de apelos’ ou antes, dando ‘apetite de seringa’,  na gíria do imigrante [...] (Romanceiro da batalha da borracha,  p. 38).
[11] “As condições de acumulação e crescimento do capital na economia da borracha não foram potencializadas de modo a permitir um avanço da divisão social e técnica da produção. Esta, limitada pela concentração de interesses na monoprodução e pelo sistema de aviamento, apresentava-se num quadro insignificante e incapaz de transformar qualitativamente o padrão econômico [...]” (Eloína M. dos SANTOS, A rebelião de 1924 em Manaus, p. 31)
[12] Antônio J. S. LOUREIRO, Amazônia: 10.000 anos,  p. 172-3.
[13] Segundo Manoel J. de Miranda Neto, “[...] dá-se o aviamento quando ‘A’ (aviador) fornece a ‘B’ (aviado) certa quantidade de mercadorias (bens de consumo e alguns instrumentos de trabalho) ficando ‘B’ de resgatar a dívida com produtos agrícolas ou extrativos da próxima safra, em espécie; havendo saldo credor, ‘B’ recebe dinheiro; se o saldo é devedor, ‘B’ fica debitado até a safra seguinte. Mas ‘B’, uma vez aviado, pode tornar-se aviador de ‘C’, e assim por diante; o único aviado que não pode ser aviador é o produtor, isto é, o lavrador ou o extrator que trabalha na terra ou colhe os produtos da floresta e que é obrigado a vendê-los a um só comprador (monopsônio).” (O dilema da Amazônia,  p. 54).
[14] Samuel BENCHIMOL, Amazônia: formação social e cultural, p. 73-74.
[15] Leandro TOCANTINS, Amazônia: natureza, homem e tempo, p. 110.
[16] Arthur C. F. REIS, O seringal e o seringueiro, p. 174.
[17] Ibid., p. 224.
[18] Samuel BENCHIMOL, Amazônia: formação social e cultural, p. 142.
[19] Enlaçados por um sistema em que se tornavam dependentes dos aviadores e esses, por sua vez, dos importadores-exportadores, cabia aos seringalistas relacionarem-se diretamente com o extrator do látex. Os seringalistas mantinham o seringueiro sob sua rígida dependência. Para alcançar sua posição, este precisaria passar por uma longa experiência nos seringais, em muitos casos atravessando gradativamente as posições de seringueiro, mateiro, comboieiro, pesador, classificador, capataz, auxiliar de escrita, gerente de balcão, arrendatário de estradas e colocações.
[20] Samuel BENCHIMOL, Romanceiro da batalha da borracha, p. 97.
[21] Ibid.,  p. 97.
[22] Ibid., p. 98.
[23] Ibid., p. 99.
[24] Samuel BENCHIMOL, p. 102.
[25] Ibid., p. 102.
[26] Ibid., p. 103-4
[27] Antônio J. S. Loureiro registra que os primeiros imigrantes cearenses e maranhenses chegaram ao baixo Purus e a Codajás na segunda metade do século XIX. O município de Lábrea foi atingido em 1871 pelos imigrantes nordestinos, seguido de Canutama em 1874, Boca do Acre e Antimari em 1878. Em 1882, os nordestinos já estavam no Acre boliviano onde fundaram o seringal Empresa que daria origem a Rio Branco, configurando a ocupação do território por brasileiros. A penetração no rio Juruá atingiu Carauari e Eirunepé em 1890; Cruzeiro do Sul em 1904; Feijó em 1906 e Tarauacá em 1907 (Amazônia: 10.000 anos, p. 167).
[28] João B. RODRIGUES,  As heveas ou seringueiras: informações,  p. 34.
[29] Antônio J. S. Loureiro destaca que com o advento da imigração nordestina “a cultura amazônica colonial transformou-se na cultura amazônico-nordestina, resultante do equilíbrio entre o elemento nativo e o migrante nordestino, que se adaptava e se incorporava à região, a ponto de serem raros os habitantes do Amazonas, que não possuam sangue ‘cearense’ em suas veias” (Amazônia: 10.000 anos, p. 156).
[30] Samuel BENCHIMOL, Romanceiro da batalha da borracha,  p. 141.
[31] Segundo Arthur C. F. Reis, os gaiolas eram navios a vapor construídos na Inglaterra, Holanda, Dinamarca e Estados Unidos. Apropriados para a navegação na região amazônica, possuíam as laterais abertas para possibilitar o arejamento. O nome desses barcos viera do hábito de os passageiros amarrarem redes uma por cima das outras semelhando uma gaiola. Os vaticanos eram gaiolas de maior porte que lembravam aos seringueiros, pelo porte, a residência papal e daí receberem essa denominação. Ao gaiola que possuía fundo chato, dava-se o nome de “chata” ou “chatinha” quando possuía menor porte. O autor observa que os porões, onde viajavam os passageiros de terceira classe, cheiravam mal e ostentavam “uma promiscuidade aterradora [...]” (O seringal e o seringueiro,  p. 198-99).
[32] “Brabo” era a alcunha que recebia o nordestino inexperiente na operação de coleta do látex e desconhecedor das particularidades do meio em que era recém-chegado. Quando, enfim, dominava as técnicas do trabalho e adquiria independência para se movimentar no meio, reconhecendo-lhe os perigos e os segredos, o nordestino passava a receber a alcunha de “manso” e já podia ser considerado seringueiro.
[33] Manoel José de MIRANDA NETO, O dilema da Amazônia,  p. 45-6.
[34] Arthur C. F. REIS, O seringal e o seringueiro, p. 178.
[35] Os números estão divulgados em Arhtur C. F. REIS, O seringal e o seringueiro, p. 111.
[36] Ana Maria DAOU, A belle époque amazônica,  p. 23.
[37] Maria de Nazaré SARGES, Belém: riquezas produzindo a belle-époque (1870-1912), p. 21.
[38] Maria de Nazaré SARGES, Belém: riquezas produzindo a belle-époque (1870-1912),  p. 21.
[39] Entre essas obras, estão o Teatro da Paz, o Mercado Municipal do Ver-o Peso, o Palacete Bolonha, o Palacete Pinho.
[40] Maria de Nazaré SARGES, Belém: riquezas produzindo a belle-époque (1870-1912),  p. 83.
[41] Apesar de essas mudanças indicarem que a cidade passava a ter melhores condições de higiene e a desfrutar de mais opções de lazer, Maria de N. Sarges destaca que “a expressão modernizadora de Belém subordina-se mais às necessidades econômicas do que aos objetivos práticos, ou seja, ao atendimento das necessidades básicas da população” (Ibid., p. 138). Acentuando que as medidas saneadoras e remodeladoras do espaço urbano visavam atender principalmente aos grupos enriquecidos pelos lucros da borracha, a autora ressalta: “[...] Entretanto, todo esse ‘progresso’ era localizado e dirigido à área central da cidade, onde habitava a elite local e parte da classe média nascente” (Ibid., p. 142).
[42] Márcio SOUZA, Galvez, imperador do Acre,  p. 32-3.
[43] Ana Maria DAOU, A belle époque amazônica,  p. 34.
[44] Eduardo Ribeiro assumiu o governo provisório em 1890, quando Augusto Ximenes de Villeroy  teve de se afastar por motivo de doença de sua esposa. Já em 1891, Eduardo Ribeiro é exonerado do cargo. Em 1892, volta ao governo para um período de administração que irá até 1896. É nesse período que Ribeiro realiza as obras que iriam transformar a vila em cidade (Cf. Agnelo BITTENCOURT, Dicionário amazonense de biografias: vultos do passado,  p. 194-196).
[45] Ana Maria DAOU, A belle époque amazônica, p. 36.
[46] Márcio SOUZA, Breve história da Amazônia,  p. 139-140.
[47] Antônio J. S. LOUREIRO, A grande crise (1908-1916), p. 15.
[48] É digno de destaque o fato de que em 1910 cada habitante da Amazônia produzia 14 vezes mais divisas do que os demais brasileiros (Cf. Antônio J. S. LOUREIRO, Amazônia: 10.000 anos,  p. 177).
[49] Optamos pela grafia Wickham por ser a mais freqüente nos textos pesquisados. Dentre esses textos, a grafia Wickmam é empregada  por Arthur Cezar Ferreira Reis, Cosme Ferreira Filho e Samuel Benchimol.
[50] Cosme FERREIRA FILHO, Amazônia em novas dimensões, p. 155.
[51] Samuel BENCHIMOL, Amazônia: formação social e cultural, p. 218-219.
[52] Esse romance foi publicado posteriormente (1934) com o título de Terra de Icamiaba.
[53] José Maria FERREIRA DE CASTRO, A selva,  p. 117.
[54] José Maria FERREIRA DE CASTRO, A selva,  p. 138-9.
[55] Cláudio de Araújo LIMA, Coronel de barranco, p. 311-315.
[56] Mário Ypiranga MONTEIRO, Fatos da literatura amazonense, p. 297.
[57] Mário Ypiranga MONTEIRO, Fatos da literatura amazonense,  p. 41.
[58] Ibid.,  p. 47.
[59] De acordo com Carlos Reis e Ana C.M. Lopes, a “focalização pode ser definida como a representação da informação diegética que se encontra ao alcance de um determinado campo de consciência, quer seja o de uma personagem da história, quer o do narrador heterodiegético, conseqüentemente, a focalização além de condicionar a quantidade de informação veiculada (eventos, personagens, espaços etc) atinge a sua qualidade, por traduzir uma certa posição afetiva, ideológica, moral e ética em relação a essa informação [...]” (Dicionário de teoria da narrativa, p. 246).
[60] José Maria FERREIRA DE CASTRO, A selva,  p. 101.
[61] Francisco GALVÃO, Terra de ninguém,  p. 89.
[62] JACOB, Paulo Herban Maciell, Dos ditos passados nos acercados do Cassianã, p. 37-8
[63] Segundo pesquisa de Rodolfo Teófilo, até 1910, os nordestinos (seringalistas e seringueiros) enviaram cerca de 30.000 contos de réis para suas famílias. O nordestino que voltava para sua terra enriquecido era chamado paroara Cf. Samuel BENCHIMOL, Amazônia: formação social e cultural,  p. 145.
[64] Euclides da CUNHA, Amazônia: um paraíso perdido, p. 52-3.
[65] Francisco GALVÃO, Terra de ninguém,  p. 83.
[66] Ramayana de CHEVALIER, No circo sem teto da Amazônia,  p. 69-70.
[67] Em teoria da narrativa, dá-se o nome de encaixe a uma seqüência inserida no interior da narrativa principal, compondo uma unidade autônoma, mas não independente, uma vez que guarda relação temática com essa. (Cf. Carlos REIS e Ana M. LOPES, Dicionário de teoria da narrativa, p. 156).
[68] Aristófanes CASTRO, Um punhado de vidas: romance do “soldado da borracha”, p. 72-4.
[69] Cláudio Araújo LIMA, Coronel de barranco, p. 243-247.
[70] Francisco GALVÃO, Terra de ninguém, p. 84.
[71] Francisco VASCONCELOS, Regime das águas, p. 24-5.
[72] Adaucto de Alencar FERNANDES, Arapixi: cenas da vida amazônica, p. 229.
[73] José Maria FERREIRA DE CASTRO, A selva, p. 304-305.
[74] Leandro TOCANTINS, Formação histórica do Acre, v. 1, p. 156.
[75] José Maria FERREIRA DE CASTRO, A Selva, p. 272.
[76] Francisco VASCONCELOS, Regime das águas, p. 28.
[77] Francisco GALVÃO, Terra de ninguém, p. 59.
[78] Cláudio de Araújo LIMA, Coronel de barranco, p. 94.
[79] Francisco GALVÃO, Terra de ninguém, p. 66.
[80] Dos romances amazônicos sobre o ciclo, Terra encharcada, do escritor paraense Jarbas Passarinho, é o único a transformar a revolta dos seringueiros na trama central da história.
[81] Álvaro MAIA, Beiradão, p. 120.
[82] Antísthenes PINTO, Terra firme, p. 17-47.
[83] Euclides da CUNHA, Amazônia: um paraíso perdido,  p. 117-118.
[84] Amazônia: um paraíso perdido, p. 118-119.
[85] Ibid., p. 119.
[86] Ibid., p. 124.
[87] Ibid., p. 125.
[88] No caso de algumas narrativas, esse aspecto chega a ser central. Não obstante, a escassez e a ausência da mulher no seringal são abordadas na maioria das obras referentes ao ciclo. É necessário ressaltar que o aspecto abordado anteriormente – a dicotomia explorador–explorado – está relacionado ao problema da ausência da mulher à medida que é em razão da forma de exploração estabelecida pelos patrões, através dos regulamentos, que a presença da mulher é proibida ou limitada. Ou seja, a ganância do patrão impede a constituição da família a fim de que o freguês, vivendo exclusivamente para a extração do látex, possa produzir mais.
[89] Samuel BENCHIMOL, Romanceiro da batalha da borracha, p. 53.
[90] Alberto RANGEL, “Maybi”  In: Inferno verde, p. 244-5.
[91] Segundo Arthur Cézar F. Reis, os seringueiros encomendavam mulheres aos patrões da mesma forma que encomendavam gêneros alimentícios, utensílios e roupas. Essas ‘encomendas’ entravam na contabilidade feita pelo guarda-livros como as outras mercadorias (O seringal e o seringueiro, p. 241). Márcio Souza critica a mentalidade utilitarista em relação à mulher nos seringais, notando que ela passa a figurar como item precioso na lista de mercadorias. O tratamento da mulher como mercadoria é para o autor tão aberrante quanto o sistema de exploração do trabalho do seringueiro (Breve história da Amazônia, p. 139).
[92] Alberto RANGEL, “Maybi” In: Inferno verde, p. 266.
[93] Cláudio de Araújo LIMA, Coronel de barranco,  p. 255.
[94] Ibid., p. 257.
[95] Carlos de VASCONCELOS, Deserdados, p. 180.
[96] Ibid., p. 199-200.
[97] Ramayana de CHEVALIER, No circo sem teto da Amazônia., p. 75.
[98] Álvaro MAIA, Beiradão, p. 256.
[99] Carlos de VASCONCELOS, Deserdados,  p. 147-8.
[100] Carlos de VASCONCELOS, Deserdados, p. 154.
[101] Ibid., p. 155.
[102] Erasmo LINHARES, O tocador de charamela, p. 95-110.
[103] Adaucto de Alencar FERNANDES, Arapixi: cenas da vida amazônica,  p. 60.
[104] Francisco GALVÃO, Terra de ninguém, p. 153.
[105] Márcio Souza aponta inverossimilhança no romance por este implantar ideais libertários em personagens elitizadas (A expressão amazonense: do colonialismo ao neo-colonialismo,  p. 224).
[106] Criticando a pecha do mau seringalista reiterada pelos ficcionistas, o autor impreca contra essa limitação, observando que ela “cria uma sensação de vaguidade, de sensaboria, de ciclo vicioso, de lugar-comum na sociologia dos seringais [...]” (Fatos da literatura amazonense, p. 79).
[107] Francisco Galvão levantou no seu “Manifesto da beleza”, publicado na revista Belém Nova, em 1923, a bandeira de uma arte nova, sem compromisso com o passadismo, livre da imitação das tendências européias, uma arte renovada. No entanto, era ele próprio um ano antes dessa publicação um praticante dessa arte que passou a repudiar e atribuir aos “bufarinheiros do ofício.”
[108]  Márcio SOUZA, A expressão amazonense: do colonialismo ao neo-colonialismo,  p. 224.
[109]  Djalma BATISTA, Letras da Amazônia In: Amazônia: Cultura e sociedade, p. 32
[110] Lúcia Lippi Oliveira assim comenta sobre a contribuição desse período: “Os anos 30 são, sobremaneira, fecundos. Abrem amplas possibilidades para o debate de idéias e propostas, assim como permitem a implementação de experiências políticas inéditas na vida brasileira [...]” (O romance e o pensamento político nos anos 30 In: PORTELLA et alii., O romance de 30 no Nordeste,  p. 144).
[111] Alberto RANGEL, “Obstinação”  In: Inferno verde, p. 181-207.
[112] Nuno Vieira, que escreveu em 1932 um posfácio para a primeira edição da obra, considera-a não um romance, mas uma alegoria.
[113]Destacamos, a propósito, alguns trechos: “Brasil dos copistas, Brasil rococó, claudicante, impudico e meloso. Brasil do avesso, que a tristeza do luso estragou. Brasil sentimental, que gastou nos sambas da prosa, todo o dinheiro da família. Brasil incapaz de pagar o inglês e de fazer ditadura. Este não presta. O outro, sim. É que é o bom e o indivisível. O moderno. O que é ingênuo para simplificar-se. O que transforma a riqueza, o amor e a saúde, em reservas, para socorrer-se e administrar-se, por si e para si.” (Abguar BASTOS, Terra de Icamiaba, p. 125).
[114] Abguar BASTOS, Terra de Icamiaba  p. 53
[115] As descrições primam por criar um sentido poético: “As árvores estão com febre e deixam cair suas flores faiscantes sobre o chão recamado de sombras”(Ibid.,  p. 99). “As flores amarelas do pau d’arco jogam conféti no poente.” (Ibid., p. 38).
[116] Hélio Viana, em conferência realizada em 1971 no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro por ocasião do centenário de nascimento de Alberto Rangel, defende a originalidade de estilo deste autor, alegando principalmente que seus estudos amazônicos foram anteriores aos de Euclides da Cunha, uma vez que este foi à Amazônia, comissionado pelo Ministério da Relações Exteriores, em missão de demarcação de limites, em 1905, quando Rangel já ali se encontrava. Na verdade, a aproximação que existe entre as obras desses autores não se limita à discussão de quem teve precedência na chegada à região amazônica, nem na data de publicação das obras. Sobre este último fato, basta destacar que À margem da história foi publicada postumamente. As obras de Cunha e de Rangel aproximam-se porque professam em sintonia o discurso positivista sobre o meio amazônico.
[117] Na definição de Mário Ypriranga Monteiro, o absentismo se caracteriza pela falta de vivência que tem o autor do meio que enfoca em sua obra. Dessa forma, ele cria através do talento ou da imaginação ou baseado em conhecimentos que não os da experiência direta. O autor absentista pode ser total ou parcial, sendo o último aquele que, apesar de ter estado no meio que retrata, conheceu-o superficialmente. Monteiro chama a atenção de que o autor absentista também pode criar uma falsa percepção da realidade. Não condena o trabalho de criação do absentista total, mas faz notar “que todo aquele que escreve, mesmo tratando-se de ficção, arca com a responsabilidade de transmitir informações, de ilustrar, ou de recriar estados sociais, de manter-se numa posição de respeito à fidelidade de um compromisso não escrito mas aberto às sanções de fato (e até de direito, não raro), compromisso esse que se espera contenha apreciável volume de interesse honesto em permutar com o leitor, usuário que espera por sua vez encontrar na obra-de-arte um motivo estético ou algo mais que isso, componente satisfatória , uma terapêutica [...]” (Fatos da literatura amazonense, p. 65).
[118]  José Maria FERREIRA DE CASTRO, A selva,  p. 21.
[119] José Maria FERREIRA DE CASTRO,  A selva,  p. 26.
[120] Ibid.,  p. 29-30.
[121] Em “Um romance amazônico”, Humberto de Campos aponta a originalidade de A selva justamente pelo fato de o romance ter sido escrito por um autor que viveu no seringal. Para Campos, somente a vivência neste poderia resultar na sua justa expressão. Comprova a legitimidade da escrita de Ferreira de Castro e absolve-o das críticas de ter sido autor de inverdades, recorrendo a exemplos presenciados por ele próprio como gerente de seringal, demonstrando que Ferreira de Castro não expressou exageros em sua obra (1962, p. 427-467).
[122] Jaime BRASIL, Ferreira de Castro: a obra e o homem,  p. 21.
[123] MAGALHÃES JÚNIOR Apud Jaime BRASIL, Ferreira de Castro: a obra e o homem,  p. 95.
[124] Abordando os problemas que envolvem a nacionalidade na literatura brasileira, Lúcia Miguel Pereira questiona a sua existência, notando que as realidades brasileiras não podem apresentar uma feição homogênea: “[...] a brasilidade totalitária é um mito, uma lenda, um tabu a que se apega a nossa vaidade. Não existe, nem poderia existir, ao menos no sentido em que o queremos tomar, de feitio moral especificamente brasileiro, igualando os homens do Rio Grande do Sul, e os diferenciando dos outros povos [...]” (Regionalismo e espírito Nacional In: A leitora e seus personagens: seleta de textos publicados em periódicos (1931-1943) e em livros,  p. 39).  Quanto a Ferreira de Castro ser um escritor estrangeiro cujo romance trata da realidade amazônica, a autora faz a seguinte apreciação: “[...] É mesmo de notar que um dos grandes romances sobre o Brasil (ou sobre a Amazônia?) seja de um estrangeiro. Ao fato acidental de ter nascido em Portugal o Sr. Ferreira de Castro devemos não se ter o ‘espírito brasileiro’ encarnado num seringueiro.” (Ibid, p. 39).
[125] José Maria FERREIRA DE CASTRO. Pequena história de A selva. In: José Maria FERREIRA DE CASTRO. A selva, 1972, p. 27
[126] Jaime Brasil faz notar que o romancista, enquanto homem independente, “detesta a política e as suas baixas manobras, mas ama a liberdade com fervor religioso.” (Ferreira de Castro: a obra e o homem, p. 52). A feição humanista da personalidade de Ferreira de Castro é ressaltada na mensagem que lhe é entregue em Portugal por vários intelectuais em 20 de junho de 1953, subscrita por milhares de cidadãos portugueses: “[...] Todos aqueles que conhecem Ferreira de Castro sabem que a piedade humana, que vibra em cada uma das suas páginas, não é um simples processo literário e muito menos um artifício do seu talento de escritor; esse mesmo amor e compreensão vivem no romancista, são a sua força, a sua riqueza e tormento, o traço mais fundo na sua personalidade, são ele mesmo debruçado sobre a dor do mundo. Dificilmente se encontrará outro escritor cuja obra seja, tão fielmente, a expressão da sua própria alma. (Apud Jaime BRASIL, Ferreira de Castro: a obra e o homem,  p. 76).
[127] José Maria FERREIRA DE CASTRO, A selva,  p. 30.
[128] Ibid., p. 39-40.
[129]  José Maria FERREIRA DE CASTRO, A selva,  p. 41-2.
[130] José Maria FERREIRA DE CASTRO, A selva,  p. 54-55
[131] José Maria FERREIRA DE CASTRO, A selva,   p. 125.
[132] Ibid., p. 193.
[133] José Maria FERREIRA DE CASTRO, A selva,  p. 204.
[134] Ibid., p. 247.
[135] José Maria FERREIRA DE CASTRO, A selva, p. 236-7.
[136] José Maria FERREIRA DE CASTRO, A selva,  p. 217-8.
[137] Ibid., p. 277.
[138] José Maria FERREIRA DE CASTRO,  A selva,  p. 232.
[139] Ibid., p. 249.
[140] Ibid., p. 244.
[141] Em seu livro Amazônia, mito e literatura, Marcos Frederico Krüger salienta: “o fogo como elemento de destruição é, tal como o dos duplos, motivo mitológico bastante utilizado na produção literária [...]” ( p. 177).
[142] O agregado é personagem recorrente na ficção do ciclo. No romance Terra de ninguém, é Epifânio, negro que atua como feiticeiro no seringal; em Dos ditos passados nos acercados do Cassianã, é o índio Pacatuba, afilhado do seringalista; em Coronel de barranco, Inácio, caboclo que vem parar no seringal após lutar junto a Plácido de Castro. Geralmente aparecem como rebotalhos devotados e fiéis, mas em romances como A selva e Dos ditos passados nos acercados do Cassianã revoltam-se e atentam contra a vida do patrão.
[143] Márcio SOUZA, A expressão amazonense: do colonialismo ao neo-colonialismo,  p. 137.
[144] Essa premissa para criação de uma novelística  é exposta por Alejo Carpentier em Literatura e consciência política na América Latina ( p. 10).
[145] Jaime BRASIL, Ferreira de Castro: a obra e o homem,  p. 47.
[146] Sobre as fontes da engendração desse discurso, ver: Neide GONDIM, A invenção da Amazônia, 1994.
[147] José Maria FERREIRA DE CASTRO, A selva, p. 114.
[148] José Maria FERREIRA DE CASTRO, A selva,  p. 281.
[149] Ibid., p. 291.
[150] Fábio LUCAS, O caráter social da  ficção do Brasil,,  p. 17.
[151] Jorge TUFIC, Existe uma literatura amazonense?,  p. 21.
[152] José Maria FERREIRA DE CASTRO Apud  Humberto de CAMPOS, Um romance amazônico. In:.Crítica,  p. 432.
[153] José Maria FERREIRA DE CASTRO, A selva,   p. 306.
[154] FERREIRA DE CASTRO estudava a produção dos autores brasileiros da geração de 30, conforme se evidencia por artigo que publica em 1934, intitulado “Literatura social brasileira”. O autor é considerado um precursor do neo-realismo português, embora o termo tenha sido efetivamente empregado por Joaquim Namorado, no artigo “Do neo-realismo, Amando Fontes”, em 1938. Um dos principais postulados do neo-realismo constitui a denúncia social, especialmente da injustiça praticada contra os humildes. (Cf. Massaud MOISÉS, Neo-Realismo In: Dicionário de literatura portuguesa,  p. 244).
[155] Alfredo BOSI, História concisa da literatura brasileira, p. 443.
[156] José Maria FERREIRA DE CASTRO, A selva,  p. 212-13.
[157] Richard BERMANN apud Jaime BRASIL, Ferreira de Castro : a obra e o homem,  p. 198.
[158] Alberto VIVIANI apud Jaime BRASIL, Ferreira de Castro: A obra e o homem,  p. 112.
[159] A frase encontra-se no prefácio escrito por Euclides da Cunha para a obra Inferno verde, de Alberto Rangel (Euclides da CUNHA In: Alberto RANGEL, p. 10). As considerações de Euclides da Cunha sobre o caráter desconhecido e fabuloso da região amazônica são tecidas ao longo desse prefácio e de outras obras suas, como, por exemplo, À margem da história.
[160] João da Rocha Fagundes PEREGRINO JÚNIOR, Grupo nortista. In: Afrânio COUTINHO (Dir.). A literatura no Brasil, p. 153.
[161] Humberto de CAMPOS, Um romance amazônico. In: Humberto de CAMPOS, Crítica,  p. 429.
[162] Humberto de CAMPOS, O furto. In: Humberto de CAMPOS, O monstro e outros contos,  p. 89.
[163] Márcio SOUZA, A expressão amazonense: do colonialismo ao neo-colonialismo,  p. 125.
[164] Ibid.,  p. 140.
[165] José Maria FERREIRA DE CASTRO, A selva,  p. 114-115.
[166] Sônia BRAYNER, Labirinto do espaço romanesco,  p. 29.
[167] Eloína Monteiro dos SANTOS, Uma liderança política cabocla: Álvaro Maia,  p. 22-3.
[168] A estréia de Álvaro Maia no mundo das letras se deu em 1904, aos onze anos, quando foi publicado num jornal infantil o poema “Cabelos negros”, de sua autoria. Em 1925, foi escolhido príncipe dos poetas amazonenses no concurso promovido pela revista Redenção. Tendo tido seus textos poéticos publicados em jornais, só veio a reuni-los em livro em 1958, sob o título Buzina dos paranás. Durante as décadas de 1950 e 1960, publica os livros contendo narrativas e o romance Beiradão. O autor colaborou com a fundação da Sociedade Amazonense de Letras, posteriormente denominada Academia Amazonense de Letras.
[169] Em Gente dos seringais, Álvaro Maia esclarece que as narrativas que compõem o livro se passam na região do Médio Madeira na confrontação com os rios Maici, Machado e Jamari, à margem direita, e com os rios menores como o Puruzinho e o Mucuim, à margem esquerda. Depreende-se nas demais obras a mesma localização.
[170] Álvaro MAIA. Introdução, In: Gente dos seringais, p. 14.
[171] Ibid.,  p. 15.
[172] Jean-Paul SARTRE, O que é literatura?, p. 104.
[173] Jean-Paul SARTRE, O que é literatura?, p.105.
[174] Walter BENJAMIN, O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In:Walter BENJAMIN, Magia e técnica, arte e política (ensaios sobre literatura e história da cultura), p. 201.
[175] Álvaro MAIA, Beiradão, p. 23.
[176] Ibid., p. 161.
[177] Álvaro MAIA, Beiradão, p. 28-29.
[178] Álvaro MAIA, Beiradão, p. 90.
[179] Ibid., p. 72.
[180] Neide GONDIM. Dos bamburrais aos beiradões. In: Álvaro MAIA,  Beiradão, p. 19
[181] Álvaro MAIA, Beiradão, p. 174.
[182] Álvaro MAIA, Beiradão, p. 160.
[183] Ibid., p. 171.
[184] Álvaro MAIA, Beiradão, p. 178-9.
[185] Ibid., p. 181.
[186] Álvaro MAIA, Beiradão, p. 223.
[187] Ibid., p. 266.
[188] Álvaro MAIA, Beiradão, p. 266.
[189] Ibid., p. 288.
[190] Ibid., p. 293.
[191] Álvaro MAIA, Beiradão, p. 291-2.
[192] Ibid., p. 304-5.
[193] Álvaro MAIA, Beiradão, p. 344.
[194] Ibid., p. 364.
[195] Álvaro MAIA, Beiradão, p. 152.
[196] Ibid., p. 180.
[197] Álvaro MAIA, Beiradão, p. 200.
[198] Ibid., Beiradão, p. 199.
[199] Álvaro MAIA, Canção de fé e esperança. In: Revista UBE-Amazonas (Álvaro Maia – Poliantéia), p. 150.
[200] Idem, Beiradão, p. 193.
[201] Eloína Monteiro dos SANTOS, Uma liderança política cabocla: Álvaro Maia, p. 114.
[202] Álvaro MAIA, Beiradão, p. 329.
[203] Ibid., p. 330.
[204] Álvaro MAIA, Beiradão, p. 337.
[205] Eloína Monteiro dos SANTOS, Uma liderança política cabocla: Álvaro Maia, p. 130.
[206] André ARAÚJO, Traços de uma sociologia na obra de Álvaro Maia. In: Revista da UBE–Amazonas (Álvaro Maia – Poliantéia),  p. 69.
[207] A esse respeito, Eloína Monteiro dos Santos destaca: “[...] As idéias regionalistas defendidas pelo glebarismo nesse momento articulam-se com aquelas peculiares às do Partido Revisionista [...]” (Uma liderança política cabocla: Álvaro Maia, p. 40).
[208] Álvaro MAIA, “Canção de fé e esperança”. In: Revista da UBE-Amazonas  (Álvaro Maia – Polianteia), p. 153.
[209] Álvaro MAIA, Beiradão, p. 369.
[210] Arthur C. F. REIS, O seringal e o seringueiro,  p. 178.
[211] Álvaro MAIA, Beiradão, p. 148.
[212] Eloína Monteiro dos SANTOS, Uma liderança política cabocla: Álvaro Maia, p. 87-90.
[213] Graduado em Ciência da literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rogel Samuel exerce nessa universidade a função de professor doutor adjunto à época da publicação de O amante das amazonas (1992). Como analista literário, publicou Crítica da escrita (1979), organizou e colaborou na publicação de Literatura básica (1985) e Como curtir o livro: o que é teolit? (1986). No campo ficcional, o autor produziu prosa e poesia. Publicou, em 1991, 120 poemas.
[214] De acordo com a autora, os escritores-críticos caracterizam-se essencialmente como escritores (ficcionistas) que tomaram a si o papel de escrever crítica em razão de um descontentamento com a atuação da crítica profissional: “[...] Os ataques e as chacotas dos escritores contra os críticos literários constituem um vasto repertório, capaz de preencher vários volumes. Na ausência de uma instância superior que regulasse o dissenso, e no descontentamento com as instâncias ‘inferiores’ que se arrogavam o direito de os julgar, os criadores puseram-se a praticar uma espécie de contra-crítica, estimada por eles como mais competente, ou pelo menos mais eficiente, por estar ligada à própria experiência criadora.”(Leyla PERRONE-MOISÉS. Altas literaturas: escolha e valor na obra crítica de escritores modernos, p. 143).
[215] Ítalo CALVINO, Se um viajante numa noite de inverno,  p. 16.
[216] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 51.
[217] Ibid., p. 59.
[218] Rogel Samuel, O amante das amazonas, p. 51.
[219] Ibid.,  p. 9.
[220] Mikhail BAKHTIN, A tipologia do discurso na prosa. In: Luiz COSTA LIMA (org.), Teoria da literatura em suas fontes, p. 489-509.
[221] Mikhail BAKHTIN, A tipologia do discurso na prosa In: Luiz COSTA LIMA (Org.) Teoria da literatura em suas fontes,  p. 500.
[222] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 5-6.
[223] Ibid.,  p. 16.
[224] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 16.
[225] Ibid., p. 10-11.
[226] Ibid., p. 32.
[227] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 43.
[228] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 14.
[229] Ibid., p. 14.
[230] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 38-39.
[231] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 89.
[232] Ibid., p. 89.
[233] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 82.
[234] Leyla PERRONE-MOISÉS, Altas literaturas: escolha e valor na obra crítica de escritores modernos,  p. 156.
[235] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 33-5.
[236] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 8.
[237] Ibid., p. 8.
[238] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 84.
[239] Leyla Perrone-Moisés comenta que a novidade também é um valor prezado pelos escritores-críticos: “[...] A novidade valorizada pelos escritores críticos modernos é principalmente uma novidade de expressão que rompe com os velhos hábitos e surpreende o leitor [...]” (Altas literaturas: escolha e valor na obra crítica de escritores modernos, p. 171).
[240] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 5.
[241] Benedito NUNES, O tempo na narrativa, p. 38.
[242] Ibid., p. 40.
[243] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 9
[244] Benedito NUNES, o tempo na narrativa,  p. 32.
[245] Rogel SAMUEL, Crítica da escrita, p. 47. (O “pai” constitui uma personagem do conto “A terceira margem do rio”, analisado pelo autor na primeira parte desse livro).
[246] É preciso não perder de vista, todavia, que Samuel explicita a concepção de Roland Barthes desse conotador: “Os semas [...] são considerados por Barthes, como a voz da pessoa, dos lugares e dos objetos: o sema é o conotador, por um entusiasmo do texto da configuração de caráter destes elementos, define uma interpretação ideológica [..]”(Rogel SAMUEL, Crítica da escrita, p. 47).
[247] A esse respeito, é oportuna a complementação de Beth Brait: “Ao encarar a personagem como ser fictício, com forma própria de existir, os autores situam a personagem dentro da especificidade do texto, considerando a sua complexidade e alcance dos métodos utilizados para apreendê-la. (A personagem, p. 51).
[248] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 21.
[249] Ibid., p. 22.
[250] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 77
[251] Ibid., p. 23.
[252] Sobre o índice, Donald Schüler informa: “[...] Os índices remetem ao caráter das personagens, à atmosfera, dizem respeito ao significado, em contraste com as funções que se restringem ao desenrolar dos acontecimentos” (Teoria do romance, p. 54).
[253] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 67-68.
[254] Ibid., p. 69.
[255] Ibid., p. 70.
[256] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 70.
[257] Ibid., p. 72.
[258] Arthur Cezar Ferreira REIS, A conquista espiritual da Amazônia, p. 113.
[259] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas,  p. 54.
[260] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas,  p. 54.
[261] Ibid., p. 57.
[262] Ibid., p. 57.
[263] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 95.
[264] Rogel SAMUEL, Crítica da escrita, p. 65.
[265] Ibid., p. 80.
[266] Alejo Carpentier, Literatura e consciência política na América Latina, p. 9-34.
[267] “A memória é um cabedal infinito do qual só registramos um fragmento [...]” (Ecléa BOSI, Memória e sociedade: lembrança de velhos, p. 39.
[268] José Maria FERREIRA DE CASTRO, Pórtico. In: José Maria FERREIRA DE CASTRO, A selva, p. 25.
[269] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 10.
[270] A carta de Ferreira de Castro é reproduzida por Álvaro Maia na primeira edição do romance Beiradão, de 1958.
[271] Flávio KOTHE,  Fundamentos da teoria literária,  p. 388.
[272]Rogel Samuel, Crítica da escrita, p. 28.

Um comentário:

  1. Bom dia.
    Meus sinceros parabéns pela belissíma postagem a respeito dos ciclos da borracha. Realmente muito mais profunda que a maioria por mim já lidas.

    Desejo lhe apresentar meu blog que assim como o seu, resgata um pouco deste período pujante de nossa história.

    https://seringaiseseringueiros.blogspot.com.br/

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